quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mário Vargas Llosa e o futebol


No dia 7 de outubro de 2010,  Mário Vargas Llosa, escritor, dramaturgo, poeta, ensaísta, crítico literário, jornalista e candidato derrotado a presidente no Peru, seu país de origem, recebia finalmente a premiação maior de um escritor: o Prêmio Nobel de Literatura. Llosa tem livros publicados em quase 50 idiomas, entre eles alguns romances que o consagraram como Tia Júlia e o escrevinhador (1977); Conversa na catedral (1960); e A guerra do fim do mundo (1981), sobre a Guerra de Canudos, e que ele dedica ao escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de Os Sertões. Seu mais recente livro é O sonho do celta (Alfaguara,2010).


Como o eterno rival colombiano, seu "amigo", Gabriel Gárcia Marquez, ele também é apaixonado pelo tema futebol, tanto que, logo após a entrega do Prêmio Nobel, Llosa, quando recebeu a pergunta do jornalista espanhol do El País “se haveria alguma semelhança entre escritores e jogadores de futebol”, ele garantiu que a comparação era possível, sim, e emendou: “um escritor, como um atleta, é construído com disciplina e obstinação".



Vargas Llosa recebendo Prêmio Nobel de Literatura,
2010, das mãos do rei Carlos Gustavo da Suécia.



Vargas Llosa vai mais longe. Ele já chegou a recomendar a jovens escritores que diante das dúvidas lessem crônicas sobre futebol como aprendizado, justificando que “a área de esportes constituí uma modalidade de literatura contemporânea que cria mitologia e dá uma dimensão mágica à experiência humana”. Parece exagero, mas Llosa eleva o futebol à dimensões impensáveis, como a de que “o futebol é um fenômeno contemporâneo elevado à categoria da religião laica, a mais praticada no nosso tempo”.


Por essas definições, certamente ele teria várias paixões no mundo do futebol. E tem. Por viver parte do ano na Espanha e ter cidadania espanhola desde o ano de 1993, seu coração por lá é assumidamente pertencente ao Real Madrid. E não é um torcedor comum. Pouco tempo após receber seu Nobel de Literatura ele foi homenageado pelo clube madrilenho dando o pontapé inicial da partida entre Real e Valência.
Era de se esperar pela homenagem. Antes, em 2010, Vargas Llosa teve honraria ainda maior. Ele recebeu da coroa espanhola o título de Marquês ao mesmo tempo que o técnico da seleção espanhola campeã da Copa de 2010, Vicente del Bosque.

                                      vídeo com discurso emocionado de Vargas Llosa
                                      para quase 60 mil pessoas no estádio Nacional.

Mas o sangue latino que corre em suas veias não o deixa cometer traição. Vargas Llosa é torcedor fanático do Universitário de Lima, conhecido popularmente como “la U”. E o clube peruano não deixou para menos nas homenagens ao seu torcedor ilustre. Em fevereiro do ano passado, ele foi ovacionado por 60 mil torcedores do Universitário em pleno Estádio Nacional de Lima após receber o título de “sócio honorário” do clube de coração. E bota coração nisso. O início dessa paixão pode começar a ser explicada na frase que Vargas Llosa deu durante essa homenagem: “Esta é a mais emocionante homenagem que poderia receber. La U é muito mais do que um clube de futebol...É um mito, uma lenda que nos fez vibrar ao longo dos anos com suas vitórias, que nos fez sofrer com suas derrotas e percalços e nos fez renascer o entusiasmo”.


Agora sim é possível explicar essa paixão fervorosa de Vargas Llosa pelo clube peruano. Tudo começou na infância, por volta dos 10 anos, quando ele voltou a viver em Lima, no Peru. Isso mesmo, voltou porque Vargas Llosa passou a primeira infância em Cochabamba, na Bolívia. Antes do futebol, no período em que viveu na Bolívia, ele praticava natação. Era fundista do estilo livre e chegou a participar com destaque em várias competições escolares.
Mas o futebol, como a grande maioria dos garotos latinos era sua paixão. Nunca sonhou em ser jogador de futebol profissional, gostava das “peladas” nas quais atuava como meio-campista. A vida de torcedor começou na tarde de um domingo do qual jamais se esqueceria. Era o ano de 1946 quando seu tio o levou pela primeira vez ao Estádio Nacional de Lima para assistir a um jogo da “la U”.


A cena foi tão forte e representativa em sua vida que acabou sonhando um dia poder correr dentro daquele gramado espetacular diante dos milhares de torcedores do seu time de coração. Como numa obra de ficção que ele tão bem soube criar, o sonho virou realidade. Tudo porque um dia, quando já era um adolescente, uma das maiores lendas do futebol peruano, Alberto Toto Terry, seu vizinho de bairro, conseguiu que o garoto não só vestisse a camisa do Universitário como também jogasse no Monumental de Lima.  Muitos anos depois Vargas Llosa relembraria desse instante mágico em seu livro “El pez en el agua”: “esse vínculo com o Universitário (la U) é o único inegociável”.

No alto, à esquerda, Llosa no estádio Nacional.

