terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Em nome do pai, do filho...e do São Paulo FC


Atenção torcedores do São Paulo Futebol Clube. Mais um livro, quer dizer, literalmente uma “Bíblia do São-paulino”. É este o título da obra escrita por Michael Serra e Rui Branquinho (Editora Panda Books). Um livraço, com 416 páginas que conta a história do clube, desde seu início até os dias de hoje.  E não é só isso. O livro vem dentro de uma caixa com reproduções (fac-símles) de produtos que farão os torcedores enlouquecerem. Veja a lista:

- Jornais e revistas com as manchetes das grandes conquistas e cartaz do Mundial Interclubes;
- Cartão-postal do Estádio do Morumbi e cartão assinado por Cícero Pompeu de Toledo;
- Aviso aos sócios sobre a inauguração do estádio, assinado por Laudo Natel;
- Carteirinha de Careca, RG de Leônidas da Silva e ficha cadastral de Adhemar Ferreira da Silva;
- Título de propriedade de cadeira cativa de 1960 e atestado libertatório de Sastre, do Independiente da Argentina;
- Partitura com o hino, de 1966;
- Ingresso autografado do Mundial Interclubes do Japão e jornal japonês após a conquista do Mundial de 2005;
- Diploma do Guiness Book para Rogério Ceni, pelo maior número de gols marcados por um goleiro;
- Carnê da “Campanha do Cimento” para a construção do estádio, de 1953;
- Ingressos do primeiro jogo do Morumbi, dos Mundiais de 92 e 93, da final da Libertadores de 92 e do milésimo jogo de Rogério Ceni;
- Cards comemorativos da Série Morumbi 50 anos;
- Livreto do São Paulo em homenagem a Eder Jofre.


 O título da obra não é por acaso. Além do volume, os capítulos escritos pelos autores Michael Serra e Rui Branquinho foram feitos no formato dos textos bíblicos. Como por exemplo, logo na abertura, para o surgimento do São Paulo Futebol Clube os autores batizaram o capítulo de Gênesis. Assim como o capítulo referente à saga da construção do Morumbi foi batizado de Exodus.

O livro já está nas livrarias, mas o lançamento oficial do produto só deve acontecer no próximo mês de março. E prepare o bolso torcedor do SPFC. Para ter a preciosidade histórica Literatura na Arquibancada recomenda uma oração da verdadeira Bíblia Sagrada para não reclamar com o vendedor da livraria. A “Bíblia do são-paulino” custa R$ 160,00. O produto é uma obra licenciada do SPFC.

Para adquirir a obra antes do lançamento, acessar:

O palavrão no futebol brasileiro


Na série sobre o centenário de Nelson Rodrigues, uma dica de leitura obrigatória para aqueles que querem conhecer melhor a prosa do Nelson cronista esportivo. Em 2007, a editora Agir lançou “O berro impresso das manchetes”, uma coletânea das crônicas escritas por Nelson Rodrigues para a revista Manchete entre os anos de 1955 e 1959.

Destacamos abaixo uma delas, que mostra bem o olhar de Nelson Rodrigues sobre os diversos personagens e cenários do futebol brasileiro. Quem poderia melhor do que Nelson descrever a mania do torcedor e do jogador brasileiro de xingar e falar palavrões a torto e a direita, em casa, na frente da televisão, dentro dos gramados ou nas arquibancadas dos estádios?


O berro impresso das manchetes

Sinopse (da editora):

O homem que imortalizou o Fla X Flu escreveu também sobre outras modalidades esportivas: remo, boxe, alpinismo... Nelson Rodrigues cuidou das modalidades mais diferentes e conseguiu, de igual maneira, retratar o quadro épico nas glórias e derrotas de cada uma. Mais do que a aridez dos resultados, o que interessava ao cronista eram a atmosfera, os incidentes e os episódios que envolviam os atletas dentro e fora do palco de competição. Um gol de placa da crônica esportiva nacional.

