terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O centenário de Nelson Rodrigues



Amigos, é com prazer que informamos que em agosto deste ano realizaremos o primeiro encontro presencial batizado de “Literatura na Arquibancada 2012 – O centenário de Nelson Rodrigues”. Esperamos, o primeiro de vários, pelo menos até a Copa de 2014, no Brasil. Pretendemos sempre ter um homenageado/patrono a cada ano e nada mais justo no ano do centenário de Nelson Rodrigues que esse grande nome da literatura brasileira seja o escolhido. Oportunamente, informaremos confirmação de datas e locais.

Nelson Falcão Rodrigues ou simplesmente Nelson Rodrigues. Esse é o nome de um dos maiores nomes da literatura brasileira e com certeza, um dos que mais valorizaram o gênero da crônica, especialmente, quando o assunto era o futebol.

Nelson Rodrigues nasceu no dia 23 de agosto de 1912, no Recife, mas logo se mudou para o Rio de Janeiro, onde viveu na antiga e tradicional Aldeia Campista, bairro da Zona Norte carioca, que se mistura ao de Vila Isabel.




Aldeia Campista, no Rio de Janeiro.



Ali, nesta “pequena aldeia”, e em uma rua de nome bastante sugestivo, “Alegre”, Nelson deu os primeiros pontapés em uma bola de futebol. Felizmente, deixou as peladas para se dedicar ao jornalismo. Começou escrevendo reportagens policiais até chegar no jornal Crítica onde passou à editoria de Esporte. Mas a carreira do jornalista esportivo durou pouco. Apesar de adorar o futebol, passou a fazer textos para o teatro e a carreira de jornalista, a partir da década de 1940 confundia-se com a de teatrólogo.

Os irmãos Rodrigues: Augusto (foto maior),
era o diretor da Manchete Esportiva;
Nelson (abaixo, à esquerda), cronista;
e Paulo, repórter.
Nelson retornou ao futebol no ano de 1955, quando passou a escrever para a revista Manchete Esportiva. Deixou textos maravilhosos nas páginas do Jornal dos Sports, Última Hora e O Globo. Sua incrível produção literária de crônicas sobre o futebol foi feita de uma forma inusitada para o torcedor das arquibancadas. Nelson tinha dificuldades para assistir a um jogo de futebol porque aos 20 anos perdeu 30% da visão. Talvez estivesse nesse “detalhe” a magia de seus textos. A dificuldade para enxergar trouxe um componente fundamental para a forma que escrevia: a imaginação.

Nelson Rodrigues escrevia semelhante a um poeta, observando os fatos, colocando-se como um personagem onisciente, dando a tudo que conseguia enxergar a interpretação das “cores” e emoção. Talvez também venha daí a reflexão que ele mesmo criou a respeito do trabalho de um jornalista: “Houve um tempo, no passado do homem, em que o fato tinha, sempre, um Camões, um Homero, um Dante à mão. Por outras palavras: – o poeta era o repórter que dava ao fato o seu canto específico. Hoje, nós temos tudo: – jornal, rádio e televisão. O que nos falta é, justamente, a capacidade de admirar, de cobrir o acontecimento com o nosso espanto".
E Nelson disse isso tudo, no ano de 1956, quando o veículo televisão ainda engatinhava e não tinha o atual poder e impacto na sociedade.

A partir de hoje, e até o dia 23 de agosto, data em que completaria 100 anos, Literatura na Arquibancada vai resgatar algumas obras primas de Nelson Rodrigues na literatura esportiva. Também iremos trazer entrevistas com alguns dos maiores estudiosos do jornalista, escritor e teatrólogo.

Para iniciar a série, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura de duas obras fundamentais para conhecermos a trajetória de Nelson Rodrigues no mundo do futebol. A primeira, “O futebol em Nelson Rodrigues”, de José Carlos Marques (Educ, Fapesp, 2.000). O livro poderia também ser chamado de “pequena grande obra prima”. Pequena, pelo formato, 13x17cm; e grande pelo espetacular conteúdo que carrega em cada página.

Também destacamos o importante estudo feito por Fátima Antunes, “Com brasileiro, não há quem possa – Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues” (Editora Unesp, 2004), embora nesse caso Nelson Rodrigues faça parte de um trio de cronistas esportivos destacados pela autora.








Abaixo resgatamos trechos das duas obras.


