segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ficção Científica e Futebol


Na literatura esportiva brasileira há um gênero ainda pouquíssimo explorado pelos autores. A Ficção Científica Brasileira tem apenas um livro de referência, o primeiro e talvez único deles, publicado às vésperas da Copa de 1998, na França, chamado “Outras Copas, Outros Mundos” (Editora Ano-Luz, vários autores).

Hoje, encontrado apenas em sebos, a obra reúne contos bem-humorados que misturam futebol e ficção científica. São 11 contos escritos por alguns dos principais autores de ficção científica brasileiros contemporâneos. Uma antologia memorável, surpreendente e inusitada sobre a temática da ficção científica brasileira feita até hoje. De quebra, fãs do ex-treinador da seleção brasileira, Telê Santana, poderão se deliciar com o prefácio assinado pelo falecido treinador.

Para resgatar o conteúdo dessa obra, Literatura na Arquibancada resgata parte do texto do especialista em Ficção Científica Brasileira, Roberto de Sousa Causo, publicado em junho de 2006, na página do Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1043995-EI6622,00.html ):

Ivan Carlos Regina (direita), autor do
Manifesto Antropofágico da FC Brasileira.
“A tentativa da FC brasileira de encarar o tema partiu de Marcello Branco, editor da antologia Outras Copas, Outros Mundos, seguindo sugestão de Ivan Carlos Regina, autor do "Manifesto Antropofágico da FC Brasileira". Assim como eu, Branco fez parte do Movimento Antropofágico da FCB lançado por Regina, e para ele o escritor brasileiro de FC não deve temer aquilo que o estrangeiro percebe como estereótipos nacionais do Brasil.

O futebol como expressão cultural popular se confunde com outros discursos que falam de uma singularidade brasileira - a mistura de raças, o sincretismo, a antropofagia cultural. É interessante especular que, tanto quanto esses outros discursos, aquele em torno do futebol fala de um homem especial, de um brasileiro que realizou ou que é capaz de coisas que o distingue dos outros - o craque, o artista da bola.

Fábio Fernandes.
É justo então que a antologia abra com um conto que trata justamente de uma espécie alienígena que, tão encantada com o futebol brasileiro, exige uma partida entre a seleção do nosso planeta (comandada por um técnico brasileiro) e a selecionado E.T. - que se revela composto exclusivamente por andróides modelados a partir dos dois maiores nomes do futebol brasileiro. 

O conto é uma paródia inteligente escrita por Fábio Fernandes: "2010, o Ano em que Faremos Contrato".


Ataíde Tartari
Outro conto irônico, mas sombrio, é "Craque na Família", de Ataide Tartari. Narrativa segura, seguindo a tradição dos contos sobre objetos de poder que realizam a vontade de quem os possui - aqui, tornando um garoto numa promessa esportiva, enquanto desperta os ciúmes do esbaforido pai de um colega.

Há dois contos epistolares no livro, "Santos F.C.", de Regina e "Carta à Redação", de Braulio Tavares. O primeiro fala da visita de um time de andróides, reproduzindo o Santos clássico de Pelé e Zito, às voltas com problemas gravitacionais enquanto enfrenta o time de várzea de um planeta periférico que nem se lembra mais da Terra.

Braulio Tavares
O segundo é a carta de um acadêmico ao jornal que publicou artigo de um historiador, sobre uma guerra entre o Brasil e um país vizinho, motivada por nossa incapacidade de nos classificarmos para uma copa do século 21.


Gerson Lodi-Ribeiro assinou com o pseudônimo
de Carla Cristina Pereira a história
"Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel". 

O livro possui dois trabalhos de história alternativa, um ramo da FC que supõe desvios nos caminhos da História, levando a realidades muito diferentes da nossa. Em "Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel", de Carla Pereira, o conquistador Hernán Cortez encontra pelo caminho um desafio de tlachtli, espécie de futebol nativo-americano que terminava com a morte do time perdedor. Como resultado do jogo, os nativos das Américas retém o controle do continente e chegam até a atualidade como uma potência não-européia. O conto é problemático por carecer de drama.