Fonte:


Bocage no futebol

Quando eu tinha meus cinco, meus seis anos, morava, ao lado de minha casa, um garoto que era tido e havido como o anticristo da rua. Sua idade regulava com a minha. E justiça se lhe faça: – não havia palavrão que ele não praticasse. Eu, na minha candura pânica, vivia cercado de conselhos, por todos os lados: – “Não brinca com Fulano, que ele diz nome feio!”.

E o Fulano assumia, aos meus olhos, as proporções feéricas de um Drácula, de um Nero de fita de cinema. Mas o tempo passou. E acabei descobrindo que, afinal de contas, o anjo de boca suja estava com a razão. Sim, amigos: – cada nome feio que a vida extrai de nós é um estímulo vital irresistível. Por exemplo: – os nautas camonianos. Sem uma sólida, potente e jucunda pornografia, um Vasco da Gama, um Colombo, um Pedro Álvares Cabral não teriam sido almirantes nem de barca da Cantareira. O que os virilizava era o bom, o cálido, o inefável palavrão.

Mas, se nas relações humanas em geral, o nome feio produz esse impacto criador e libertário, que dizer do futebol? Eis a verdade: – retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível. Como jogar ou torcer se não podemos xingar alguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: – está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano. O craque brasileiro não sabe ganhar partidas sem o incentivo constante dos rijos e imortais palavrões da língua. Nós, de longe, vemos os 22 homens correndo em campo, matando-se, agonizando, rilhando os dentes. Parecem dopados e realmente o estão: – o chamado nome feio é o seu excitante eficaz, o seu afrodisíaco insuperável.

Jaguaré
Exagero? Nem tanto, nem tanto. A propósito, vou citar aqui o caso de Jaguaré. No seu tempo, os clubes não tinham Departamento Médico e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: – não tinha dentes, só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: – a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol. O sujeito que tinha pra a média, para o pão com manteiga, podia se considerar um Rockefeller, de tanga, mas Rockefeller.

Jaguaré e Fausto.
Até que, um dia, apareceu por aqui o emissário de um clube estrangeiro. E o homem esfregou na cara de Jaguaré propostas dignas de um rajá. A princípio, o nosso patrício opôs uma recusa inexpugnável. Não queria aceitar nem por um decreto. Acabou cedendo. Andou pela Espanha e até por Paris. Mas era outro, como homem e como craque. Como jogar sem a pornografia luso-brasileira? Sem as expressões obscenas que dinamizam, que transfiguram, que iluminavam os jogadores? Traduzi-las seria uma traição. E Jaguaré vivia sob a persistente, a dilacerada nostalgia dos nomes feios intransportáveis.


Finalmente, não pode mais: – voltou correndo para o Brasil. Aqui, agonizou e morreu na mais horrenda miséria. Mas feliz, porque pode soltar, no idioma próprio, seus últimos palavrões terrenos.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Como Leão voltou a ser técnico do SPFC


Uma dica de leitura do Literatura na Arquibancada. Chegou hoje às bancas a edição de Fevereiro da revista GQ onde o destaque é uma reportagem sobre o empresário Abilio Diniz, um dos empresários mais bem-sucedidos do país. Bem, mas o que isso tem a ver com o futebol? O jornalista Alexandre Teixeira conseguiu, de maneira brilhante, o que muito jornalista esportivo, que passa o dia inteiro no Centro de Treinamento do São Paulo Futebol Clube, não conseguiu explicar até hoje: como o técnico Leão acabou retornando ao SPFC. Um “furo” de reportagem que vai deixar muito jornalista esportivo roendo as unhas de raiva.

