segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A loucura do futebol


Um livro que começou a quebrar o preconceito de que acadêmicos não deveriam estudar, pesquisar e escrever sobre o futebol foi feito muito tempo atrás por uma mulher. E essa mulher não era brasileira, era norte-americana.

“A loucura do futebol”, de Janet Lever é o que podemos chamar de “clássico” na literatura esportiva brasileira. Ele é fruto da tese “Soccer Madness: Sport and social integration in Brazil”, editado pela Universidade de Chicago. 

Traduzido e publicado em 1983, no Brasil, pela editora Record, Janet Lever examina o futebol e os torcedores do Brasil, baseando-se em entrevistas com diretores de clubes, treinadores, jogadores, chefes de torcidas organizadas e cronistas esportivos. Ela esteve três vezes no Brasil, entre os anos de 1969 e 1970.

Coincidência ou não, foi na década de 1980 que a universidade brasileira acolheu o futebol como objeto de estudo. Um ano antes de Janet Lever lançar por aqui o seu “A loucura do futebol”, quatro antropólogos brasileiros, Roberto DaMatta, Luiz Felipe Baêta Neves, Arno Vogel e Simoni Lahud, escreveram outro livro importantíssimo: “Universo do Futebol” (Editora Pinakotheke), com ensaios desses quatro pesquisadores.

Mas vamos ao estudo de Janet Lever. Uma obra de referência para pesquisadores do esporte número um dos brasileiros.


"Na medida em que a preocupação primária do sociólogo é o vínculo social e tendo em vista que o esporte está na raiz da vida social na sociedade moderna, então uma tarefa central para um sociólogo deve ser descrever a natureza do esporte como uma grande instituição cultural e analisar sua importância. Não apenas os atletas, mas também todos os envolvidos na regulamentação, administração, promoção e audiência de um evento esportivo devem ser incluídos na amplitude da investigação.

(...)
Este livro focaliza o esporte mais popular do mundo, o futebol, e o país em que é mais popular, o Brasil, para mostrar como o esporte serve como uma fonte estrutural e cultural de integração social. Paradoxalmente, essa integração é alcançada pelo aprofundamento das divisões dentro da sociedade. Usarei o caso do Brasil para especificar como esse feito de dividir-e-integrar é realizado em todos os níveis, das relações interpessoais às internacionais. A capacidade do esporte de criar ordem social, ao mesmo tempo que preserva a diversidade cultural, significa que os sentimentos primordiais são capazes de promover ao invés de impedir os objetivos do desenvolvimento nacional. As conseqüências políticas e econômicas do esporte, portanto, são elementos cruciais da história.

Os materiais para este livro vieram de uma variedade de fontes. Durante minhas quatro viagens ao Brasil, entre 1967 e 1973, assisti de 50 a 60 partidas de futebol. A maioria das pessoas que conheci informalmente, do caixeiro de armazém às elites comerciais e políticas, sempre estava disposta a “falar de futebol” comigo. Nas duas primeiras visitas, minhas entrevistas formais foram com atletas profissionais e minhas informações sobre eles foram complementadas e atualizadas nas visitas subseqüentes. Nas últimas viagens, concentrei as entrevistas menos nos atletas e mais nos dirigentes de ligas, comentaristas de rádio e televisão e líderes de torcidas. Nas quatro viagens, estudei materiais de arquivos, inclusive reportagens de jornais, registros de público, arquivos de sócios de clubes e relatórios financeiros.

Essas técnicas proporcionaram uma rica combinação de dados descritivos e numéricos, que são extremamente úteis para a compreensão do lugar central do futebol na vida brasileira. Conhecedores do cenário esportivo, assim como outras pessoas com quem conversei, ofereceram-me visões perceptivas da loucura do futebol no Brasil. As percepções deles, juntamente com as teorias “de poltrona” da literatura acadêmica e as pressuposições de puro bom senso sobre o esporte, ajudaram-me a desenvolver teorias sobre a torcida. Depois de testar questões formuladas para confirmar ou rejeitas essas hipóteses, entrevistei 200 homens das classes trabalhadoras do Rio de Janeiro durante o estágio final da minha pesquisa. Somente ao reunir informações sistemáticas dos próprios homens é que pude começar a descobrir como o esporte afeta o tipo, freqüência e qualidade da interação pessoal na cidade; quantos e que tipo de homens dão ao esporte um lugar realmente proeminente em suas rotinas semanais; e como os atletas e outras personalidades públicas se comparam como símbolos de cultura para esses homens.

(...)
As pessoas são animais sociais. O instinto tribal – a necessidade de pertencer a alguma coisa que é maior do que nós – é evidente em todas as sociedades. Nas sociedades avançadas, os esportes coletivos são recipientes perfeitos para a lealdade humana. Os torcedores se identificam com seus times e com outros torcedores que partilham a mesma devoção. As ameaças de times adversários despertam o nosso senso de que somos necessários, o que por sua vez nos dá a garantia de que pertencemos. Encarando o time “tribo” como nosso, ficamos orgulhosos quando vence, envergonhados quando perde, esperançosos de que voltará a vencer.