A outra narrativa de história alternativa é "Pátria de Chuteiras", o principal cultor desse subgênero no Brasil. Centrado num único jogo, o conto explora a idéia do Brasil enfrentando Palmares (uma república que teria surgido com o Quilombo dos Palmares) na final de uma Copa do Mundo.

Octávio Aragão
Outro trabalho merecedor de elogios é "Eu Matei Paolo Rossi", de Octávio Aragão, frenética aventura de viagem no tempo em que o protagonista-narrador é acidentalmente apresentado a uma polícia temporal (a história foi a base da série Intempol, criada por Aragão e desenvolvida por diversos autores). Narra como o jovem protagonista viaja no tempo pra cá e pra lá, mas não explica com que dinheiro e passaporte ele embarca do Rio de Janeiro para Madrid, a fim de matar o carrasco italiano da Copa de 82, Paolo Rossi.


Carlos Orsi
Mais consistente talvez sejam "Sob o Signo de Xoth", de Carlos Orsi, e "O Que Vale É Bola na Rede", de Cesar Silva. O primeiro inspira-se em H. P. Lovecraft para tratar de um grupo esotérico de cores contemporâneas que arma um massacre durante uma partida local, para ressuscitar um monstro antediluviano. Martinho caracteriza bem o ambiente da cidadezinha o percurso do jornalista-investigador que se vê preso no meio da trama sobrenatural.

Já o conto de Silva fala de uma partida decisiva no futuro próximo, em que um gênio brasileiro em neurologia robótica, ao invés de ganhar o Prêmio Nobel, se dedica a turbinar a mente dos jogadores brasileiros, num doping de neurônios. Um comentário sobre as proporções da paixão brasileira pelo esporte.

A maioria das histórias trata do futebol como componente da identidade brasileira, e aborda momentos decisivos em que o estado de espírito da coletividade brasileira depende dos resultados da Copa do Mundo, ou extrapola essa perspectiva para situações em que o esporte altera a história e a condição dos países.

Toda antologia temática possui alguns trabalhos muito bons, uma maioria mediana, e uns poucos que não deveriam estar ali. Outras Copas, Outros Mundos tem 4-3-4 com ataque ágil, um meio-de-campo meio fraco, e uma defesa bem fechada. Como o recém-falecido Telê Santana afirma no prefácio, trata-se de é uma antologia variada, que combina o maravilhoso da FC com o espetacular do futebol.

Um livro que fornece um sólido argumento em favor das propostas do Movimento Antropofágico da FCB - não há temas que uma literatura realmente engajada em reconhecer a realidade brasileira não possa transformar em boas histórias.

                                                                      ***

Abaixo, um dos autores da antologia “Outras Copas, Outros mundos”, Gerson Lodi-Ribeiro, detalha para os leitores do Literatura na Arquibancada que nunca tiveram contato com textos da ficção científica brasileira o que encontrarão em sua história. E mais abaixo, um trecho da criação do autor, “Pátria de Chuteiras”.


Pátrias de Chuteiras é uma noveleta sobre futebol.
Como é? Não é história alternativa? Sim, também é. Mas, antes de tudo, é a história de uma partida de futebol. No caso, a final de uma Copa do Mundo.
A proposta era escrever um trabalho de ficção que fundisse o assunto futebol aos temas típicos da fantasia, do horror, da ficção científica ou da história alternativa. Caso aprovado, o trabalho integraria a antologia temática que a Editora Ano-Luz estava organizando no início de 1998, a Outras Copas, Outros Mundos. Neste sentido, Pátrias de Chuteiras é o trabalho mais fiel ao propósito precípuo da antologia, pois toda a ação da noveleta se passa dentro de um estádio de futebol. No fundo, a noveleta mostra o que acontece durante essa partida, intercalando à trama futebolística em si, o dilema do técnico de uma das seleções, dividido entre dois sentimentos de lealdade antagônicos: o patriotismo que nutre pelo Brasil e a vontade de defender os interesses da raça negra, discriminada no Brasil e discriminadora em Palmares.

