quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Elis eterna...Eterna Elis



E lá se vão 33 anos sem Elis Regina. 2015 marca também os 70 anos de vida da “Pimentinha” como ficou conhecida. Elis adorava o futebol e “emprestou” sua voz magnífica para algumas belas canções envolvendo o tema.

Elis Regina Carvalho Costa, ou simplesmente Elis, nasceu em Porto Alegre, no dia 17 de março de 1945. Ela começou a cantar cedo, aos 7 anos, em programa de rádio chamado Guri, na capital gaúcha. Com apenas 13 anos assinou seu primeiro contrato com a Rádio Gaúcha, e aos 15 anos gravou seu 1º elepê intitulado ''Viva a Brotolândia''.


Elis morreu com apenas 36 anos, no dia 19 de janeiro de 1982, deixando mais de 30 discos gravados. A morte trágica aconteceu devido a complicações decorrentes de uma overdose de cocaína, tranquilizantes e bebida alcoólica.

Suas músicas e, principalmente sua voz, nunca mais foram esquecidas. Como afirma a biógrafa de Elis, Regina Echeverria: “Dá para dizer que foi a maior cantora do Brasil, sem medo de errar. Uma mulher do Brasil, uma cantora do Brasil, com uma voz do outro mundo. 

Elis Regina não tinha medo de entrar de cabeça nas coisas".


Literatura na Arquibancada aproveita para dar a dica de leitura de sua biografia que ganhou releitura, "Furacão Elis", republicada pela editora Leya em 2012.

Neste seu aniversário de 70 anos, os fãs de Elis também ganharam um belo presente. Se quiser saber tudo sobre a vida da "Pimentinha", basta acessar o site

www.elisregina.com.br. E o mais interessante neste site é a seção onde você pode ler o novo livro sobre a vida de Elis: "Viva Elis", repleto de fotos e documentos raros (http://www.elisregina.com.br/Para-Voce/Livro ).

Mas como a praia deste blog é o futebol, Elis é um prato cheio para o assunto. Na sua curta passagem por essa vida não deixou de escancarar a paixão criada por alguns times brasileiros. 

No Rio Grande do Sul, sua terra natal era torcedora do Grêmio, com carteirinha e tudo.


Elis recebendo homenagem dos diretores do Grêmio,
H. Bittencourt e Sérgio Ilha.

Era o ano de 1962, quando a secretaria do Grêmio recebeu a visita de Elis Regina que queria se tornar sócia do clube gaúcho. Foi matriculada sob nº 688 e tornou-se membro do “Quadro Social Feminino do Tricolor”.


Ângelo Garbarski, em entrevista na PUC/RS.





Mulher de muitas paixões, o veterano repórter esportivo da Rádio Gaúcha, Ângelo Garbarski revelou em uma entrevista de 2002 para o programa “Vozes do Rádio”, da Puc, Rio Grande do Sul, detalhes de duas delas: a primeira, pelo clube tricolor; a segunda, por aquele que teria sido o grande amor de sua vida, um locutor esportivo:

“Eu e Elis éramos colegas de rádio, eu era estudante, estava quase me formando no científico, ela estudava no Instituto de Educação, e a gente tinha um relacionamento muito próximo. Sempre, nos ensaios, os ensaios eram de tarde na rádio Gaúcha, e quando terminava os ensaios, eu voltava da cobertura do Grêmio, ela era gremista fanática, a Elis Regina era doente pelo Grêmio, então queria saber notícias do Grêmio. Além disso, a gente discutia algumas coisas da vida, e tal. Namoro nunca houve porque ela era apaixonada por um colega meu da Gaúcha, do departamento de Esportes, que se chamava Marcos Amaral.

Elis, muito jovem, quando cantava nos programas de rádio
de Porto Alegre.

E os dois, ele era apaixonado por ela, e ela apaixonada por ele. Ele morreu muito jovem, não tinha quarenta anos, era locutor esportivo. Ela gostava muito dele, e quando ela foi embora daqui, e foi trabalhar na Record, e tudo, ela foi com um sentimento muito grande, queria levá-lo embora junto com ela pra São Paulo, queria levar o Marcos Amaral junto. Esse, eu posso assegurar, tenho a certeza absoluta que pode ter havido todos os envolvimentos, mas esse era a maior paixão da vida dela, apesar de haver uma diferença entre a formação de um e formação do outro.


Ou seja, a Elis Regina era uma guria que já estava terminando os estudos, ou praticamente terminando os estudos no Instituto de Educação, e o Marcos Amaral era semi-analfabeto. Ou seja, ele tinha voz bonita, tinha uma locução bonita, tinha uma voz maravilhosa, lia bem, era um bom narrador de futebol, mas era semi-analfabeto. Uma diferença, essa diferença intelectual dele pra ela. Mas eu tenho certeza absoluta de que ela adorava ele. 

