sábado, 28 de janeiro de 2012

História em Quadrinhos e o Futebol


No dia 30 de janeiro, comemora-se o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. A data foi instituída há 22 anos pela Associação de Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo, com o objetivo de lembrar que em 1869, nesse mesmo dia, foi publicada a primeira história em quadrinhos brasileira. No Dia das Crianças, uma boa amostra de como a literatura esportiva pode influenciar na formação de novos leitores.

E a HQ também tem muita história sobre o tema futebol. Literatura na Arquibancada começa agora uma série sobre esse universo fascinante. Para começar apresentamos uma reportagem especial, ou melhor duas, sobre a história da HQ ligada ao futebol. O maravilhoso artigo foi publicado no site Universo HQ (www.universohq.com), principal referência da internet brasileira quando o assunto é história em quadrinhos. O site também está fazendo aniversário neste mês de janeiro quando completa 12 anos de vida. Um site pra lá de confiável, vencedor de oito campeonatos consecutivos do Troféu HQ Mix (a premiação mais importante do mercado). Ultrapassou a marca de 4 mil resenhas online servindo de base para muitos trabalhos acadêmicos. Universo HQ tornou-se o maior banco de dados sobre quadrinhos da América Latina – e um dos maiores do mundo.

O autor da reportagem especial é o cearense radicado em Alagoas, Marcus Ramone, um dos editores da Universo HQ. O artigo foi escrito em 2004 e tem a respectiva autorização de seu uso. Abaixo, a primeira parte da reportagem. Nos próximos dias, apresentaremos também outras produções do autor na HQ com o tema futebol. Imperdível...

Futebol e quadrinhos: 
uma caixinha de surpresas e fortes emoções

Por Marcus Ramone

Preste atenção em qualquer jogo entre Palmeiras e Cruzeiro. Duas torcidas organizadas estarão sempre lá, ostentando suas bandeiras. A Mancha Verde do lado dos paulistas, e a Mancha Azul pelos mineiros. Em comum, o fato de que seus símbolos são nada mais, nada menos que o Mancha Negra, famoso vilão dos quadrinhos Disney..

Mas no futebol as referências a HQs não se restringem ao Mancha, modificado pela cor do time de cada torcida. É fácil ver também o Hulk, o Duende Verde e até o Lobo da DC Comics estampados nas bandeiras das torcidas.

O que dizer, então, da folclórica e extinta "geral" do Maracanã, na qual se encontravam, comumente, torcedores fantasiados de Flash, Super-Homem, Batman e Robin em tudo quanto é Fla-Flu?

Curioso foi o que aconteceu com o Lanterna Verde, que em 2002 esteve na boca até de quem não curtia quadrinhos. Graças ao Palmeiras, que no Brasileirão daquele ano amargou sua pior campanha em certames nacionais (caiu para a segunda divisão), e por causa da cor de sua camisa e por ficar nas últimas colocações do certame... bem, a piada estava feita.

Mas na campanha que reconduziu o alviverde à divisão de elite, os torcedores adotaram um novo símbolo: o "verdão" Hulk. Havia até um ator que se "transformava" no personagem a cada partida.

Também em São Paulo, por muito tempo a torcida corintiana estendeu nos estádios uma faixa com o desenho Batimão, tendo o defensor de Gotham City com a camisa do clube, numa criativa junção do nome do herói com o apelido do clube.

A relação entre futebol e quadrinhos é mais velha do que se pensa. Já na década de 40, o argentino Lorenzo Mollas criou várias mascotes para os times cariocas. Nessa brincadeira, o Pato Donald passou a representar o Botafogo. Mas, antes disso, o marinheiro Popeye já posava como símbolo do Flamengo. Somente em 1969 o cartunista Henfil criou o urubu para o clube rubro-negro.

Em meados dos anos 80, pelas mãos de Ziraldo, popularizaram-se várias outras mascotes, com destaque para o Super-Homem do Bahia (por muito tempo chamado de "Tricolor de Aço") e o Saci Pererê do Internacional.

Na Paraíba, o cartunista Deodato Borges (pai de Mike Deodato, um dos melhores desenhistas brasileiros da Marvel), bolou para o Treze de Campina Grande uma majestosa raposa. E o Botafogo da capital João Pessoa tem como representante o Guarda Belo, da Hanna-Barbera, embora ultimamente a torcida prefira o cão pitbull. Já o Esporte de Patos, do interior estado, também usa a figura do Pato Donald.

