sábado, 7 de janeiro de 2012

Cafu, o Forrest Gump brasileiro


Do Jardim Irene, periferia de São Paulo para o mundo. Marcos Evangelista de Moraes, o Cafu, é o personagem do artigo escrito por Guilherme Rogado, acadêmico de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e Ademir Luiz, Doutor em História e professor na mesma UEG. O artigo foi escrito em julho de 2010.

Cafu, o Forrest Gump brasileiro

Por: Guilherme Rogado e Ademir Luiz

De tempos em tempos, pessoas comuns são abençoadas com extrema sorte. O destino lhes sorri. Tudo o que fazem, mesmo contra possibilidades estatísticas, dá certo. Não raro, até quando não fazem nada, tudo também da certo. Os mais cínicos diriam que nascerem virados para Lua. Poucos se encaixam nestas situações com tanta propriedade quanto Marcos Evangelista de Moraes. Marcos, um brasileiro. Quem? Esse é o nome de batismo do nosso eterno Cafu, lateral direito que monopolizou a camisa 02 da Seleção por anos e anos.

Como qualquer peladeiro sem unha sabe, Cafu é um lateral comum. Se não é um craque, também não é um perna-de-pau. Fica na média. Mesmo assim, conseguiu marcas incríveis considerando seus parcos talentos. Isso lembra um tipo marcante da década de 1990: Forrest Gump, personagem interpretado pelo oscarizado Tom Hanks. No filme, dirigido por Robert Zemeckis e levemente inspirado no clássico O Idiota, de Dostoievsky, o ingênuo Forrest Gump conseguiu realizar feitos incríveis de um jeito totalmente despretensioso. 

Para citar apenas alguns, mesmo tendo enfrentado graves problemas físicos na infância, ensinou Elvis a dançar, foi uma estrela de futebol americano, herói de guerra e craque do tênis de mesa. Sem ter a menor noção de política, participou de manifestações pacifistas contra a Guerra do Vietnã, envolveu-se com os Panteras Negras e inspirou John Lennon a compor Imagine. Sem deixar de ser um caipira do meio-oeste americano fez fortuna com pescado e foi alto acionista da Apple.

Conheceu diversos presidentes da república e tirou um do poder, Nixon, sendo o responsável pela exposição da espionagem no edifício Watergate. Tudo isso sem saber o que estava fazendo e com um Q.I abaixo da média.

Antes de se perguntar o que Cafu tem a ver com isso, dê uma segunda olhada em sua carreira. O mundo acompanhou seu acúmulo de títulos e recordes, mas, como para todo aspirante a jogador profissional, tudo começou nas peneiras da vida. Nosso afortunado “craque” conseguiu ser reprovado em oito delas. Isso mesmo, oito! Uma a mais do que sete, que é o número do infinito. Mas não desistiu de seu sonho, até, finalmente, acertar e ser aceito na nona, no São Paulo. Não precisa ser um gênio da matemática para saber que a probabilidade de oito peneiras terem acertado é maior do que uma. Mas no caso da sorte de Cafu, nem a matemática explica.

Para sua sorte, Cafu chegou no São Paulo na era vitoriosa de Telê Santana. O mestre Telê imediatamente simpatizou com o júnior de apelido estranho e nome de evangelista e de poeta. Resolveu apostar nele. Quem tem padrinho não morre pagão. Para começar, o mestre resolveu reinventar Cafu. Seu olho clínico percebeu que ele não rendia em sua posição de origem, no meio de campo, jogando de volante. Testou-o como lateral, fazendo-o treinar cruzamentos exaustivamente. Nunca se tornou um grande cruzador, mas seu fôlego incansável garantiu-o na nova função. Se há uma coisa que Cafu sabe fazer é correr. Ele e Forrest.

O resultado da aposta de Telê foi o bi-campeonato na Taça Libertadores da América, em 1992 e 1993. Anos em que foi Bola de Prata da Revista Placar. Mas Cafu não parou de correr e de aparecer em programas de TV. Tanto correu que deu a volta no mundo, chegando ao Japão. Ganhou com o Tricolor Paulista o Mundial Interclubes de 1993. Foi convocado para a Copa de 1994, nos Estados Unidos, terra de Forrest. O Brasil não ganhava a competição desde 1970. Parecia que não ganharia de novo. Era uma seleção de cafus. Repleta de jogadores comuns.

Mas ninguém contava com o aparecimento de um gênio absoluto, Romário, que repetiu o feito de Garrincha de 1962 e ganhou uma Copa, praticamente, sozinho. Cafu foi junto e de lambuja jogou os últimos minutos da final, herdando a posição do veterano Jorginho. Por efeito inércia foi titular na Copa de 1998, onde se destacou em uma Seleção que chegou à final jogando mal. Dessa vez, os deuses do futebol dormiram e a Seleção Brasileira perdeu para Zidane e seus amigos azuis.

Durante muitos anos, o esforçado lateral não viu ninguém que pudesse ameaçar sua titularidade na Seleção Brasileira. Não que Cafu fosse tão melhor assim. Simplesmente não havia outro sequer razoável. Mas isso não era o bastante. Veio a copa de 2002, sua terceira seguida. Dias antes da estréia, o então capitão Emerson fraturou o braço em um rachão. A braçadeira caiu no colo logo de quem? Cafu já havia conseguido jogar uma copa como o reserva que entrou na final. Uma como titular absoluto. E porque não também como capitão? De que outra maneira o mundo conheceria o nome de sua amada esposa Regina, ou de sua comunidade nos tempos de pobreza? Quem além de um legítimo Forrest Gump tupiniquim conseguiria “contar histórias” pessoais durante o sagrado ritual de levantar a Taça do Mundo? E quem mais subiria em um banco para fazer isso?

Cafu ganhou um interessante apelido devido ao seu invejável condicionamento físico: “o trem expresso”. Jogou em grandes clubes da Europa e do Brasil. Coleciona recordes invejáveis: maior número de jogos pela seleção brasileira, único atleta presente em três finais de Copa seguidas, campeão italiano, brasileiro, da Liga dos Campeões, duas Libertadores, duas copas do mundo etc, etc, etc. O resto é história... a Copa de 2006, por exemplo!

Sempre acompanhado por anjos da guarda, um olheiro distraído, mestre Telê, o azarado Emerson e outros que fazem parte da incrível história de nosso macunaímico herói, Cafu tornou-se uma lenda. Aplausos! Méritos dele. Mesmo? Os deuses do futebol são manhosos. Escolhem seus preferidos. Afinal, Cruyff, Puskas e Zico não foram Campeões Mundiais; Paulo Sérgio, Dadá Maravilha e Dunga foram. 

Não que Cafu seja ruim, longe disso, ele apenas chegou um “pouquinho” longe demais considerando pragmaticamente sua perícia futebolística. 

Afinal, futebol não é atletismo. Assim como Forrest Gump, nem em seus sonhos mais delirantes Cafu imaginaria ir tão longe. Para ficar igual, só faltaria sua amada entoar gritos de incentivo na beira do campo: “Corra, Cafu, corra”!


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