E mesmo ela, três, quatro, cinco anos em São Paulo, se ele acenasse com a possibilidade de querer ir para lá, morar e viver junto com ela, ela aceitaria de braços abertos”.




Elis ganhou o apelido de “Pimentinha” porque sempre foi mulher de posições firmes e polêmicas em diversos temas. Ela, que surgiu para o sucesso na década de 1960, período sombrio da ditadura, amargou justamente em um estádio de futebol, uma cena que deixou milhares de seus fãs inconformados. Não eram todos ainda que sabiam que Elis não compactuava com as arbitrariedades praticadas nos porões da ditadura militar e, exatamente por conta disso, os militares, temendo a popularidade da cantora, a obrigaram a cantar o Hino Nacional durante evento num estádio de futebol.

Tabelinha - Elis x Pelé, 1969
Compacto simples Phillips 365291

Elis tornou-se definitivamente popular no coração do torcedor brasileiro no ano de 1969 quando gravou com o rei do futebol, Pelé, o compacto “Tabelinha” com músicas compostas pelo jogador. 

Quer dizer, quem queria ficar famoso era Pelé, cantando com a estrela da MPB na época. A interpretação de Pelé é sofrível. Elis gravou duas músicas “Vexamão” e “Perdão Não Tem”. 





Pelé declarou recentemente o que restou desse encontro com Elis, considerado quase “desastroso” pelo rei da bola: “Eu, todo desajeitado, cantando tudo errado, sem saber como parar. Foi um tremendo de um vexame, mas o engraçado é que eu cantava errado e os “puxa” achavam bom”.


Nada disso abalou a idolatria de Elis pelo rei do futebol. Em 1971, pouco antes de mais uma das despedidas de Pelé, Elis lançou outro disco homenageando o craque brasileiro. Ela gravou uma música composta por Miguel Gustavo, mesmo autor que se consagrara com a música “Pra frente Brasil”. Pena que a música Obrigado Pelé não tenha registro na voz de Elis, mas vale a pena conferir a versão do MPB-4, logo abaixo.

Obrigado Pelé, 1971 (compacto simples Phillips Brasil
6069.010). Despedida de Pelé da Seleção Brasileira.
Músicas: Obrigado Pelé (com MPB-4) e
Perdão, Não tem (com Elis Regina).

Brito e Carlos Alberto Torres carregam Elis Regina,
observados por Pelé e mais ao fundo Djalma Dias.

Nessa mesma época, Elis também emprestou sua voz poderosa para uma das músicas com o tema futebol que se tornaram mais famosas. 

“Aqui é o País do Futebol” foi composta por Milton Nascimento e Fernando Brant para o filme sobre a vida de outro craque do futebol brasileiro: “Tostão, a Fera de Ouro”, lançado em 1970. 

A música tem o ufanismo do título brasileiro conquistado por Tostão e seus companheiros na Copa do Mundo de 1970.


Basta notar o trecho em que diz que “o Brasil fica vazio nas tardes de domingo porque é dia de futebol”. Independentemente do ufanismo a grande verdade é que a música foi um enorme sucesso chegando a ser utilizada na abertura de diversos programas esportivos, nas décadas de 1970 e 1980.








Mas Elis também emprestou sua voz e talento para uma música que homenageava um craque bem radical, que agitou os bastidores políticos e os costumes tradicionais do futebol brasileiro.


Afonsinho

Ela gravou “Meio de campo”, música que tinha Afonsinho, um dos primeiros a reivindicar melhores condições de trabalho para os profissionais do futebol. 

A música foi composta por Gilberto Gil, em 1973.
                                       Meio de Campo - Elis Regina
                                       Programa Ensaio, de Fernando Faro, TV Cultura.


Elis também deixou eternizado para o mundo do futebol outra canção:


Depois de nascer e passar a juventude em Porto Alegre, Elis mudou-se para o Rio de Janeiro. 

Lá, dizem, era torcedora discreta do Fluminense. 

Mas foi quando mudou-se para São Paulo, no final da década de 1970 que Elis encontrou sua verdadeira paixão no mundo do futebol. 

Virou, também (como no caso Grêmio), torcedora fanática do Corinthians.


Para “comprovar” essa paixão pelo Timão e que Elis já pertencia ao tal “bando de loucos”, Literatura na Arquibancada resgata um pequeno texto escrito pelo brilhante jornalista Carlos Maranhão, na edição de 15 de fevereiro de 1980, da Revista Placar:


"Elis já foi Grêmio. Hoje ama o Timão. As figurinhas do goleiro Gilmar, com seu porte atleta elegante, despertaram na menina Elis Regina o interesse pelo futebol - e o amor pelo Corinthians. Adolescente, tornou-se gremista e, já adulta, começou a também gostar do Flu. Hoje, morando em São Paulo, torce pelo Corinthians. 'Transo muito futebol - diz Elis. Para mim, é como o jazz: você dá o tema, que no caso é o gol, e o cara começa a improvisar.' Do futebol só tem uma queixa: João Marcelo, seu filho, é palmeirense”.



