terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Histórias de Sandro Moreyra


Ele foi autor de um livro só (Histórias do Sandro Moreyra, Editora JB, 1985), mas dono de muitas histórias que poderiam render dezenas de livros. Sandro Moreyra era uma “figuraça” e tinha duas paixões: futebol e samba. Era botafoguense e mangueirense. A descontração e a fina ironia, duas de suas marcas registradas, foram herdadas do pai, o escritor e jornalista Alvaro Moreyra, e da mãe, Eugênia Moreyra, uma das primeiras feministas do Brasil. Sandro é pai da repórter Sandra Moreyra, da TV Globo.

No jornalismo, Sandro Moreyra começou em 1946, na Tribuna Popular, jornal do Partido Comunista Brasileiro, transferindo-se depois para o Diário da Noite. Em 1958, chegou ao Jornal do Brasil, que o consagraria como grande cronista e fantástico contador de “causos”, especialmente quando o assunto era o seu Botafogo, time pelo qual não só torcia, mas era também sócio de carteirinha. No JB ficou famosa sua coluna “Bola Dividida”. A partir de 1981 ele também começou a escrever para a revista Placar histórias curiosas de personagens do futebol brasileiro. Muitas delas eram verídicas, mas outras deixavam o leitor em dúvida se eram fatos ou “causos” inventados. A coluna durou até sua morte, em agosto de 1987.

Entre tantos personagens eleitos para destilar seu humor, dois deles rechearam boa parte do seu único livro, “Histórias de Sandro Moreyra”, Garrincha e o goleiro Manga, ambos botafoguenses e escolhidos pelas “pérolas” que viviam deixando escapar durante as centenas de viagens que o jornalista cobriu pelo Botafogo e Seleção Brasileira.

Sobre o goleiro Manga, há algumas de chorar de rir. A primeira, envolvendo as duas figuras:

“A Caminho da Alemanha, Manga comprou, no aeroporto de Barajas, em Madri, um rádio de pilha por 180 dólares. Ao chegar ao hotel, em Frankfurt, ligou o rádio e ficou girando nervosamente o botão, e cada vez mais impaciente, Garrincha, seu companheiro de quarto, quis saber o que estava acontecendo.
- Não consigo pegar nenhuma estação nossa. Ele fala coisa que não entendo – disse Manga.
Malandramente, Garrincha pediu que ele procurasse entre os acessórios do rádio, um pequeno botão, que, introduzido num orifício ao lado, faria com que o rádio falasse português. Manga revirou a caixa do rádio e nada encontrou. Desesperado, achando que fora enganado, ia atirando o rádio pela janela, quando Garrincha ofereceu:
-Dou 20 dólares por ele, agora.
Manga tratou de vender logo e todo contente foi espalhar para os companheiros:
-Finalmente enganei aquele torto. Vendi para ele um rádio com defeito, que só fala língua de gringo”.

E outra:

“Ao sair de um treino do Botafogo, Manga esbarrou num sujeito gago, que lhe perguntou:
-Po-pode me in-for-for-mar onde fi-fica a es-co-co-la de gagos?
Mais por ingenuidade do que por maldade, Manguinha respondeu:
-Meu amigo, você não precisa de escola, já gagueja muito bem”.

Mais uma:

“De passagem pelo Rio, o goleiro manga participou da passeata pelas diretas, “pra depois contar lá no Recife”, e, mostrando o seu desbotado título eleitoral, comentou que, apesar de já ter completado 45 anos, só uma vez votou para Presidente.
-Ainda vivia no Recife.
-E em quem você votou, Manguinha?
-Não sei. Me deram um envelope pra meter na urna, quis dar uma olhada no nome, mas o coronel proibiu: disse que eu não podia olhar porque o voto era secreto”.

E, finalmente:

“Com o joelho machucado, o goleiro Manga procurou o consultório de um ortopedista. Mas, se acertou com o endereço, errou de sala: em vez de entrar na de número 501, do médico, invadiu a 503, de um advogado. Ao ser atendido, e sem se dar conta do engano, Manga explicou seu caso:
-Doutor. Estou com um problema no joelho esquerdo.
Surpreso, o advogado retrucou:
-Mas eu só trato de Direito.
Foi a vez de Manga se espantar, levantando-se contrariado:
-Puxa, doutor. Vá ser especializado assim no raio que o parta”.