O esporte ajuda a relacionar as pessoas nas complexas sociedades modernas. O caso do futebol no Brasil mostra que o esporte liga pessoas, grupos, cidades e regiões num único sistema nacional, assim como liga as nações num único sistema mundial. Através dos círculos cada vez mais amplos de competição, há um renovado senso de coletividade.

Proporcionando uma estrutura para a lealdade humana, das raízes a níveis internacionais, o futebol consolida a cidadania do indivíduo em diversos grupos ao mesmo tempo. Os homens do meu estudo sorriram ao recordarem os nomes de veteranos da Copa do Mundo e ao identificarem fotografias dos ídolos locais do futebol; o simples ato de reconhecerem símbolos comuns fez com que se sentissem “por dentro”. Torcer por um time do Rio lembra a esses homens de seu orgulho cívico; torcer pela seleção brasileira lhes proporciona a ocasião para sentimento patriótico, cantar o hino nacional e acenar com bandeiras. Reconhecer os nomes de clubes e ídolos estrangeiros – Bobby Charlton da Inglaterra, Eusébio de Portugal, Beckenbauer da Alemanha, Chinaglia da Itália e Cruyff da Holanda – faz com que os torcedores se sintam internacionais.

(...)
Acompanhar o futebol no Brasil não é um substitutivo das relações primárias para os forasteiros alienados; em vez disso, é o foco principal da vida de lazer para homens que pertencem. As pessoas bem integradas acompanham o futebol porque é uma parte de seu ambiente social e acompanhar o futebol lhes proporciona um conhecimento de eventos e personagens de importância, o que aprofunda seu senso de integração e confirma a posição de estar “por dentro”.

Os dados da minha pesquisa demonstram que um homem socialmente mais relacionado tem maior probabilidade de colher os benefícios de integração ao ato de torcer. Em outras palavras, o senso de ligação à sociedade que um indivíduo sente é variável e pode ser conceituado como um círculo vicioso. Os de fora permanecem de fora, enquanto os que estão por dentro se encontram em posição de serem atraídos para todas as partes centrais da vida social.

Ao nos deslocarmos de indivíduos para o nível de grupos, regiões ou sociedade, os benefícios de integração que possam ser colhidos do conflito esportivo tornam-se dependentes da extensão do conflito real entre oponentes. Goffmann sugere que as competições mais absorventes são as que estão mais próximas da realidade, mas não demais. Onde as sociedades são relativamente homogêneas ou harmoniosas, a competição simbólica no esporte é minimizada e somente a qualidade do jogo determina o valor do espetáculo. Onde as sociedades tem divisões internas numerosas ou internas, o conflito dramatizado é tão real que o espetáculo é acentuado, mas apenas até o ponto em que as hostilidades são tão intensas que jogar juntos se torna impossível.

O conflito ritualizado pode reduzir as hostilidades, concedendo-lhes livre expressão. Ou pode estimulá-las. Na Irlanda do Norte, onde os times representam tipicamente católicos ou protestantes, as disposições de jogo refletem as hostilidades beligerantes entre as duas facções religiosas. Os times protestantes recusam-se a jogar em estádios católicos e os torcedores católicos devem entrar nos estádios protestantes sob vigilância policial. É necessária a presença de um grande contingente da força policial da cidade, equipada com arma contra distúrbios e cachorros treinados, e os dois grupos de torcedores ficam separados por arame farpado. A distância entre a guerra falsa e a guerra real não é grande; onde as hostilidades são profundas, o conflito ritual pode facilmente perder as suas características de jogo e servir como um elemento catalisador para motins e distúrbios.

Os jogos de futebol no Brasil são emocionantes porque expressam fortes lealdades primordiais. Os conflitos simbólicos representam importantes divisões sociais, mas os antagonismos não são profundos o bastante para impedir a rivalidade amistosa. Por exemplo, a discriminação racial foi comprovada e as divisões raciais são reais, mas os brasileiros possuem o maior índice de miscigenação do mundo. As relações raciais no Brasil são de tal forma que pretos, mulatos e brancos convivem sem o distanciamento físico que se encontra nos Estados Unidos. Embora os contrastes de classe social sejam mantidos e esteja-se alargando o abismo entre ricos e pobres, o Brasil possui uma história paternalista e o espírito de noblesse oblige ainda unifica as classes superiores e inferiores. Os grupos raciais, de classe e étnicos estão divididos, mas uma medida de coesão social lhes permite jogar juntos e construir um senso ainda maior de interesse partilhado.

Um comentário:

  1. A considerar a primeira postagem do ano, vai ser mesmo um feliz ano novo...

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