quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

E agora Marcos?


Depois que um atleta de alto nível, como o goleiro Marcos, decide dar por encerrada a carreira, começa um processo na vida desses homens e mulheres bastante complicado. Tudo dependerá de como cada um viveu sua vida pessoal e profissional e, principalmente, no caso de atletas destacados como o goleiro Marcos, de como assimilaram a figura de “herói” incutida por seus fãs. O que farão de suas vidas agora? Como será a complicada transição de herói para “cidadão comum”?

Para refletir sobre todas essas situações, a psicóloga do esporte, Dra. Katia Rubio tem um texto fantástico e que foi elaborado para a biografia que ela publicou sobre Joaquim Cruz, campeão e herói como o goleiro Marcos.

O que Literatura na Arquibancada apresenta abaixo são fragmentos desse texto, recomendando, então, a leitura na íntegra na biografia de Joaquim Cruz: “Joaquim Cruz – Estratégias de Preparação Psicológica: da Prática à Teoria” (Editora Casa do Psicólogo, 2008).


PREPARANDO-SE PARA A TRANSIÇÃO DE CARREIRA
(...)
De acordo com Sgobi (2008) o encerramento da carreira esportiva começou a ser compreendido como um importante fenômeno nos últimos vinte anos. Isso porque a divisão social entre atletas de elite e a população em geral começou a ganhar novos contornos a partir do final da década de 1980 com a expansão da profissionalização de atletas até então proibida pelas rígidas normas do Comitê Olímpico Internacional.

Um dos elementos que leva um atleta a planejar a transição de sua carreira é o fato de seu corpo já não mais responder às expectativas de rendimento em treinos e competições, impedindo a obtenção de resultados passados. Para aqueles que viveram a condição de campeões, essa situação ganha outros contornos uma vez que além dos resultados competitivos esse atleta experimentou também a glória da vitória e todos seus desdobramentos. (...)

O término de carreira e a pós-carreira atlética têm chamado a atenção de estudiosos tanto da Psicologia como da Sociologia do Esporte. Isso porque ao representar um papel de destaque na indústria cultural contemporânea, o esporte, seus protagonistas e seus feitos são compartilhados socialmente o que torna o atleta uma figura pública, de grande reconhecimento popular e, em alguns casos, a imagem do seu país em âmbito internacional. O desdobramento disso é a dificuldade em manter sua privacidade e lidar com cautela com questões que transitam no limite entre o público e o privado. Deixar de defender as cores do país, em alguns casos, é muito mais do que uma decisão pessoal, ela pode representar uma questão de Estado. E diante do contexto social e político vividos esse final de carreira pode representar o recolhimento e o gozo desejados como também pode significar uma forma de traição ou falta de cuidado com milhões de pessoas.

Encerrar a carreira esportiva é um processo similar à morte, no sentido de que se finaliza um processo produtivo – a carreira esportiva – para se iniciar uma nova atividade em um novo papel social, muitas vezes desconhecido enquanto se vive o papel de atleta. Adaptar-se a essa nova atividade é como nascer para uma nova vida.

Por isso, retirar-se das competições e finalizar uma carreira esportiva tem sido interpretado por linhas teóricas derivadas da tanatologia - área que estuda os processos relacionados com a morte -, da gerontologia social - ciência que estuda os processos de envelhecimento - e da Psicologia do Desenvolvimento (Wylleman et alli, 1999).

Tanatologia é o estudo do processo de morte e de estar morrendo e tem sido aplicada na aposentadoria do esporte através de alguns modelos. Um deles é o de “Morte Social”, uma vez que se identifica na aposentadoria do esportista, o término de carreira atlética que pode ser acompanhado de perda de função social, isolamento e ostracismo. Outro modelo utilizado para se entender a transição de carreira é o de “Consciência Social”. Essa perspectiva é muito utilizada em instituições hospitalares que precisam lidar com a situação de terminalidade tanto com o paciente enfermo, como com a família e a equipe de saúde. Nessa situação vivem-se condições extremas como a necessidade de informar ao paciente sobre seu estado de saúde e à família sobre a impossibilidade daquela situação persistir por mais tempo. 

No contexto do esporte esse quadro é vivido de forma intensa pelo atleta, pelos companheiros de equipe, além da comissão técnica e dirigentes. Em um contexto de consciência duvidosa existe por parte do sujeito que ele está morrendo, mas ele tenta confirmar ou negar a suspeita levantada. No esporte essas suspeitas se anunciam quando do afastamento de competições, do desligamento da equipe ou pelo tom com que o técnico e/ou companheiros de time se referem ao momento vivido. Por outro lado, no contexto de consciência aberta todos estão cientes da morte inclusive o próprio sujeito, o que no caso do esporte significa dizer da percepção de todos sobre o final da carreira, o que permite a discussão entre o atleta, técnico e companheiros de time e os sentimentos correspondentes a ela (Martini, 2003). (...)

