sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A bola corre mais que os homens


Ele é um estudioso da cultura brasileira. Seu nome é Roberto DaMatta e ele continua a revelar  os diversos “Brasis” por intermédio de suas pesquisas com festas populares, manifestações religiosas, literatura, arte, carnaval, leis, costumes, política e, esporte, principalmente, o futebol.

Foi a partir de dois livros que DaMatta conseguiu começar a mudar a mentalidade do mundo acadêmico em relação ao tema futebol. Primeiro, no final da década de 1970, no livro “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”(Zahar Editores, 1979) e, logo a seguir, em 1982, na obra organizada por ele “Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira” (Pinakotheke, 1982).

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos, DaMatta explica algumas razões de seus estudos ligados ao futebol:
“Eu discuti o futebol como um ritual, um drama no qual pelo jogo se salientavam alguns aspectos da sociedade brasileira. Por exemplo, o jogo de cintura, a malandragem; a aversão pela força bruta; a luta do inferior (o Brasil) contra o superior (a Rússia, a Inglaterra). O futebol serve também como um mecanismo simbólico de discussão do talento contra o esquema, do espontâneo contra o plano, do justo contra o injusto e das regras que devem valer para todos contra a “corrupção” dos endemoniados que tramam contra nós”.
Em uma das tantas palestras que já fez chegou a afirmar que: ““o futebol é o nosso maior professor de democracia”.

Mas apesar de tanto já ter pesquisado e estudado sobre o futebol, são poucas as pessoas que sabem as verdadeiras razões para que ele tenha se interessado pelo tema futebol. A origem de tudo. E é na introdução do livro “A bola corre mais que os homens” (Rocco, 2006) que DaMatta abre o coração e revela em detalhes como tudo começou. Literatura na Arquibancada considera esse fragmento que você lerá abaixo como uma verdadeira obra-prima da literatura esportiva. Algo que causa reflexão, especialmente, naqueles que ainda insistem em considerar o futebol algo menor para estudos e pesquisas. Agradecemos ainda o trabalho de resgate da memória esportiva de Nei Medina, em seu blog http://neimedina.blogspot.com onde encontramos as fotos dos times mencionados por Roberto DaMatta em seu texto.

São João Nepomuceno
Crédito: http://www.sjonline.com.br/a-cidade/fotos-antigas
“Foi numa São João Nepomuceno esfumada pela passagem de um tempo que corre tanto ou mais que a bola que travei contato com o futebol. Estávamos no final dos anos 40 e papai, que era fiscal do consumo, havia sido transferido de Belo Horizonte para Juiz de Fora e, em seguida, para São João para onde viajamos depois de uma temporada de praia em Niterói, na casa dos meus avós.

Roberto DaMatta, bebê, em Manaus com a família.
Sua mãe está segurando sua mão. O pai está ao lado dela.
Crédito: arquivo pessoal, publicado na edição 192 da Revista Trip.
Em 1948, data que marquei bem porque entrei no ginásio e ganhei de papai uma caneta Parker 48 (aquelas canetas negras com riscos horizontais dourados), com o meu nome pomposamente nela gravado, uma novidade gratificante e indicativa de uma iniciação ao mundo dos adultos. É bom lembrar que naquele tempo as pessoas tinham um relógio, uma caneta e uma mulher. Eu já estava com a caneta, o resto era uma questão de tempo. Hoje, eu atino melhor com o significado deste presente num Brasil em que poucos sabiam ler e escrever, pouquíssimos entravam no ginásio e uma minoria podia ter uma caneta com o pegador e adereços de “ouro”. Essa caneta emblemática foi comigo para São João Nepomuceno, onde fui matriculado no ginásio local.

Largo da Matriz, em São João Nepomuceno.
Depois de vestir o uniforme cáqui do ginásio, do qual só me ficou um cheiro forte, e passado o entusiasmo com a exploração do vasto quintal da nova casa, no largo da Matriz, cuja igreja dava fundos para o campo de futebol do Mangueira Futebol Clube, começou uma penosa fase de convivência com os colegas no ambiente da escola.

Eu me lembro bem do primeiro dia, quando o diretor do ginásio solenemente me apresentou a uma turma silenciosa, enfatizando que eu era filho de uma pessoa ilustre e amiga, um pouco antes de uma primeira aula de Geografia, quando um professor magrinho e soturno lia vagarosamente para uma turma semi-adormecida, duas ou três páginas do livro adotado naquele semestre. A esta lembrança, liga-se a visão de um nostálgico pátio interno do colégio, onde colunas de cimento enquadravam um jardim com plantas que eu vejo sem viço.