Vargas Llosa nunca deixou de acompanhar o Universitário ao vivo, nas tribunas do Estádio Nacional, sempre que passou por Lima, no Peru. Gostava tanto de futebol que acabou cobrindo como crítico de um jornal a Copa de 1982, na Espanha. E foi lá que ele se encantou pela primeira vez por um jovem craque argentino: “…com um passe simples e preciso como um teorema, coloca em movimento um ataque irresistível, que seria injusto não chamá-lo de espetacular, um jogador que torna uma partida em uma exibição de gênio individual”.


Mais tarde, quando o astro argentino perdeu-se nas drogas, ele retornaria com sua prosa: “Há dois Maradonas. O do campo, que é prodigioso – depois de Pelé creio que foi a grande figura mítica do futebol – e ao mesmo tempo existe esse aspecto trágico: um homem que não conseguiu suportar a popularidade e que fez de sua vida algo tão trágico, lamentável. Um contraste terrível que mostra que é correta a famosa frase de Camus: ‘Um homem genial em determinada atividade pode ser um pobre homem, completamente insignificante e nulo em outra’. Creio que esse contraste de Maradona faz dele um personagem trágico”.


Vargas Llosa acaba de nos dar a dica de quem então seria seu maior ídolo no futebol. Não poderia deixar de ser outro: Pelé. E o Nobel da Literatura de 2010 não perderia a oportunidade de ver de perto o rei do futebol, em pleno estádio do Maracanã, nem que para isso tivesse de brigar com a própria esposa. O episódio aconteceu em 1965 quando Vargas Llosa estava no Brasil curtindo a lua de mel de seu segundo casamento. O Brasil enfrentava a Alemanha em um amistoso e o craque brasileiro não decepcionou o fã. Marcou um dos dois gols da vitória brasileira na partida.


O encantamento pelo futebol fez Vargas Llosa também reverenciar outro brasileiro, craque fora das quatro linhas, mas reconhecido como um dos maiores antropólogos e cientistas sociais do mundo: “Roberto DaMatta escreveu que a imensa popularidade do futebol existe porque no campo se vive algo como a sociedade perfeita: igualdade absoluta, justiça, liberdade dentro de certas regras, sem favoritismos, cada qual vale por seu talento, méritos, e isso dá uma ideia de sociedade perfeitamente organizada, em que o indivíduo é livre, mas forma parte de um tecido social. É muito bonita essa ideia”.


Vargas Llosa não é um especialista como o brasileiro Roberto DaMatta, mas tem sua teoria sobre a importância que o futebol tem para as sociedades. No ensaio que escreveu chamado “Os 11 titulares”, ele define o que o futebol representa para a sociedade e destaca a necessidade que temos de formar ídolos e que o futebol é um bom lugar para encontrá-los:
“Os povos precisam de heróis contemporâneos, seres a quem endeusar. Não há país que escape dessa regra. Culta ou inculta, rica ou pobre, capitalista ou socialista, toda sociedade sente essa urgência irracional de entronizar ídolos de carne e osso diante dos quais queimam incenso”. E prossegue dizendo sobre o futebol: “Pois bem, jogadores de futebol são as pessoas mais inofensivas a quem se pode dar essa função de idolatria. Elas são, está claro, infinitamente mais inócuas que os políticos e os guerreiros, em cujas mãos a idolatria das massas pode se converter em um instrumento terrível”.


Ainda sobre o ensaio “Os 11 titulares”, Vargas Llosa fez, brilhantemente, ao jornal El Diario, um comentário que somente um craque da literatura mundial é capaz: “O culto ao ‘às’ do futebol dura o mesmo que seu talento futebolístico e desaparece com este. É efêmero, pois as estrelas do futebol se queimam logo no fogo verde dos estádios e os cultores dessa religião são implacáveis: nas tribunas, nada está mais perto da ovação que os assovios (vaias)”. 

Cienciano, campeão Recopa Sul-Americana 2003.

Vargas Llosa também escreveu outro ensaio sobre futebol chamado “O coração goleador”, publicado originariamente pela revista peruana “Etiqueta Negra”. Apesar de torcedor fervoroso de “La U”, Llosa tem simpatia pela equipe do Cienciano, da cidade de Cusco. E foi após ver essa equipe conquistar a Recopa Sul-Americana de 2003 que Llosa colocou em campo todo o seu talento literário:






Cienciano: o coração goleador

Que time era esse de nome tão estapafúrdio? De onde saia e, sobretudo, que fazia, competindo e, para completar, derrotando clubes importantes do futebol sul-americano? Essas perguntas eram perfeitamente pertinentes, porque, comparado a qualquer equipe de nível internacional, dessas que aparecem na televisão, e cujas estrelas se converteram em ícones da vida moderna, o Cienciano, pura e simplesmente, não existe. Ou, melhor dizendo, não tem direito à existência, pois todas as suas credenciais e características deveriam condená-lo a não figurar sequer em alguma competição internacional e a definhar nas poeirentas canchas do futebol provinciano, onde se perdem as fronteiras entre o futebol profissional e o amador, entre o jogo sério e submetido às regras e o que os peruanos chamam de “fazenda”, quer dizer o futebol de quebra-pau, chutes na canela, entrevero e bombardeio.