Isto posto, é de todo provável que o leitor pouco afeito ao "rude esporte bretão" não se entusiasme muito com Pátrias de Chuteiras. Paciência. Em minha defesa, só posso apresentar a alegação de que, assim como a ficção científica não se limita a robôs, naves estelares e pistolas-laser, a história alternativa não se limita aos grandes efeitos de decisões militares, que mudam o curso de batalhas decisivas e, portanto, da história como conhecemos.

Maurício de Nassau
Em termos de história alternativa, Pátrias de Chuteiras insere-se na linha histórica dos Três Brasis, em tudo idêntica à nossa até 1647, ano em que Maurício de Nassau decide regressar ao nordeste brasileiro para reassumir o governo de Nova Holanda. Nassau estabelece uma aliança com a Confederação de Palmares. Juntas, Nova Holanda e Palmares, conseguem derrotar a Coroa Portuguesa e, como resultado, Palmares torna-se a primeira nação independente da América, cerca de um século antes dos Estados Unidos.

É provável que alguns de vocês já conheçam esta linha histórica alternativa, da leitura das noveletas O Vampiro de Nova Holanda e Assessor Para Assuntos Fúnebres. A maior diferença é que, ao contrário daqueles trabalhos, em Pátrias de Chuteiras o filho-da-noite que atende pela alcunha de Dentes Compridos não dá o ar de sua graça.

Cometa Halley, em 1986.
A noveleta é o que os estudiosos do gênero da história alternativa - ou ficção alternativa, como preferem alguns - costumam designar como "presente alternativo", ou seja, uma história cuja ação se passa nos dias de hoje, ou bem próximo disso. A decisão da Copa do Mundo dos Estados Unidos se dá em 1986, o ano da passagem do cometa de Halley, e também o ano em que os cientistas de Palmares divulgam para o mundo uma descoberta que mudará os rumos da civilização... Contudo, nada disso é importante para a história da partida.

O drama do técnico Nascimento dos Santos me foi inspirado pelo jogador e técnico Didi.

Didi, técnico da seleção
peruana na Copa de 1970.
Para quem não sabe, esse jogador eminentemente técnico foi um dos heróis da vitória da seleção brasileira no Mundial de 1958 na Suécia. Mais tarde, Didi tornou-se técnico da seleção peruana, conseguindo classificá-la para a Copa do Mundo do México, em 1970. Por ironia do destino, as seleções brasileira e peruana se enfrentaram nas quartas-de-final. Antes da partida, discutiu-se muito no Brasil (e provavelmente, também no Peru), como o técnico brasileiro da seleção peruana se comportaria. Ele cantaria o hino nacional brasileiro? Colocaria a mão no peito durante sua execução? E durante a partida em si? Torceria pelo Brasil? Ou pelo Peru?

A ficção exagera a realidade. Em Pátrias de Chuteiras, o negro brasileiro Nascimento dos Santos, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos, torna-se técnico da seleção palmarina. Só que Palmares e Brasil são os piores inimigos. Ao longo de suas histórias, as duas nações já travaram cerca de uma dezena de guerras e conflitos menores. Conflitos onde Palmares quase sempre se saiu vitorioso; a ponto do território brasileiro nessa linha histórica alternativa ter se reduzido aos estados das regiões sul, sudeste e metade da centro-oeste. Como se isto não bastasse, além deste antagonismo histórico, ambas as seleções já se sagraram campeãs mundiais duas vezes e, pelo regulamento da FIFA, a primeira seleção nacional a se sagrar tricampeã mundial conquistará a posse definitiva da Taça Jules Rimet, um troféu de ouro maciço que, muito mais que seu valor material, trará consigo imenso prestígio político ao país que conseguir levá-lo para casa.