Permeando essas duas memórias, vem uma perturbadora sensação de timidez traduzida em troças que culminou, como uma recepção de boas-vindas ao avesso por parte dos meus futuros colegas, num trote humilhante no meio do pátio do colégio e bem em frente ao muro de madeira cinzenta que nos separava da ala das meninas.

Trote em dois tempos, provavelmente motivado pelo interesse que despertei na moça mais bonita do colégio por ser um aluno novo, um “carioca” no meio de “mineiros”, e que consistia em ficar pendurado por meia hora numa barra para, em seguida, medir, com um palito de fósforo, o campo de futebol.

Cumpri a primeira tarefa pela metade, o vermelho do rosto traindo a humilhação e denunciando a primeira experiência real da covardia orgânica dos grupos bem estabelecidos contra os indivíduos isolados. A segunda parte era menos pior, embora implicasse ficar de joelhos ouvindo, degradado, as gargalhadas dos meninos e o riso alto das meninas que nos olhavam pelas frestas do muro. Aos gritos de um orquestrado “mede, mede”, lá ia eu com um palito de fósforo, rindo amarelo para os meus algozes e marcando a lateral de um campo de futebol que me pareceu infinito no seu barro vermelho, balizado pelas traves muito brancas e tristes como ossadas velhas dos gols.

Esse foi o meu primeiro encontro concreto com um campo de futebol. Futebol que, até então, eu só conhecia pelo nome e pelos sons dos rádios ouvidos a cada fim de semana nos bares que meu pai – que não bebia, fumava ou tinha amigos – fazia questão de não freqüentar.

Dias depois, um menino me perguntou se eu jogava futebol. Era ele quem organizava as partidas internas do ginásio e sabendo que eu era “do Rio”, logo “bom de bola”, queria que eu integrasse o time da nossa turma. Esse convite me fez calçar um par de chuteiras novinhas em folha e, com elas, entrar naquele campo de barro vermelho, cuja lateral eu conhecia “fósforo a fósforo” e que fora testemunha do meu rito de passagem.


Roberto DaMatta, aos 15 anos.Crédito: arquivo pessoal, publicado na
edição 192 da Revista Trip.
Não sei quem venceu esse jogo, mas foi nele que descobri – como deve ter ocorrido com muita gente – que aquele tal de “futebol” ia muito além de meter o pé na bola, chutando-a para frente. Depois de uns dez minutos de partida, entendi que havia alguma coisa intrigante naqueles colegas que corriam atrás de uma bola que corria mais que eles, porque alguns ficavam mais tempo com ela. Tocando, controlando e governando com maestria essa bola que escapulia dos meus pés e que corria muito mais do que todos nós.


Equipe do Mangueira, de 1952.
Crédito: http://neimedina.blogspot.com
Tempos depois, num domingo ensolarado, fui ao campo do Mangueira e, numa pequena arquibancada de madeira, assisti com meu pai e meus irmãos ao que seria o meu primeiro jogo formal de futebol.

Uma partida entre o Mangueira e o Botafogo, os dois times mais importantes de São João Nepomuceno que, naquela época, tinha sua sociabilidade ordenada dualisticamente, como era comum em muitas outras pequenas cidades do Brasil. Ali vivi a emoção de aplaudir a entrada em campo dos times com seus uniformes impecáveis, um campo também engalanado pelas marcas brancas de cal que delimitavam todos os seus compartimentos. Impressionei-me com o passo marcial dos jogadores: os botafoguenses com suas camisas alvinegras e os mangueirenses de vermelho, mas todos de chuteiras engraxadas, barbeados e penteados como se fossem para uma missa ou baile. Aprendi então, tendo como professor as múltiplas dimensões do próprio evento, que no campo só se podia ser Mangueira ou Botafogo; que não se ia ver apenas um jogo, mas torcer apaixonadamente pelo seu time; que uma vez tendo um time, o adversário não prestava, tornava-se um estranho, tal como eu era no ginásio; que o juiz (como os professores) era sempre um sujeito suspeito de estar contra o nosso time; e que vencer era a única possibilidade para os torcedores.

Equipe do Botafogo de São João Nepomuceno.
Crédito: http://neimedina.blogspot.com
No decorrer do jogo disputadíssimo, vi papai sendo solicitado a tomar partido, mas declinar polidamente, consciente como sempre de seu papel como funcionário público federal. Subitamente, pelo final do segundo tempo de um jogo que todos julgavam que ia terminar pateticamente empatado, o Mangueira fez o primeiro do que acabou sendo uma série de três fulminantes gols, selando o destino de um estonteado adversário. A torcida explodia em urros de alegria, comemorando o que era um verdadeiro milagre. O Mangueira havia aberto a sua “torneirinha de sorte”, conforme alguém ao nosso lado dizia entre embaraçantes nomes feios. Olhei para cima e vi o belo sorriso comprometido do meu pai, igualmente seduzido pelo desempenho do Mangueira e igualmente espantado com o milagre dos gols. Clube, logo fizeram questão de me ensinar, onde o famoso Heleno de Freitas havia aprendido a jogar futebol.

