terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A (im)perfeição do Futebol


Hoje, no segundo artigo da série especial sobre o centenário do dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, uma crônica publicada em O Globo, no dia 9 de novembro de 1963, sobre o jogo Fluminense 4 a 0 contra o Campo Grande. Quer dizer, o jogo em si, tem quase valor nenhum, como sempre, na prosa de Nelson Rodrigues. Na verdade, Nelson quer mesmo é falar de um grande amigo, ou melhor, da verdadeira “obsessão” que sentia pelo escritor mineiro Otto Lara Resende. Antes de começar, vale explicar o significado da expressão “bei” tão utilizada por Nelson Rodrigues em sua história: “Governador de província muçulmana. Título do soberano da Tunísia”. E a última lembrança: não se esqueça que em agosto, acontece o evento “Literatura na Arquibancada 2012 – O centenário de Nelson Rodrigues”. Aguarde.

Um Fluminense tão Flaubert

Eça de Queirós
Amigos, no tempo de Eça de Queirós, quando o articulista estava sem assunto, tinha uma solução genial, que era a seguinte: - xingava o bei de Túnis. Em Túnis há sempre um bei, e é doce descompor alguém com a prévia e linda certeza da impunidade. Era uma delícia para o autor de Os Maias xingar um desconhecido ilustre. 

Numa das vezes o bei protestou. Ao descrever fisicamente a vítima, Eça chamou o bei de “sórdido e obeso”.


Otto Lara Resende


Possivelmente a importante autoridade não seria uma coisa nem outra. Ou talvez fosse magro, lívido e hierático. Mas o que eu queria dizer é que, como todo cronista, eu tenho o meu bei de Túnis. 

Chama-se Otto Lara Resende e trabalha ali na Procuradoria do Estado. Sendo esta uma coluna de futebol, por que a citação freqüente e mesmo obsessiva de um homem que jamais deu uma botinada, jamais bateu um corner ou um tiro de meta?


Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues e Otto Lara Resende.

O leitor dirá: - “É uma obessão”. Ao que eu responderei: - “É uma obsessão”. Se eu pudesse, escreveria todo santo dia sobre o Otto. A princípio ele foi, estritamente, o meu bei de Túnis. Hoje é algo mais. Faz-me falta não citá-lo nas minhas crônicas. Sinto-me um frustrado e um vencido quando não uso o seu nome uma única e escassa vez. E o interessante é que também o leitor está viciado no Otto e tem saudades dos seus feitos, da sua figura, das suas piadas.

Hoje, porém, vou falar do Otto a propósito do Fluminense. Pode parecer que uma coisa não tem nenhuma relação com a outra. Mas tem. E explico. O Otto é uma coisa que não sei, francamente, não sei, se compromete ou se consagra um estilista. Ninguém mais divino torturado. Por vezes uma frase lhe custa arrancos de cachorro atropelado. Outro dia o Hélio Pellegrino soprou-lhe a sugestão: “Não seja tão Flaubert de Salambô!”.

Nelson Rodrigues e o amigo Otto Lara Resende.
Por exemplo: - nas refeições o personagem do Otto “senta-se à mesa”, sempre e inexoravelmente “à mesa”. E vamos e venhamos: - sempre que, numa obra de ficção, o personagem senta-se com a classe referida, não é mais possível obra-prima, não é mais possível Ana Karenina. Ao passo que, pessoalmente, ele arrebata porque, no bate-papo, não há classe, não há Flaubert, não há Salambô, não há nada.

Outro dia o Otto sentou-se com o Armando Nogueira. Três horas da manhã. E o escritor mineiro brilhou como uma Duse aos dezessete anos. Durante 45 minutos ele provou, por A mais B, que no Brasil o golpe é uma impossibilidade total. Convenceu o Armando. Em seguida, passou a demonstrar a verdade inversa, ou seja: - que, no Brasil, o golpe é iminente, inevitável e necessário. Estava sendo ali um Sócrates sem alpercata.

Agora, a relação do Otto com o Fluminense. Domingo passado, durante os primeiros vinte minutos, o Fluminense foi um Otto, foi um estilista. Mas no futebol, como na literatura, convém não caprichar demais. Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. Tudo certo, exato, irretocável, como a redação do Otto. No meu canto, eu via a hora em que perderíamos mais um ponto fatal. E vem a grande verdade: - a obra-prima, no futebol e na arte, tem de ser imperfeita. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão estilista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões.

Para saber mais sobre Otto Lara Resende, o personagem de Nelson Rodrigues, vale a pena acessar o link http://www.releituras.com/olresende_bio.asp e entender porque o amigo era uma verdadeira “obsessão” em sua vida. Para compreender melhor ainda, basta ler abaixo o verso de Otto:


"Uma criança vê o que um adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que de tão visto ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher. Isso exige às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.

É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença"
.
(Vista cansada).

Para conhecer a biografia de Nelson Rodrigues, acessar:

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