sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Djavan e "Seu bem querer"


Ele completou 65 anos no dia 27 de janeiro de 2014 e entre os vários músicos brasileiros que já cantaram e escreveram composições para o time do coração, Djavan sabe do que fala porque “esteve lá”. Isso mesmo, se não fosse a paixão pela música e o talento para compor desde muito jovem Djavan poderia ter brilhado nos gramados brasileiros.


Ele nasceu em Alagoas, no ano de 1949, e como todo menino brasileiro adorava ficar pelas ruas da do bairro em que morava jogando suas “peladas”. Quem viu, garante: Djavan era bom de bola, dono de um refinado toque de bola e visão de jogo que todo meio-campista tem que ter. E há testemunha ocular para comprovar isso. Quando estudava no “Colégio Estadual” seu professor de Educação Física, Ivon Cordeiro, levou-o para treinar nos juvenis do Centro Sportivo Alagoano, o CSA.


Djavan tinha então 17 anos e como todo jovem brasileiro sonhador de se tornar um craque no futebol, pensou em seguir carreira profissional seguindo o exemplo de alguns de seus ídolos: Garrincha e Didi ou ainda Dida e Zagallo, os dois últimos, alagoanos como ele e que venceram no futebol carioca e brasileiro. Para sorte da música brasileira, ele tinha um problema comum na maioria dos garotos que desistem do profissionalismo: não gostava de treinar.


Em uma entrevista feita para a revista Placar, Djavan confessa sem modéstia: “Eu era muito bom de bola. Adorava jogar. O meu mal era que detestava ginástica”. Resultado: aos 19 anos quando tinha de decidir se seguiria ou não no futebol, acabou desistindo e optando pela carreira de músico. 

O futebol acabou perdendo um estiloso meio-campista, segundo o próprio Djavan se definia e com características similares ao de um craque do time do qual era torcedor fanático: “jogava mais ou menos como o falecido Geraldo, do Flamengo”.

A semelhança entre Geraldo e Djavan.
  
Ao desistir da carreira de jogador, Djvan fez as malas e partiu para o Rio de Janeiro e quis o destino que o futebol acabasse abrindo as portas para o seu sucesso na música brasileira. Ele tinha 23 anos, não conhecia ninguém e nunca havia ido ao Rio antes. Começou trabalhando como crooner em boates famosas como Number One e 706, mas estava “meio sem rum” na carreira quando lembrou-se de um amigo e conterrâneo que trabalhava como locutor esportivo na Rádio Globo.

Édson Mauro

Edson Mauro acabou abrindo as portas necessárias para que Djavan se projetasse no cenário musical. Foi apresentado a produtores musicais e acabou na Som Livre onde passou a gravar trilhas de novelas. 

Em três anos, Djavan compôs mais de 60 músicas de vários gêneros, uma delas “Fato Consumado”, que ficou em segundo lugar no Festival Abertura, da TV Globo, em 1975. (http://euamompb.blogspot.com/2011/10/voz-o-violao-musica-de-djavan.html).


No ano seguinte, Djavan grava seu primeiro disco “A Voz, o Violão, a Música de Djavan", onde “Fato Consumado” e outra música que o consagraria definitivamente na MPB: “Flor de Lis”.


No final dos anos 1970 Djavan já fazia enorme sucesso. O ex-futuro jogador de talento vindo de Maceió era um craque, da MPB, claro. Mas quis também o destino que indo viver no Rio de Janeiro, Djavan ficasse lado a lado com outra de sua maior paixão: o Flamengo. E nesta época, início dos anos 1980, o rubro-negro carioca marcou diversas gerações de torcedores com o time de Zico, Adílio e companhia que acabaria campeão mundial interclubes em 1981.


O sucesso na música não permitia que ele sempre estivesse nas arquibancadas do Maracanã, mas Djavan passou a escancarar a paixão que tinha pelo Flamengo. Na mesma entrevista feita para a revista Placar, em 1983, ele revela: “Deixei para trás o meu querido CSA e tudo mais em Maceió, mas, em compensação, vim para junto do Flamengo, time do qual, como todo mundo, eu já era torcedor em Alagoas. A beleza do futebol começa no Flamengo, não importa com quem ele jogue. Aquela camisa tem parte com Exu. É um time lindo”.