“Em 1956, o tema mais freqüente nas crônicas é a humilhação. A princípio, Nelson Rodrigues afirmava que o brasileiro precisava ser humilhado; depois, dizia que a humilhação impelia à ação e, por fim, concluía que o brasileiro estava cansado de tanta humilhação. Haveria, portanto, necessidade de mudar. Dizia: ‘Por mais doce e cordial que seja a nossa esportividade, já começamos a rosnar contra a humilhação de tantos resultados negativos’. (Manchete Esportiva, 5/5/1956).

A propósito de um amistoso realizado no Maracanã, cujo resultado foi Brasil 2 x Uruguai 0, e onde os uruguaios se revoltaram contra o juiz por causa de um pênalti marcado a favor do Brasil, Nelson comenta: ‘Outra reflexão que o episódio de ontem comporta: – nós somos uns anjos, uns bucólicos, uns idílicos. Em Buenos Aires perdemos, no apito, um sul-americano que, tecnicamente, era nosso. E longe de espancar o árbitro, os nossos jogadores, locutores e jornalistas se deram ao luxo de apanhar de sabre. Vejam vocês: – de sabre! O Chico saiu de maca e quase de rabecão. Em Montevidéu, porque o Vasco teve o descaro de vencer o Peñarol, os locutores brasileiros foram apedrejados como adúlteras bíblicas. Aqui Obdúlio Varela pôde ganhar o Mundial no grito e, ontem, nós vimos a Celeste dizimar, devastar, ceifar a pescoções um juiz brasileiro. Eu, então, numa melancolia digna de Casemiro de Abreu, digo a um companheiro: – ‘Foi por isso que eles ganharam a Copa de 1950!’. (Manchete Esportiva, 30/06/1956)

Derrota brasileira na Copa de 1950,
em pleno Maracanã.
O brasileiro, habitante de uma terra paradisíaca, seria dócil e sem maldade, como os índios descritos nos relatos de viajantes do período colonial ou nos romances de José de Alencar. Para Nelson, enquanto os brasileiros eram idealizadores e sonhadores, os uruguaios, ao contrário, buscavam a vitória com todo o empenho possível, mesmo que, para isso, tivessem de recorrer à violência. Diante desses diferentes comportamentos, Nelson Rodrigues concluía que o brasileiro era humilhado porque era humilde e, a partir dessa constatação, resolveu empreender uma busca sistemática às raízes de tanta humildade.

A princípio, buscou explicações emocionais e psíquicas, pois, em sua opinião, o medo e o trauma de 50 rondavam as cabeças de todos os jogadores e também da imprensa esportiva. Enquanto o brasileiro não superasse esse trauma – dizia – , seria difícil obter sucesso não apenas no futebol, mas em todos os ramos de atividade. Nelson foi o primeiro a reconhecer a necessidade de manter um psicólogo para os jogadores de futebol. Afinal, segundo ele, não bastava cuidar apenas das dores físicas. Era preciso cuidar também das dores da alma. Sua sugestão vingou, pois João Carvalhaes, um sociólogo licenciado em psicologia, integrou-se à comissão técnica que acompanhou a seleção de 58. Sua função era aplicar testes psicotécnicos aos jogadores, tal como fazia com os candidatos a motorista e cobrador dos ônibus e bondes da CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos de São Paulo, onde trabalhava:

De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: – já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável.
Só não existe um especialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em conseqüência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise.

Brasil 2 x 4 Hungria, Copa de 1954.
Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Basta lembrar o que foi o jogo Brasil x Hungria, que perdemos no Mundial da Suíça. Eu disse “perdemos” e por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Creio mesmo que, em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Eis a verdade: – antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Repito: – fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. Por que esse medo de bicho, esse pânico selvagem, por quê? Ninguém saberia dizê-lo.
E não era uma pane individual: – era um afogamento coletivo. Naufragaram, ali, os jogadores, os torcedores, o chefe da delegação, o técnico, o massagista. (...) Foi nossa alma que ruiu face à Hungria, foi a nossa alma que ruiu face ao Uruguai.
E aqui pergunto: – que entende de alma um técnico de futebol? (...) teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.
(...) só um Freud explicaria a derrota do Brasil frente à Hungria, do Brasil frente ao Uruguai e, em suma, qualquer derrota do homem brasileiro no futebol ou fora dele. (Manchete Esportiva, 7/4/1956)

