terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A bola vai rolar de novo (2)


A bola vai voltar a rolar. No próximo final de semana começam os campeonatos estaduais pelo país. Literatura na Arquibancada recomenda e destaca hoje a leitura de um livro espetacular, repleto de informação, pesquisa histórica e recheado de causos divertidos: “Campeonato Carioca, 96 anos de história” (Irradiação Cultural, 1997), escrita por Roberto Assaf e Clóvis Martins.

A obra teve, felizmente, atualização recente, em 2010, pela Editora Maquinaria, pois a obra só era encontrada em sebos a preços astronômicos.



Literatura na Arquibancada destaca algumas dessas “pérolas”:






Equipe do Mangueira.




Em 1909, o Fluminense foi o campeão, mas um certo Mangueira foi o time a entrar para a história:

“A nota curiosa da competição foi a goleada, a maior de toda a história do futebol brasileiro, do Botafogo, 24 a 0 sobre o Mangueira, um clube modesto da Tijuca, Zona Norte do Rio, que desapareceu em 1924, somando 96 derrotas nas 118 partidas que disputou. Para muitos, o resultado não passa de lenda do amadorismo. Para alguns historiadores, o time deixou-se abater com facilidade porque teve de ser reforçado por “dois ou três diretores” sem qualquer aptidão para a prática do futebol. Mas a partida aconteceu de fato, sem que o Mangueira precisasse recorrer a dirigentes. Está em quase todos os jornais da época. O Mangueira jogou completo, tanto que também disputou, no mesmo dia, o jogo de segundos quadros e perdeu de “apenas” 12 a 1.”

Charles Williams, em destaque na foto, além de 1º técnico
do futebol carioca é também autor do primeiro gol de goleiro,
quando jogava no futebol inglês.
Em 1911, a novidade é fora das quatro linhas:

“...pela primeira vez, no futebol carioca, uma equipe era dirigida por um treinador – a do Fluminense (que acabou campeão na temporada) –, o inglês Charles Williams, contratado por 18 libras esterlinas mensais, além de casa, comida e duas passagens ida e volta Rio-Londres”.

Camisa cobra-coral do Flamengo.
Em 1916, o América foi campeão, mas o destaque é rubro-negro:

“Na briga pelo tri, o Flamengo foi de fato uma das vedetes da temporada. Mas, temendo que a imagem do clube fosse definitivamente por água abaixo, sua diretoria mudou, enfim, o uniforme. A camisa “cobra-coral”, semelhante à bandeira da Alemanha, principal protagonista da Primeira Guerra Mundial, foi substituída pela de listras vermelhas e pretas que, com pequenas variações no desenho, dura até hoje.

Uniforme do Flamengo, a partir de 1917.
A troca aconteceu no amistoso em que o Flamengo derrotou o São Bento de São Paulo (não é o atual) por 3 a 1, e que marcou a inauguração oficial do estádio da rua Paysandu, no dia 4 de junho”.





Equipe do América, em 1913: Belfort Duarte está do lado
direito do goleiro Marcos, de branco, no alto da foto.
Crédito: www.abi.org.br


Em 1918, o Fluminense é campeão mas foi um jogador do América que entrou para a história:

“...O grande jogador (do América) João Evangelista Belfort Duarte foi assassinado em 27 de novembro, em Campo Belo, interior do estado do Rio, aos 35 anos de idade, em conflito motivado por posse de terra. 

Em 1945, o Conselho Nacional de Desportos (CND) decidiu homenageá-lo, entregando um prêmio com seu nome aos atletas que, a partir dali, encerrassem a carreira sem uma única expulsão de campo”.


Sidney Pullen
Em 1920, o final da Guerra na Europa revelou um estrangeiro como ídolo rubro-negro:

“Vivia-se, enfim, um tempo de paz e de promessas. A guerra na Europa terminara, e foi justamente um inglês, Sidney Pullen, que lutara nos campos de batalha defendendo seu país, quem comandou o Flamengo rumo ao título. Curiosa, de fato, a história de Sidney. O jogador, capaz de atuar em várias posições com a mesma eficiência, já havia ganho dois campeonatos da cidade, o primeiro pelo Paysandu, em 1912, e o outro pelo próprio Flamengo, em 1915. Em 1916, integrou a Seleção Brasileira que esteve no Sul-Americano de Buenos Aires, tornando-se o único estrangeiro a vestir a camisa do scratch, entre 1914 e 1917.

Seleção Brasileira de 1916 com camisas listradas
de verde e amarelo. Na foto, em pé, da esquerda para a direita:
Orlando, Lagreca, Marcos, Sidney Pullen, Nery, Galo e
Joaquim de Souza Ribeiro (dirigente). Agachados: Luiz
Menezes, Demosthenes, Friedenreich, Alencar e Arnaldo.
Crédito: arquivo Celso Unzelte
Convicto da importância de sua presença na luta contra os alemães, Sidney largou o futebol em 1917 para defender, como simples soldado britânico, a Inglaterra na Primeira Guerra, regressando a tempo de jogar pelo rubro-negro até 1925, quando encerrou, definitivamente, a carreira. No campeonato de 1920, Sidney fez de tudo um pouco. Revezou-se entre as três posições da linha média e em pelo menos três do ataque, marcou seis gols e deu passes para muitos outros. E dirigiu, na prática, o time dentro do campo”.

Presidente Epitácio Pessoa
Em 1921, o Flamengo é campeão, mas quem é notícia é o presidente da República:

“...o acontecimento de maior repercussão ocorreu em setembro, pouco antes do Sul-Americano que seria disputado em Buenos Aires. 
O presidente da República, Epitácio Pessoa, convocou o alto comando da CBD ao Catete e recomendou que a entidade evitasse de levar negros ou mulatos à Argentina. A maior figura do Brasil no torneio foi um gaúcho de pele claríssima, descendente de alemães, o goleiro Júlio Kuntz. 
Por suas soberbas atuações, o maestro argentino Ganaro dedicou-lhe o tango El Colosso. Mas a campanha da Seleção foi desastrosa. O time acabou em penúltimo lugar”.


São Cristóvão, campeão carioca de 1926.
Em 1926, no primeiro e único título conquistado pelo modesto São Cristóvão, o destaque é uma senhor de 40 anos:

“...não foi um campeonato fácil, como se possa pensar a princípio. Foram necessárias batalhas dentro de fora do campo. Conta O Imparcial que, em pelo menos duas ocasiões, o São Cristóvão esteve perto de dar adeus ao título. A primeira aconteceu a 14 de julho, em Figueira de Melo, quando perdeu de 3 a 2 para o Vasco, seu mais ferrenho adversário na competição. Registra o jornal que o público absurdo de 19040 pagantes, composto por maioria esmagadora de torcedores cruzmaltinos, praticamente ganhou o jogo no grito. Foi a tarde de glória de dona Eusébia. “Há uma penalidade lateral. O juiz apita. A multidão, julgando ser o apito final, invade o campo. E a pancadaria começa. Dentre os que brilharam na pancadaria encontrava-se a dona Eusébia, residente em uma rua próxima, e que sendo uma das figuras positivamente caricatas dos nossos grounds não deixa de ser uma enthusiasta extremada do onze de Henrique. Dona Eusébia, que aparenta ter 40 anos, é de cor parda. Logo que fechou o tempo às suas redondezas, entrou valentemente n o brinquedo e deu que fazer a muito marmanjo. Foi um número, a valente”.

Confira também o post sobre o livro que resgata a história do Campeonato Paulista:




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