Também da Disney, o índio Havita e o papagaio Zé Carioca já foram usados como símbolos, respectivamente, do Guarani de Campinas e do Palmeiras, embora não sejam mais bem aceitos pelos torcedores (os palmeirenses até adotaram o porco, há alguns anos, como a mascote "oficial").

Mas o interessante foi ver toda a turma de Patópolis entrando no clima e vestida com uniformes de seleções de vários países. Isso aconteceu em 2002, no álbum de figurinhas Copa do Mundo Disney. O livro ilustrado foi uma grata surpresa da Editora Abril, que há muito deixara de lançar cromos de personagens Disney, muito comuns nas décadas de 1970 e 1980.

Para relembrar uma Seleção Brasileira que deixou saudades, vale voltar aos meses que antecederam a Copa do Mundo da Espanha, em 1982, quando era exibida na TV uma propaganda da Gillette que marcou época. Era um desenho animado cujo personagem, Pacheco, um sujeito bonachão que representava toda nossa torcida, virou símbolo do País na competição. Ele também aparecia nos gibis, na forma de publicidade em quadrinhos.

Em 2003, no México, os jogadores do Rayados de Monterrey adotaram uma mascote do Hulk, de pouco mais de um metro de altura, que inclusive senta no banco de reservas em todos os jogos.

Futebol nas HQs brasileiras

O Brasil, como país do futebol, tem vários outros exemplos dessa bem-sucedida união entre dois dos melhores entretenimentos que existem. Já em 1932, os moleques Reco-Reco, Bolão e Azeitona, criações de Luis Sá, apareciam batendo uma bolinha.

A Turma do Pererê, criação de Ziraldo, gostava tanto de futebol que chegou a organizar um torneio na mata. E um inesquecível registro dessa paixão aconteceu em 1962, meses antes de o Brasil conquistar o bicampeonato mundial no Chile. Era uma história que mostrava um dos membros da turma desfilando seu talento nos gramados, e sendo convocado para a seleção que disputaria a Copa naquele ano. Tudo isso pode ser visto no primeiro volume da coleção Todo Pererê, que a Editora Salamandra lançou em 2002 e cujo terceiro número saiu em agosto de 2004.

Em 1978, o gibi Sítio do Picapau Amarelo # 13 (RGE) mostrou outro personagem convocado para a Copa. Tia Nastácia foi convidada a fazer parte da delegação do Brasil, para preparar deliciosos quitutes para os jogadores.


Nossa seleção, aliás, tem um grande número de aparições nos quadrinhos, em diferentes épocas, principalmente em lançamentos próximos a alguma Copa do Mundo. Sócrates, Zico, Falcão, Careca, Bebeto, Romário, Taffarel, Ronaldinho e muitos outros (que incluíam os técnicos Cláudio Coutinho, Telê Santana e Lazzaroni) apareceram em gibis do Sítio do Picapau Amarelo, Cebolinha, Zé Carioca e Pelezinho, em 1978, 1982, 1986, 1990 e 1994.

E só mesmo no país pentacampeão do mundo são mais do que comuns as coletâneas especiais sobre o esporte, pinçadas de uma variedade enorme de histórias dos mais diferentes personagens, como os da Disney (em edições de Zé Carioca relacionadas a Copas e no Disney Especial), Turma da Mônica (Pelezinho, também em edições alusivas aos mundiais e na Coleção Um Tema Só: Futebol), entre outros.

Em gibis como Cebolinha, Cascão, Os Trapalhões (tanto na Bloch quanto na Abril) e O Gordo, passando por Menino Maluquinho, Alegria, Turma do Lambe-Lambe e tosqueiras como Sérgio Mallandro, o futebol sempre deu um jeitinho de pintar nas histórias produzidas aqui. Até mesmo Senninha, um piloto de Fórmula 1, participava de peladas com sua turma.

Há outras criações tupiniquins que também amam o futebol, como Maciota, o jogador de várzea criado por Paulo Paiva; a garotinha Mutuca, de Antônio Cedraz (criador da Turma do Xaxado); a tira O Dia a Dia do Futebol, de Bruno Teixeira Lomba; o cão Jarbas, que às vezes veste a camisa da seleção ou se traja de árbitro; e o travesso Cabeça Oca, cuja roupa vermelha e branca é uma homenagem ao Vila Nova, clube para o qual torce o criador do personagem, o goiano Christie Queiroz.