Vejamos vislumbres da identidade do recente ganhador da Copa Sul-Americana 2003. O mais ilustre que o adorna é sua tradição: um século e um ano de existência. É de Cusco, uma terra carregada de história e de deslumbrantes belezas naturais e arqueológicas, mas agora, sem méritos conhecidos e sem sequer dar sinal de vida na pedestre geografia do futebol.
Os jornalistas, para destacar ainda mais a façanha do Cienciano, fizeram algumas comparações entre este clube e o River Plate, da Argentina. Com quem decidiu a final. A planilha total de salários do Cienciano não cobre o que ganha um só dos jogadores do quadro argentino. O goleador do River, Marcelo Salas, tem um salário mensal de cem mil dólares. O do jogador mais bem pago do Cienciano, o goleiro Oscar Ibanez, é de três mil.


O Cienciano se chama assim porque nasceu como equipe de futebol do Colégio Nacional de Ciências de Cusco; não tem estádio próprio nem sede social. 

Treina em estádios alugados e muitas vezes nos parques e descampados cusquenhos ou na planície que rodeia as ruínas incaicas de Sacsayhuamon.


German Carty

Se por algo se o conhece antes de sua proeza sul-americana era por constituir algo assim como um clube-asilo, no qual naufragavam os jogadores profissionais despedidos por seu escasso rendimento de clubes importantes ou por haver alcançado uma idade excessiva para o meio futebolístico. Por exemplo, seu goleador no torneio, German Carty, com seis gols em seu haver, tem trinta e sete anos. Os amantes de estatística precisam que os três jogadores ases do Cienciano somam, juntos, mais de cem anos de idade. E já é um fato sabido e repetido até ao cansaço que o estrategista de sua façanha, o treinador Freddy Ternero, hoje um heroi nacional no Peru, era um desempregado do futebol profissional faz apenas um ano, quando ganhava a vida, modestissimamente, em uma escola de futebol para menores, em um bairro pobre de Lima. 


Como pode, esta equipe, tão desamparada e desarmada, realizar uma odisséia semelhante? Porque uma partida se pode ganhar por acidente ou armadilhas do azar. Mas um campeonato, quer dizer uma série de encontros em cenários internacionais, no qual competem equipes de primeira categoria, exige algo mais que boa estrela e o favor do Espírito Santo: exige um rendimento igual e um excelente estado físico dos jogadores, uma estratégia eficaz e, além de empenho e vontade, uma infraestrutura que dê aos jogadores, no campo, esse apoio físico, moral e psicológico, que costuma ser um componente nevrálgico das grandes vitórias esportivas.


O que tinha o Cienciano, ao qual faltava quase tudo aquilo que acabo de enumerar? O que nós, os torcedores de “la U” (o Universitário de Deportes), gostamos de dizer que tem sobrado sempre a nosso clube (já não é tão certo!): garra. Quer dizer, brio, loucura e coração na hora de ir para o campo. Trata-se de um fator emotivo e passional, que todo técnico sério olha com desconfiança e se sente obrigado a descartar quando traça o plano de trabalho e o roteiro da equipe. Ele sabe que o entusiasmo não mete gols nem substitui a destreza e a contundência que resultam da preparação, a disciplina, o domínio da bola e as táticas bem concebidas e mais bem praticadas.


Ele sabe e pode demonstrar que o melhor futebolista não é um romântico exaltado senão uma máquina: uma força muscular fria e eficiente, eriçada por reflexos condicionados, um verdadeiro computador que neutraliza a força e os conhecimentos do adversário e, coordenando com os companheiros como se coordenam os instrumentos de uma orquestra bem dirigida, encontra fatidicamente o caminho do gol.


Isso é o certo na maioria dos casos. Mas a mim, como estou seguro, a muitíssimos aficionados do futebol, me da grande alegria saber, graças ao êxito inesperado do Cienciano, que há exceções e que, inclusive em nossos dias, em que o futebol se converteu numa das mais portentosas indústrias do planeta, e quando as grandes equipes e seus goleadores são, em sua perfeição e eficiência, cada vez mais máquinas potentes e cada vez menos seres mortais comuns, o futebol volta a ser, mesmo que muito de vez em quando e por uma conjunção excepcional de circunstâncias, não uma operação matemática de resultados previsíveis, mas um encontro de consequências imprevistas entre seres vivos que jogam mais para se divertir e gozar do que por um salário ou por uma taça, e para sentir-se unidos e embriagados por excitação fraterna, que nasce nas partidas nos que, ao mesmo tempo em que a sabedoria e a experiência, se enfrentam, soltando faíscas a cada chute, o sentimento e a paixão.


Essas tardes em que não os pés, mas o coração mete os gols e que são lembradas depois como uma das experiências que nos reconciliam, a nós, torcedores pobres diabos, com a vida.

Fonte:
Tradução: Ludenbergue Góes

Para conhecer vida e obra completa de Mario Vargas Llosa, acessar:
http://www.mvargasllosa.com/


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