Mas o personagem favorito mesmo de Sandro Moreyra era o ingênuo Mané Garrincha. Um outro botafoguense, exímio contador de histórias, o jornalista Roberto Porto, escreveu em seu blog (http://blogdorobertoporto.blogspot.com/ ), no ano de 2009, uma história que retrata bem quanta confusão Sandro arrumava até com os amigos jornalistas por causa das histórias que inventava sobre o craque botafoguense. A história acontece durante a cobertura da Copa de 1962, no Chile, com o Brasil recheado de craques do Botafogo, como Amarildo, Didi, Nílton Santos e, claro, Mané Garrincha:

“Havia um bando de jornalistas brasileiros cobrindo a Seleção, entre eles Sandro Luciano Moreyra (1919-1987), Mário Filho (1908-1966), Armando Nogueira (1927-2010) e Araújo Neto (1929-2003). Sandro, como sempre, divertia-se com os companheiros, principalmente com Mário Filho, que pretendia escrever um livro sobre aquele Mundial, assim como Armando Nogueira e Araújo Neto.

Mário Filho
Baseado na intimidade que tinha com os jogadores do Botafogo, titulares absolutos da Seleção Brasileira, Sandro passou a inventar notícias, passando-as para Mário Filho, àquela altura um jornalista mais de retaguarda, ou seja, mais editor do que repórter. A certa altura, Armando Nogueira ficou aborrecido com as mentiras de Sandro a Mário Filho e o repreendeu.

Sandro não tomou conhecimento da repreensão e foi adiante, inventando sonhos de Garrincha, premonições de Didi, palpites de Nílton Santos e assim por diante. Mário Filho acreditava em tudo. Foi então que Armando passou um pito em Sandro, seu colega do Jornal do Brasil. Sandro só lhe disse uma coisa: ‘Você, Armando, ainda vai colocar uma mentira minha em seu livro”.

Vida que segue, expressão usada por João Saldanha (1917-1990), que também estava lá, o Brasil conquistou o título e Armando e Araújo Neto colocaram na praça o livro “Drama e glória dos bicampeões do Mundo”. Sandro ficou quieto mas perguntou a Armando se tudo o que estava no livro era rigorosamente a verdade, nada mais que a verdade.

No livro, esgotado hoje em dia, há um capítulo sobre Garrincha, no qual Mané teria sido entrevistado por um radialista chileno após uma de suas exibições primorosas. Garrincha não queria dar a entrevista e o repórter insistiu. Garrincha voltou a negar. O chileno, então, sugeriu que ele cumprimentasse o público pelo microfone e se despedisse.
Garrincha foi curto e grosso:
- Adiós, micrófono...

Passado algum tempo, sempre sorrindo, Sandro perguntou a Armando:

- Não disse que iria colocar uma mentira em seu livro?
Armando retrucou sem graça:

- Que mentira, Sandro?

Sandro foi curto e grosso:

- Aquela do adiós micrófono... Isso nunca aconteceu...”

Sandro Moreyra deixou saudades na crônica esportiva. Como faz falta no jornalismo esportivo profissionais mais “bem humorados” e, principalmente, com o olhar atento não apenas ao que acontece dentro das quatro linhas de um jogo de futebol. E foi assim que, durante a Copa de 1982, Sandro Moreyra escreveu, talvez, a melhor de suas crônicas e que, não por acaso, abre seu livro “Histórias de Sandro Moreyra”:

“...Na monumental praça de toros de Sevilha, durante a Copa do Mundo de 82, um deslumbrado torcedor brasileiro ao ver passar o toureiro à sua frente ovacionado pela multidão que lhe atirava flores, leques e mantilhas, jogou-lhe como suprema homenagem, o pé direito de sua surrada e mal cheirosa conga.

Este foi um dos episódios de uma tarde inesquecível, em que os canarinhos brasileiros avacalharam completamente essa secular e sagrada instituição espanhola que são as touradas.