E não se pode esquecer de Futebol e Raça, publicado pela Cedibra, que durou apenas três edições. Com textos de Luiz Antônio Aguiar e desenhos de Mozart Couto, as histórias tinham como protagonista um jogador aposentado.

Mesmo quando algum personagem vinha dos Estados Unidos - país conhecidamente avesso ao futebol -, os autores brasileiros tratavam de fazê-lo apreciar o esporte. Nas histórias da Pantera Cor-de-Rosa, Luluzinha, Bolinha ou algumas da Hanna-Barbera produzidas aqui, era possível encontrar pelo menos a tradicional bola de gomos pretos e brancos compondo cenários de lojas de brinquedos ou quartos de criança. Coisa que não se via nas aventuras importadas.

Em O grande jogo, história produzida nos estúdios da Editora Abril e publicada na revista Pato Donald # 1252, foram reunidos vários vilões como João Bafo-de-Onça, Dr. Estigma e Irmãos Metralha em torno de uma disputa futebolística num presídio. O melhor ficou para o final, quando todos organizaram uma partida de futebol de botão, uma invenção genuinamente brasileira.

Zé Carioca, por sua vez, joga bola com muita freqüência, desde suas primeiras histórias produzidas no Brasil. Mais ainda depois que surgiu o Vila Xurupita F.C., criado por Ivan Saidenberg na década de 1970. O time punha em campo, além do papagaio, os pernas-de-pau Nestor, Afonsinho, Pedrão e outros "grossos".

Praticamente uma versão em quadrinhos do Íbis (time pernambucano que é considerado o pior do mundo), o Vila Xurupita é o maior saco de pancadas da história do futebol. Na única vez em que ganhou um troféu (disputado num jogo só, contra uma equipe formada por gorilas mal-encarados, vencido devido a um gol contra), foi obrigado a vender o prêmio para pagar os aluguéis atrasados da sede do clube.

O time alimenta ainda uma rivalidade ferrenha com o Arranca-Toco. Os jogos entre as duas equipes são o que se pode chamar de (com o perdão do trocadilho) clássico dos quadrinhos.

Como todo brasileiro que se preza, o papagaio malandro é fanático por futebol, e essa paixão foi - e continua sendo - parte marcante do gibi do personagem. Seja em menções a clubes, jogos na calçada ou "furadas de fila" no Maracanã, a revista sempre destacou o esporte bretão.

E numa dessas, foi concebida a melhor saga futebolística do Zé Carioca, a divertida Zé nos States, escrita por Gérson B. Teixeira e desenhada por Aluir Amâncio. O arco completo de histórias foi publicado na edição número 2000 da revista do personagem, e se passava na época da Copa do Mundo 94.

A aventura narrava a ida de Zé Carioca aos Estados Unidos para assistir aos jogos do Brasil. É claro que, para chegar lá sem um tostão no bolso o malandro apronta de tudo para alcançar seu intento. Uma das melhores passagens é o encontro dele com o craque Maradona num navio de passageiros. A rivalidade entre brasileiros e argentinos foi o mote para as mais divertidas confusões. O jogador, claro, sofreu nas mãos do papagaio.

Não mais que um marinheiro argentino, que não resistiu e cantou Aquarela do Brasil junto com o Zé Carioca. Acabou sendo expulso do navio pelos próprios compatriotas, que gritavam "Traidor!" a pelos pulmões.

Para quem não teve a oportunidade de ler essa fantástica saga há dez anos, a Editora Abril a republicou em 2004 no título quinzenal do Zé Carioca.

Mas essa não foi a primeira vez que o papagaio assistiu in-loco aos jogos do Brasil nas Copas. Em muitas ocasiões, ele tanto fazia que acabava integrando a delegação nacional. Como em 1986, na revista Zé Carioca # 1775, em que o malandro até ensina ao técnico Telê Santana um novo posicionamento tático, baseado no famoso "carrossel holandês": a gangorra tupiniquim.

Antes disso, em 1982, ele foi com Donald e Panchito à Espanha. E em 1998, lá estava o caloteiro na França, no especial Copa 98.

Tantas histórias ligadas ao futebol na revista do papagaio caloteiro provavelmente não se originavam apenas do apelo comercial que o esporte possui, mas também porque a turma da Redação Disney da Editora Abril era adepta de uma pelada semanal nos anos 80.