Fonte:
“Com brasileiro, não há quem possa – Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues ”, de Fátima Antunes.
(Editora Unesp, 2004)

                                                                                  *****


“ (...) Nesse sentido pode-se entender o que Nelson pretendia expressar ao afirmar que “O intelectual brasileiro que ignora o futebol é um alienado de babar na gravata”. Daí a exploração do contraste entre os termos “intelectual”, que se oporia naturalmente a “alienado”, mas expressando aqui todo o desinteresse de nossa intelectualidade ao desprezar a importância do futebol no Brasil.
Gostaria aqui de chamar a atenção para mais dois exemplos claros da construção da imagem em aproximação dos contrários. Ao comentar o exílio proclamado do craque brasileiro na Copa do Chile, em 1962, longe de casa e refém da Cordilheira dos Andes, Nelson afirma:

‘...o brasileiro é ainda maior quando solitário. Ponham o brasileiro numa ilha deserta. Ele sozinho, como um Robson Crusoé, ou apenas com uma arara no ombro. E o brasileiro, sem mais ninguém, bebendo água em cuia de queijo Palmira, será um rei shakespeariano, terá um peito de césar proclamado’.

A realeza do brasileiro é tão inata que ele, mesmo longe de seu império, pode proclamar-se um Rei Lear ou um César, com todas as araras ao ombro e bebendo água numa cuia de queijo Palmira (quem jamais imaginaria um Lear ou um Hamlet a beber água numa cuia?).
A outra construção surpreendente é a da participação da “santa senhora” como “gandula” num jogo de rua:

Eu me lembro de uma santa senhora que, certa vez, atravessou uma pelada de calçada. Alinhadíssima, uma compostura de rainha. E, súbito, a bola vem em sua direção. Ela não pensou duas vezes: – deu uma botinada genial. A garotada quase pediu bis como na ópera’.

Vejamos como se configura o paradigma de composição de elementos ditos da cultura do ‘alto’: santa, senhora, compostura, rainha, alinhadíssima. Pois bem, a personagem que simboliza esse cânone provocará o quê? – nada mais do que uma ‘botinada genial’ (veja-se o contraste). Do outro lado, a composição de elementos ditos da cultura do ‘baixo’ (pelada de calçada – deliciosa oposição ambígua à santa senhora alinhadíssima – bola e garotada) produzirá uma ação enobrecedora e elitizante, qual seja a de quase ‘pedir bis como na ópera’. A botinada, própria da garotada, e o bis da ópera, próprio da senhora alinhadíssima, entrecruzam-se e se mesclam, potencializando e estendendo a linguagem para sua auto-referenciação lúdica e metalinguística.

As metáforas, hipérboles e os gramas fonéticos causam desse modo efeitos múltiplos e simultâneos, um a intensificar o outro. A leitura deve ser feita numa perspectiva em espiral, pois de um só centro irradiam vários círculos que, de um mesmo ponto de origem, caminham em voltas e rodeios em torno do objeto. É como se a relação entre significante e significado fosse superlativizada, causando a explosão do signo e, em uma só palavra, do próprio código, que buscaria refúgio no uso do riso para poder assentar-se e ganhar fôlego: o riso serve assim, ao mesmo tempo, como elemento de ruptura mas também de reconstrução, uma vez que ele sintetiza a reordenação da linguagem já estraçalhada pelo exagero de seu emprego lúdico. Trata-se, enfim, de um sistema de artificialização e carnavalização que, em última instância, é sempre transbordante e excessivo, que navega constantemente à sombra e à luz dos ventos provocando essa “bizarria chocante”, extravagante, a que damos o nome de neobarroco.

Fonte:
“O futebol em Nelson Rodrigues”, de José Carlos Marques.
(Educ, Fapesp, 2000)

Para saber mais sobre Nelson Rodrigues, acessar: www.releituras.com/nelsonr_bio.asp

Sobre os autores destacados:

Fátima Antunes
Mestre e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo. É socióloga do Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Em 1992, defendeu a dissertação de mestrado “Futebol de fábrica em São Paulo”.



José Carlos Marques
É docente do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru) e Doutor em Ciências da Comunicação (Habilitação Jornalismo) pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Desenvolve pesquisas nas áreas de comunicação e esporte, teorias da comunicação, jornalismo, literatura e comunicação organizacional

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