Heleno de Freitas, jogador do Botafogo de São João Nepomuceno.
Crédito: http://neimedina.blogspot.com
No trabalho de resgate da memória do futebol em
São João Nepomuceno, Nei Medina encontrou essa foto de Heleno (centro),
vestindo a camisa do Mangueira, categoria infantil.
No último gol do Mangueira, o estampido de um tiro de revólver emudeceu os gritos de alegria dos torcedores. Um “botafoguense doente”, de arma niquelada em punho, tentara atingir alguém. Uma onda de pesado mal-estar tomou conta do campo. Alguns diziam que o alvo era um dos atacantes do Mangueira, outros que seria o juiz e, ainda outros, a torcida que zombava dos adversários, proclamando com palavras de ordem a superioridade mangueirense. Jamais apurei os fatos. Mas ficou em mim a profunda impressão da capacidade de mobilização do futebol. Esse agenciamento portentoso que conferia a uma mera partida de futebol o dom de promover nos torcedores o desejo de matar, esfolar e liquidar com vizinhos e, até mesmo, parentes, amigos ou conhecidos de toda a vida que os noventa e poucos minutos de jogo haviam transformado em torcedores – logo em inimigos mortais e, paradoxalmente, parentes.

Equipe do Botafogo de São João Nepomuceno,
campeã de 1949. Crédito: http://neimedina.blogspot.com
Na saída do estádio, quando amigos e inimigos retomavam seus papéis sociais rotineiros, e os jogadores-heróis passavam ao nosso lado misturados, descamisados de seus emblemas de luta, desgrenhados e sem magia, deixando ver suas canelas maceradas e seus rostos cansados, um comerciante, antigo torcedor do Botafogo, cabeça inchada com a derrota, aproximou-se cautelosamente de papai.

– Que jogo, hein, dr. Renato? – perguntou num misto de curiosidade e adulação, como se testando o recém-chegado ilustre. O funcionário público que fiscalizava os estabelecimentos comerciais e ganhava o maior salário da cidade, conforme me disse, tempos depois, o coletor federal.

– Muita paixão, paixão excessiva – contemporizou papai com um misto de cautela e timidez, ele próprio medindo o palito de fósforo o campo social que o separava do novo amigo, compreendi de onde vinha minha timidez e, encorajado pelo relacionamento amistoso entre os dois homens, me aproximei, recebendo um olhar simpático dos dois adultos. Aquela simpatia que, na época, o futebol abria como um oásis nos encontros sempre distantes e formais entre crianças e “gente grande”.

– Por que será que o Botafogo perdeu? O jogo foi muito equilibrado o tempo todo. O empate seria um resultado mais justo. Como explicar aqueles três gols feitos de repente? – perguntei à queima-roupa, fazendo sem saber a indagação crítica de todo jogo de futebol e da própria vida.

O comerciante deu uma longa tragada num cigarro muito branco cuja ponta virou uma brasa viva e, olhando para mim e botando, como um dragão, fumaça pela boca, deu uma resposta que jamais esqueci:

É que a bola corre mais que os homens...”


Sobre Roberto DaMatta:
Roberto DaMatta foi professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde dirigiu o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Mestre e doutor pela Universidade de Harvard, também chefiou o Departamento de Antropologia e foi professor de Antropologia da Universidade de Notre Dame (EUA). Em 1995, começou a escrever crônicas para o Jornal da Tarde, de São Paulo, e a partir de 2001 passou a colaborar com o jornal O Estado de S. Paulo. É autor de Carnavais, malandros e heróis e A casa & a rua, universo do carnaval, O que faz o Brasil, Brasil?, Relativizando, Torre de Babel, Explorações: ensaios de antropologia interpretativa, Conta de mentiroso, e Águias, burros e borboletas, Tocquevilleanas - Notícias da América e Crônicas da vida e da morte, todos publicados pela Rocco.

Para saber mais, acessar o link: http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_DaMatta

2 comentários:

  1. Opa! Grande Prof. DaMatta!
    Aliás, a Academia brasileira não deixa bola sobre bola. Pensa o futebol através de muitas cabeças privilegiadas.

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  2. Maravilha!
    O Roberto foi e continua sendo uma das minhas referências, na minha eterna tentativa de entender que somos socialmente, historicamente.
    O tempo passa e o Cara continua bom, analiticamente, de Bola e Carnaval.
    E bonito! rsrsrs
    Maravilha!

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