Os quadrinhistas alugavam uma quadra na sede do Corpo de Bombeiros, em São Paulo, e os jogos rendiam inspiração não só para engraçadíssimas HQs, como para impagáveis charges sobre a Redação, nas quais um dos alvos preferidos era o rechonchudo arte-finalista Acácio Ramos.

Até hoje (2004) o argumentista Gérson B. Teixeira (atualmente trabalhando nos Estúdios Mauricio de Sousa) guarda esses desenhos, uma recordação dos bons tempos da produção nacional de quadrinhos Disney.

Falando em charges, grandes nomes da área não perdem a oportunidade de brincar um pouco com o futebol. Laerte, Glauco, Luís Fernando Veríssimo e muitos outros têm em seu portfólio diversos trabalhos sobre o tema.

E aqui mesmo no UHQ o leitor pode se deliciar com divertidas charges que colocam famosos personagens dos quadrinhos (Demolidor, Thor, Wolverine, etc.) no mundo da bola, destacando-se as que antecederam a Copa de 2002.

Com relação a outro sucesso e orgulho nacional, a Turma da Mônica, seus gibis talvez são uma das poucas HQs nas quais os personagens torcem por um time de verdade. Não se trata de uma história isolada em que alguém revelou seu clube do coração. É algo já consolidado em diversas aventuras. Efetivamente, o Cascão é fanático pelo Corinthians, o Cebolinha torce pelo Palmeiras, o Anjinho é santista (nada mais lógico!) e por aí vai.

Em 2002, Mauricio de Sousa anunciou que transformaria o jogador Ronaldo (sim, ele mesmo, o Fenômeno) em mais um de seus personagens. Foi até divulgado um desenho do craque ao lado de Mônica e Cascão.

Marcelinho Carioca, o polêmico ex-atacante do Corinthians, por pouco também não virou personagem de quadrinhos. Em 2001 ele lançou o Pé de Anjo, que só não foi para os gibis (ou para qualquer outro lugar) porque, na época, o jogador estava em crise com os torcedores.

Outro que não emplacou e acabou cedo foi o título Coringuinhas. Lançado em 2003, numa parceria entre o Corinthians e a Publishouse, o gibi tinha como atração os jogadores mirins da escolinha do clube paulista, entre eles o craque Alvinho. 

A equipe criativa contava com Caco Machado (roteiros), George Tutumi (desenhos), Roberto Souza (arte-final) e o saudoso Hermes Tadeu (cores). Em 1998, a Editora Abril lançou o especial de luxo Linha de ataque: Futebol Arte. Com textos dos comentaristas esportivos Armando Nogueira, José Trajano, Marcelo Fromer (que também era guitarrista da banda Titãs e faleceu há poucos anos) e Casagrande, mais os desenhos de Marcelo Campos, Octavio Cariello, Rogério Vilela e Roger Cruz, foi um dos exemplos mais significativos da junção do futebol com a nona arte. Mas não foi nenhuma obra-prima do gênero, é preciso dizer.

Outra produção sobre o tema foi lançada em 2002. Trata-se de Dez na área, um na banheira e ninguém no gol. O álbum, publicado pela Via Lettera, apresentou 11 histórias produzidas pelos craques dos quadrinhos Fábio Moon, Gabriel Bá, Allan Sieber, Custódio, Fábio Zimbres, Lélis, Leonardo, Osvaldo Pavanelli, Emílio Damiani, Spacca, Samuel Casal, Maringoni e Caco Galhardo. E ainda teve um prefácio do ex-jogador Tostão.

E em 2004 saiu pela Editora Bom texto, o espetacular A História do Futebol no Brasil através do Cartum, livro organizado pela dupla Jal e Gual que rende uma homenagem ao mais apaixonante dos esportes e à memória do traço nacional. São 340 ilustrações de várias épocas.

Para os que não puderem adquirir nenhuma dessas edições, e que desejam ler alguma HQ sobre futebol, a opção é acessar o site da Nona Arte, sempre rico em quadrinhos de vários estilos. Lá se encontra disponível para download a excelente Dia de decisão, produzida por Arthur Ferraz, Daniel Brandão e Denilson Albano.





Cearense radicado em Alagoas, o marketista e jornalista Marcus Ramone é flamenguista "flanático" e editor do site Universo HQ. Foi articulista da extinta revista Flashback (Editora Abril) e da Crash (Escala), colabora com jornais e revistas de várias partes do Brasil e é diretor de marketing de uma rede de óticas do Nordeste.

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