Taça Jules Rimet
Se mesmo em nossa linha histórica, futebol no Brasil já é coisa séria, na LHA descrita, essa partida se desenrola como autêntica batalha campal - reflexo não só da rivalidade de mais de três séculos entre brasileiros e palmarinos, como do choque entre duas visões de mundo muito diferentes, e de dois ideais de superioridade racial incompatíveis.

Na época em que a antologia Outras Copas, Outros Mundos foi publicada, alguns leitores me perguntaram se Nascimento dos Santos seria um "Pelé Alternativo". A resposta é depende. Depende do que se entenda por "Pelé Alternativo".

Em termos estritos, não. É inconcebível imaginar a existência do futebolista Edson Arantes do Nascimento numa LHA que já divergiu da história que conhecemos há mais de três séculos. Não obstante, alguns paralelismos histórico-pessoais que, por capricho, decidi introduzir no enredo.

Em termos genéricos, eu diria que sim. Embora não seja o Pelé, o personagem Nascimento dos Santos foi livremente inspirado nessa grande figura da história esportiva, e foi idealizado como uma homenagem ao Pelé de NLH.

                                                   ****

Abaixo, um pequeno trecho da noveleta de Gerson Lodi-Ribeiro, “Pátria de Chuteiras”, que pode ser lida na íntegra no link



“A SELEÇÃO É A PÁTRIA DE CHUTEIRAS.”
[NELSON RODRIGUES, DRAMATURGO E DIPLOMATA BRASILEIRO]

JULHO DE 1986.
JOHN F. KENNEDY MEMORIAL STADIUM - FILADÉLFIA — E.U.A.
FINAL DA DÉCIMA QUINTA COPA DO MUNDO DE FUTEBOL.

Nascimento transpira em abundância, molhando a camisa branca de linho, embora o calor desse dia ensolarado de verão na Pensilvânia não o incomode tanto assim. O que sentirá quando ouvir os primeiros acordes do hino nacional brasileiro? Quando fitar a bandeira de seu país, agora a seleção adversária, hasteada num mastro deste estádio?

Os titulares e reservas das duas seleções finalistas estão alinhados de pé no centro do gramado do Kennedy Stadium. O público de quase cento e vinte mil pessoas faz silêncio absoluto em respeito aos hinos nacionais que estão prestes a ser executados.

Primeiro vem o hino de Palmares. A bandeira verde com o carcará negro de asas abertas no centro é hasteada lentamente. Nascimento não consegue ver dali, mas sabe que o carcará da Primeira República carrega uma lança, um caule de cana-de-açúcar e uma luneta nas patas cerradas.

Disfarça e olha em volta, examinando as arquibancadas do estádio. Há três torcidas distintas: a palmarina, presente em números expressivos no lado oeste; a pequena e ruidosa torcida brasileira, distribuída nas arquibancadas do extremo leste, e a vasta maioria norte-americana, que os organizadores decidiram colocar no centro, para separar os torcedores palmarinos e brasileiros. A torcida americana deveria ser francamente favorável a Palmares, até por razões históricas. Afinal, durante a Guerra de Secessão, os carregamentos de armas e munições palmarinas adquiridas pelo Norte foram desembarcadas ali, em pleno porto de Filadélfia. Mas, como Nascimento receava, a derrota humilhante do time da casa ante os palmarinos nas semifinais, e a conseqüente demolição do sonho de disputar sua primeira decisão de Copa do Mundo, havia feito com que muitos americanos presentes no estádio empunhassem ban-deiras azuis cobalto do Brasil. (...)

Um comentário:

  1. André:
    Já corri na Estante Virtual e garanti um exemplar pra minha biblioteca! Ótima matéria, me pegou de calça curta como um drible pelo meio das pernas.
    Abraços,
    Cesar

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