Outra possibilidade para se compreender a transição de carreira é pela gerontologia social, definida como a “análise sistemática do processo de envelhecimento” (Lavallee & Wyllemann, 2000). Se por um lado a gerontologia social procura explicar as atividades e seus desdobramentos na vida daqueles que parecem prósperos para a idade, esclarecendo o processo geral de aposentadoria da força de trabalho, no esporte ela busca entender os ajustamentos que o atleta tem que fazer em seus novos papéis sociais. Porém, os psicólogos do esporte têm feito algumas críticas a esse modelo porque consideram os atletas um tipo singular de profissional dentro da sociedade atual, o que lhes proporciona uma condição também diferenciada na aposentadoria, tanto pela precocidade com que ela acontece em relação a outras atividades profissionais, como pela visibilidade que o protagonista da prática esportiva tem para a sociedade.

Embora tenham representado importante avanço nos estudos relacionados à transição de carreira, os modelos da Gerontologia Social e da Tanatologia apresentam algumas limitações. Isso porque o final da carreira é visto como um evento único na vida do atleta e seu foco está situado no final de um processo de desenvolvimento de vida, como se a existência tivesse deixado de ocorrer a partir daí. Não há, nesses casos, a consideração do desenvolvimento de uma nova identidade a partir desse momento, afirmando uma similaridade com a morte e o fim, tomando o término de carreira como um evento absolutamente negativo.

Os modelos da Psicologia do Desenvolvimento no estudo da transição de carreira ao contrário dos modelos tanatológicos e gerontológicos entendem a aposentadoria como um processo e não como um evento único na vida do atleta. Isso porque nessa perspectiva entende-se que a nova identidade é a continuidade do que se passou, inclusive porque a sociedade mantém o reconhecimento do sujeito, e consequentemente seus feitos, a partir do papel desempenhado no passado e porque o núcleo social constituído ao longo dos anos de carreira esportiva, principalmente da família, mantém-se o mesmo (Wylleman, Knop, Verdet & Cecic-Erpic, 2007). (...)

É grande o esforço a ser realizado pelo atleta para se completar o processo de transição de carreira. Para que ela se dê de maneira saudável é preciso um grau de disposição interna para a adequação ao novo papel social que envolve alguns procedimentos. O primeiro deles diz respeito à assimilação da nova identidade e todos os seus desdobramentos, parafraseando o dito shakespeareano ser ou não ser. Isso tem relação direta com a transformação desse papel junto à sociedade que também necessita de tempo para poder ter o atleta não mais como aquela figura heróica capaz de realizar feitos incomuns, mas como um cidadão que tem suas obrigações e afazeres.

A apropriação desse novo papel se reflete também nas interações humanas, tanto em nível familiar como com os companheiros do passado que ainda se mantêm nos papéis atléticos (Drahota & Eitzen, 1998).

No modelo de transição formulado por Stambulova (1994) a transição de carreira é tida como um acontecimento crítico da vida que como outros precisam de uma estratégia para serem elaborados e superados. Afirma que esse planejamento estará pautado na história de vida do atleta que se retira, e portanto, é necessário que se observe a duração e limites de idade da carreira esportiva vivida; a especialização alcançada pelo atleta, caracterizada pelo número de eventos esportivos dos quais participou e pelo número de papéis desempenhados pelo atleta no esporte em toda a extensão de carreira; nível de conquistas; e por fim o custo da carreira, considerando o gasto de tempo, de energia, de saúde e de dinheiro. Há que se considerar ainda o grau de satisfação do atleta com a sua própria carreira e o nível de sucesso e reconhecimento social alcançados.

A realidade do atleta que se dedica a conquistar grandes marcas é árdua o que o leva a se sentir muitas vezes no limite de sua capacidade. Martini (2003) aponta que atletas com elevados recursos para lidar com as situações de transição tenderão a experimentar menos estresse do que atletas com poucas habilidades para alterar suas rotinas e hábitos de vida, sendo que a qualidade de ajustamento está influenciada pela quantidade de recursos disponíveis para lidar com a nova situação. (...)

Na relação entre o ego e o desempenho de papéis sociais muitas vezes o atleta se vê identificado apenas com a figura espetacular sugerida pela condição de esportista – aquele capaz de realizar grandes feitos – dificultando sua participação em situações da vida cotidiana e em outras atividades sociais. Se por um lado sua condição de atleta diferenciou-o de uma grande parcela da população, permitindo que goze de privilégios reservados a poucos, por outro dificulta a tomada de decisões de âmbito privado por ser ele uma figura pública.

Saber pôr fim a um papel social exige sabedoria. E poucos no esporte contemporâneo souberam fazer isso com maestria. (...)


Repartir as glórias conquistadas com sua comunidade, essa é a condição diferencial do herói.

Sobre Katia Rubio:

Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.


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