Com tamanha declaração de amor, não demoraria muito para que Djavan acabasse compondo músicas para o time de coração. Foi assim que em 1992 ele gravou a primeira de várias músicas feitas para e sobre o Flamengo, a balada “Boa Noite” (inda bem que eu sou Flamengo/Mesmo quando ele não vai bem/Algo me diz em rubro-negro/Que o sofrimento leva além). Djavan tinha explicação para a música: “Cantar o Flamengo é cantar a maioria. É o clube mais democrático do país”.



Outra música que Djavan eternizou sua paixão pelo Flamengo foi “Pássaro”, em 1998.


Vem me dar teu calor

Que eu te dou meu carinho
Como faz a flor com beija-flor
Ou o pão e o vinho
Minhas juras de amor
Teus cuidados comigo
Na paz dos teus braços
Pena de ave, campos de trigo
E chego a levitar
Quando estou te olhando
Pássaro voa e vai pela beira do rio
E deixo de pensar no que é desengano
E reparo só nos desafios
Com a graça de Deus menino
É que eu me guio
"Rogai por nós, vos peço paz!"
Nos una mais, não nos deixe sós
E se não for pedir demais,
Quero vida normal e algum dinheiro
Deitar, dormir, poder sonhar
Que um dia eu vá conhecer o sul
Que chova aqui o que chove lá
Para o que se plantar ganhar o verde
Pra alimentar, pra garantir
O bem-estar de viver sem medo
E ter pra quando precisar
E não ter que ficar chupando o dedo
Da criação, dos pés de coco
A fruta-pão quero ver crescer
Realizar a ilusão
Para o meu coração se aquecer
Se eu deixar de ter você
É como não ter mais o que esperar
Ou sei lá o quê, deixar de ser
Flamengo, Mengo
Ah, se eu perder
É quase não mais poder respirar
Ou pirar de vez e não ser mais
Flamengo, mengo, mengo


Djavan afirmou ainda na entrevista à revista Placar, em 1983, que seu maior ídolo rubro-negro é Zico. Em certo ponto da reportagem, escrita por Maria Helena Araújo, Djavan acaba deixando guardado para sempre um registro histórico, pelo menos para os torcedores do Flamengo e do CSA, de Alagoas. Um momento que vale a pena ser transcrito novamente:  

“A conversa está agradável, Djavan surpreende-se quando o fotógrafo tira da bolsa duas camisas, uma do CSA, outra do Flamengo. Primeiro ele veste a do time alagoano e volta a recordar, saudoso, as peladas de rua em Maceió:  “Só tinha graça quando acabava em pancadaria”. E não resiste: volta a brincar com a bola no gramado. Faz embaixadas, mata no peito, joga de calcanhar – e mostra que bem poderia ser um craque da bola. Mas a música é sua vida. O futebol, seu bem-querer, segredo, sagrado, sacramentado...”

Foto que ilustrou matéria da revista Placar, de 1983.
E é o próprio Djavan que, apesar de toda a paixão pelo futebol, define a importância da música em sua vida:

“Ser músico não é minha profissão, é minha vida. Desde que eu me entendo por gente lido com música. Eu tinha 3, 4 anos de idade e minha mãe já pedia para eu cantar para as amigas. É uma relação quase que embrionária, eu sempre escutava minha mãe cantar em casa, no trabalho e com as amigas. Não tive de fazer teste vocacional, nada disso. Houve uma época que pensei em ser jogador de futebol, eu jogava bem e todo mundo falava para eu seguir nessa profissão, mas a música me arrebatou. Eu não gostaria de ser outra coisa.”

E para encerrar, uma última música de Djavan, um de seus maiores sucessos até hoje, e que ele aproveitou para deixar em um dos versos românticos mais uma referência ao futebol: “Se”. (Insiste em zero a zero e eu quero um a um).


2 comentários:

  1. Lendo essa bela matéria, André Ribeiro, fico achando que o Djavan poderia realmente ser um craque nos dias de hoje: “Eu era muito bom de bola. Adorava jogar. O meu mal era que detestava ginástica”. Seria um jogador perfeito para esses times de massa que contratam baladeiros...

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  2. Amo!
    Ele está onde deve e merece: na música.
    Futebol é apenas um agregador positivo, na vida que ele escolheu.
    Tenho o primeiro disco dele e, não dou, não troco e nem vendo por nada. rsrs
    Amei.
    Parabéns (mais uma vez) pela matéria.
    Beijo.

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