quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Jogadas do craque Fernando Sabino


Já no epitáfio deixado por ele, “Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino”, começamos a entender porque o escritor e jornalista mineiro gostava tanto de futebol. Como a grande maioria das crianças brasileiras, Sabino sempre teve paixão pelo futebol. Mas com seu talento para a escrita o autor de livros consagrados na literatura mundial – já que Sabino foi traduzido para vários países – como “O encontro marcado” (Civilização Brasileira, 1956), “O grande mentecapto” (Editora Record, 1979) e “O menino no espelho” (Editora Record, 1982), não se limitava a apenas adorar o esporte, mas também a entendê-lo historicamente.


Vários de seus contos e crônicas demonstram isso, pois além da prosa que só mesmo ele sabia construir, encontramos referências de informações que apenas um jornalista preocupado com a correta informação é capaz de produzir. 

Por isso mesmo Fernando Sabino chegou a realizar a cobertura da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, para o Jornal do Brasil.





Contudo, a alma de ficcionista permitiu licenças poéticas. Sabino era tão ligado em futebol que em um de seus consagrados romances, “O menino no espelho”, história construída a partir de suas memórias de infância, ele recria um jogo imaginário:

“...Disputa interrompida, o jogador machucado é retirado na maca. Gerson vai confabular com o juiz, gesticula, depois vem correndo até o banco dos reservas onde me encontro, em companhia do treinador e do massagista. Fala qualquer coisa ao ouvido do treinador, me apontando, e este se volta para mim, com ar grave: ‘Você vai ter de entrar, Fernando. Não tem mais ninguém. Você é a nossa última esperança’.”


Na ficção construída por Fernando Sabino, ele entra em campo para marcar o gol do título, aos quarenta minutos do segundo tempo vestindo a camisa do América de Belo Horizonte, na decisão do Campeonato Mineiro de 1931 contra o Atlético Mineiro. O jogo de fato aconteceu, mas não na data narrada e muito menos valia o título da competição. Sabino nem poderia ter participado daquele jogo real, pois tinha apenas 8 anos de idade.

Se no futebol Fernando Sabino não se revelou um craque, em outra modalidade acabou virando atleta por um curto período de sua vida. Seu talento esportivo estava nas piscinas. Em 1939, era nadador, especialista em nado de costas. Chegou a bate vários recordes, além de ganhar inúmeras medalhas em campeonatos nas cidades de Uberlândia, São Paulo e Rio de Janeiro.

Mas nada se compara a prosa contagiante de Fernando Sabino apresentada em seus contos sobre o tema futebol. Um deles, Literatura na Arquibancada encontrou no livro “A palavra é futebol”, coletânea organizada por Ricardo Ramos, editada em 1990 pela Scipione. Uma obra-prima da literatura esportiva.

Iniciada a Peleja

Brasil x Fiorentina, amistoso em 1958.
Justamente na hora do primeiro jogo de nosso selecionado na Europa (referência ao jogo amistoso preparatório à Copa de 58 realizado em Florença, Itália, em 29/05/1958, contra o A.C. Fiorentina), realizava-se uma reunião da diretoria do banco, a que ele não poderia deixar de comparecer. Não teve dúvidas: arranjou emprestado um radiozinho transistor, com dispositivo de se adaptar ao ouvido para audições individuais, meteu-o no bolso e bateu-se para a reunião.
– Que é isto? – estranhou um dos diretores. – Você ficou surdo?
Acomodou-se junto à mesa: a reunião já havia começado e o jogo também. Didi passa para Mazzola, este para Pepe, Pepe novamente para Mazzola. Proposição de um dos diretores sobre o incremento do crédito agrícola. Escapada de Garrincha pela direita. Estamos certos de que nossos colegas aprovarão as medidas que permitam a imediata normalização das operações.
– Aprovado.
– Aprovado.
– Impedimento!
– Como?
– Nada não. Aprovado.


A pelota é devolvida à circulação: os produtores não poderão obter senão um empréstimo equivalente ao valor de sua remissão que será adicionado ao montante da dívida. Falta perigosa a ser cobrada nos limites da grande área. O débito remanescente e oriundo do financiamento previsto na lei representa um perigo para a cidadela brasileira, defendida por Gilmar. A dívida será computada no ano imediatamente posterior à safra liberada. Cobrada a falta. Defesa es-pe-ta-cu-lar de Gilmar!
– A menos que a garantia oferecida, nos termos da Portaria número quatro...
– Centra logo, homem de Deus!
Didi recebe de Bellini e organiza novo ataque. Os lavradores beneficiados, quaisquer que sejam os termos da dívida assumida...
– É agora! Vai chutar.
– Perdão?
– Não entendi o seu aparte.
– Ah, desculpe...Pode prosseguir: foi fora. Os termos da dívida assumida...
– O senhor está me ouvindo bem aí?
– Perfeitamente. Por quê?
– Esse seu aparelhinho no ouvido...Muito bem: prossigamos.

Garrincha

A reunião prosseguiu sem novidades até que Garrincha se apoderasse novamente da bola. Mazzola prepara-se para chutar...Pânico na defesa italiana.
– Gol do Brasil! – berrou ele, incontido.
Os outros diretores se voltaram, estupefatos. Tornou a desculpar-se como pôde, acomodou-se novamente na poltrona e continuou a participar da reunião, que prosseguia agora sob estranheza geral: os lavradores, em face dos dispositivos que regulam o débito consignado no exercício anterior...Ele foi-se erguendo lentamente da poltrona, braço estendido, fisionomia aparvalhada.
– Que está acontecendo, afinal?
– Esperem, esperem – pediu, olhos esbugalhados, imóvel como um perdigueiro ao amarrar a caça, e contendo com sua postura de estátua a curiosidade dos demais: Pepe continua avançando, dribla os dois zagueiros, invade a área, tira o goleiro da jogada...
– Mais um! – saltou ele na cadeira. – Agora não tem mais perigo: podemos prosseguir.

Pepe

Os comentários corriam em torno à mesa: que diabo de rádio é esse? Deixa ver, que coisa interessante...Tão pequenino. Eles já não sabem mais o que inventar. Liga aí para a gente ver. Quanto está? Gol de quem?
– De Pepe. Espetacular.
– Mais para cá, que eu também quero ouvir.
– Põe no meio da mesa logo de uma vez.
Pôs o radiozinho no meio da mesa, e a diretoria, por decisão unânime, em face de tão grave conjuntura para os destinos de nossa nacionalidade, concedeu-lhe primazia entre os assuntos em pauta. Mazzola era um gigante dentro de campo. Didi, um verdadeiro assombro.
– Olha só esse passe.
– O homem está em todas.

Didi

Ao fim, os diretores, esquecidos do que dispõe a Lei nº 2697, sobre a concessão de crédito agrícola em face da safra liberada no ano anterior, congratulavam-se, entusiasmados: havíamos vencido por quatro a zero.
– Eu sempre disse que o problema de Feola estaria no ataque.
– Gilmar foi o maior, senhores.
– Você viu aquela defesa?
– A leitura do relatório, em face das circunstâncias, a meu ver deverá ficar para a próxima reunião.

Aprovada a proposição, deram por encerradas as atividades daquele dia e foram, incorporados, tomar um uísque para celebrar.

Para conhecer a obra completa de Fernando Sabino, acessar:

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