O torcedor da conga, na verdade, foi o único que durante todo o espetáculo se comportou corretamente, torcendo pelo toureiro como mandam as velhas e respeitadas regras das touradas. Os outros, ou seja, a imensa e vibrante torcida brasileira do futebol, com suas camisas amarelas, fitinha na testa e bandeira na mão, entrou na praça de Sevilha decidida a torcer pelo touro, fato que em qualquer parte da Espanha é considerado, no mínimo, uma heresia.

Mas, acima da tradição, falou a boa índole do brasileiro. Ele não se conforma com aquela luta desigual onde são dadas ao toureiro todas as vantagens e ao touro só se concede uma opção: a de se deixar matar. Ao tomar, porém, essa posição pró-touro, a torcida canarinho do Brasil ofereceu um espetáculo jamais visto em arenas e que será relembrado através dos tempos pelos amantes da tauromaquia com vergonha e indignação.

O primeiro impacto surgiu quando o touro ao entrar na arena, ainda meio tonto com a claridade forte, foi recebido em vigorosos aplausos das arquibancadas repletas de brasileiros. Facilmente identificados por suas camisas “amarelo-cheguei”, os canarinhos agitavam bandeiras saudando o touro com o entusiasmo que dedicam ao Flamengo quando adentra o gramado do Maracanã. Era, contudo, apenas o começo. Logo depois, quando o picador no seu cavalo cercou o touro e, num golpe rápido, cravou-lhe sua pontuda lança fazendo jorrar um sangue grosso e vermelho pelo seu pelo preto, uma tremenda vaia explodiu de mistura com gritos compassados de filho da puta e de pilhas de rádio atiradas em sua direção. O picador fugiu espavorido.

A entrada em seguida do moço das banderilhas, com suas calças justas e seu bolero bordado, foi de expectativa. Mas tão logo o viram dar aquela corridinha de bailarino na ponta dos pés os gritos ritmados de bicha, bicha, bicha acompanharam todo seu trajeto.

Nesta altura, os espanhóis estupefatos não entendiam o que estava acontecendo, julgando-se cercados por um bando de malucos. De seu canto, aguardando o momento de entrar em ação, o toureiro, famoso matador, olhava abismado sem compreender aquela unânime, inédita e feroz manifestação a favor do touro.

Chegou, então, o momento culminante. Ao som festivo de clarins, o toureiro, solene e grave, caminhando a passos firmes, com sua longa capa vermelha atirada aos ombros, entrou na arena, e cumprindo o ritual primeiro dirigiu-se à tribuna de honra. Lá, curvando-se num gesto elegante, atirou o seu solidéu, barrete ou que nome tenha a uma dama certamente ilustre. Em seguida, com a mesma pompa, voltou-se para o público e em galante reverência curvou-se numa saudação fidalga. E ainda estava curvado quando das arquibancadas estourou uma gritaria bem brasileira, forte e cadenciada: – Um, dois, três, quatro, cinco mil, eu quero que o toureiro vá pra puta que o pariu!

Boquiabertos, os espanhóis se interrogavam: – Que pasa, hombre? Los tipos son locos? Evidentemente não podiam compreender aquele comportamento de fazer corar de vergonha  Manolete, Dominguin, Paco Camacho, El Cordobés e todos os toureiros , vivos ou mortos.

Do outro lado, arquejante, já bastante ferido e lamentando não ter nascido vaca, o touro mantinha, no entanto, um ar embevecido. Jamais, qualquer de seus antepassados recebera tamanha solidariedade. Comovido, ele olhava cheio de gratidão para os canarinhos brasileiros. E tão encantado estava que nem viu quando o matador friamente e com imensa espada matou-o na primeira estocada.

Morreu feliz, certamente, por saber que na alma daqueles canarinhos brasileiros havia piedade por ele e repulsa por seu carrasco.

2 comentários:

  1. Como acompanhei histórias de Sandro Moreyra, na revista Placar.
    E o Zé do efeito?

    ResponderExcluir
  2. Comprava o exemplar de Placar para ler os causos de Sandro. Eram sensacionais.

    ResponderExcluir