Elis partiu, mas algumas de suas interpretações serão eternas. 

Uma delas, poderia perfeitamente servir para ilustrar sua passagem por essa vida:


Eternidade
Elis Regina

Se ele é mais que céu
É mais que luz
É mais que amor

Sinto o infinito
Da paz que vem
Nascendo em mim

E sinto, enfim
Que é mais que tudo
É mais que o mundo
Me ensinou

Paz que eu tanto amei, chorando
Não, não se vá
Nossa eternidade
Que sempre sonhei
Nasceu no que sou

Sim, é mais que tudo
É mais que o mundo
Me ensinou



E ainda outra, Fascinação, com o sentimento que deixou em todos os seus fãs:


Fascinação
Elis Regina

Os sonhos mais lindos, sonhei,
De quimeras mil um castelo, ergui,
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão, mil venturas previ...

O teu corpo é luz, sedução,
Poema divino, cheio de esplendor,
Teu sorriso, prende, inebria, entontece,
És fascinação....
Amor!


Mas uma música em especial, para o editor deste blog, André Ribeiro, tem significado muito especial. Quando de sua passagem pela TV Cultura ele utilizou uma de suas interpretações, a música “Redescobrir”, em um programa especial produzido pelo programa Grandes Momentos do Esporte sobre como o esporte poderia ser utilizado para a reinserção social de crianças carentes, muitas das quais utilizadas em trabalhos escravos revelados pela reportagem. A cena de abertura do referido programa foi feita em um campo de várzea, em São Paulo, com várias dessas crianças jogando um jogo de futebol, em um imenso campo de terra cercado por uma favela. Apesar de não termos imagens da reportagem, basta imaginar, como Elis sempre fez e fará com sua voz...A interpretação abaixo é inesquecível...como só Elis era capaz de fazer.


Redescobrir
Elis Regina

Como se fora
A brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho
Na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos
Na canção da vida
História!
O suor da vida
No calor de irmãos
Magia!

Como um animal
Que sabe da floresta
Memória!
Redescobrir o sal
Que está na própria pele
Macia!
Redescobrir o doce
No lamber das línguas
Macias!
Redescobrir o gosto
E o sabor da festa
Magia!

Vai o bicho homem
Fruto da semente
Memória!
Renascer da própria força
Própria luz e fé
Memória!
Entender que tudo é nosso
Sempre esteve em nós
História!
Somos a semente
Ato, mente e voz
Magia!

Não tenha medo
Meu menino povo
Memória!
Tudo principia
Na própria pessoa
Beleza!
Vai como a criança
Que não teme o tempo
Mistério!
Amor se fazer é tão prazer
Que é como fosse dor
Magia!

Como se fora
Brincadeira de roda
Memória!
Jogo do trabalho
Na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos
Na canção da vida
História!
O suor da vida
No calor de irmãos
Magia!...(3x)

Como se fora
Brincadeira de roda
Jogo do trabalho
Na dança das mãos
O suor dos corpos
Na canção da vida
O suor da vida
No calor de irmãos...(2x)

7 comentários:

  1. André, meu amigo... que beleza de homenagem! Elis merece todo o nosso amor.

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  2. César, meu amigo. A última música "Redescobrir" tem uma baita significado pra mim. Você não imagina o que chorei ao rever o vídeo...abração.

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  3. Bem,
    O que dizer, o que escrever, diante de tão bela homenagem.
    Eu era, sou e serei sempre apaixonada pela Elis.
    Elis, sua voz, paixões, emoções, desesperos, frustrações e loucuras...
    Elis,
    A mais importante interprete da música popular brasileira.
    Sim, porque cantoras há muitas por aí... Muitas inclusive, que não nem cantar.
    Elis,
    Uma Luz nas Estrelas.
    Valeu meu amigo.
    Beijão.

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  4. Só uma retificação. Elis nunca deixou de ser gremista. Na época da reportagem, morando em SP, declarou gostar do Corinthians. A expressão "já foi gremista" não comporta a realidade dos fatos...

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  5. Linda homenagem a nossa Corinthiana Elis.
    Ela está em outras esferas porém nos deixou eternizada sua linda voz.

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  6. Linda homenagem a nossa Corinthiana Elis.
    Ela está em outras esferas porém nos deixou eternizada sua linda voz.

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  7. Ela era fluminense a ponto de pertencer ao time de estrelas do clube junto com Chico Buarque e Nelson mota.

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