Alexandre Teixeira revela a influência que o empresário dono do Grupo Pão de Açúcar tem no futebol tricolor e porque acabou sendo decisivo na recontratação do polêmico técnico Leão:

“O empresário e o treinador foram parceiros de peladas no campo de futebol que Abilio tinha nos fundos do terreno onde morava, no começo da década de 70. Ele jogava no gol. Leão, na época goleiro do Palmeiras e titular da seleção brasileira, jogava na linha. Abilio apresentava-se para os embates vestido todo de preto, como o lendário goleiro russo Lev Yashin. ‘Era o Aranha Negra dos pobres’, brinca Leão”.

Abilio Diniz, goleiro do Colégio Mackenzie.
Alexandre Teixeira revela ainda que o empresário Abilio Diniz passou a ter influência nos bastidores do SPFC, a partir de 2004, quando o presidente do clube era Marcelo Portugal Gouveia, amigos desde a infância.

Mas é outra a pessoa com quem Abilio Diniz mantém relações pra lá de estreitas quando o assunto é futebol e São Paulo Futebol Clube:

“Reza a lenda que só há duas pessoas cujas ligações Abilio Diniz nunca deixa de atender: Milton Cruz e o ex-presidente Lula. Não é bem verdade – Dilma, por exemplo, já conquistou o privilégio. ‘Não sei o número da Ana Maria nem do João Paulo [seus filhos mais velhos], mas sei o do Milton”.

Leão e Milton Curz.
Alexandre Teixeira conseguiu descobrir, como, afinal, aconteceu a contratação do polêmico técnico Leão, questionada por muitos especialistas e, principalmente, por diversos torcedores do clube:

“Como Juvenal Juvêncio não queria encontrar Leão, João Paulo de Jesus Lopes, vice-presidente de futebol são-paulino, e Adalberto Baptista, diretor de futebol, foram à sede do Pão de Açúcar para uma reunião com Abilio e fizeram uma pequena lista de recomendações, sinalizando o que o empresário deveria cobrar do futuro técnico do São Paulo. Quando Leão chegou, foi levado a outra sala de reuniões. Devidamente orientado, Abilio, de cara, cortou os cumprimentos do amigo e deu o recado dos cartolas: ‘Você vai aceitar todo mundo que estiver lá. E, se brigar com o Milton, quem sai é você. Estamos entendidos?’. Estavam. A contratação do treinador foi anunciada em 24 de outubro e Abilio tuitou: ‘Bem-vindo, prof. Leão”.

A reportagem escrita por Alexandre Teixeira tem outros detalhes super interessantes sobre a ligação do empresário Abilio Diniz com o esporte.

Não deixe de ler a reportagem na íntegra, principalmente, para entender a frase do empresário que dá título e capa à revista GQ: “Perto do que sei de futebol, não sei nada de negócios”.

Para ler online alguns trechos a mais da reportagem, acessar:

Sobre Alexandre Teixeira:
Especializado em jornalismo econômico, passou pela TV Gazeta, Jornal da Tarde e IstoÉ Dinheiro. Colaborador da Época Negócios, onde foi escolhido como o Jornalista do Ano no Prêmio Editora Globo de Jornalismo 2009, por seu trabalho na revista. É colaborador da revista GQ.

UFC e MMA são esportes?


O ano do dragão, video game e MMA

Por Katia Rubio

É muito bom sair um pouco da rotina para a gente poder enxergar o que está tão perto de nossos olhos, mas acostumados que estamos com o cotidiano já não são capazes de enxergar as coisas mais óbvias. Dizem que foi assim com os grandes inventores e descobridores de todos os tempos. Isso ocorre com frequência quando trabalhamos sobre um texto. Escrevemos, lemos, apagamos, refazemos tantas vezes que já não enxergamos mais os erros, as palavras e ideias repetidas e as conclusões que, as vezes, estão logo ali, diante de nosso nariz, com uma tiara de neon e uma melancia no pescoço. E então, chega alguém de fora, lê, elogia e aponta a conclusão – não escrita – que esteve sempre ali.

Por isso tenho por hábito deixar meus textos “fermentarem”, como a gente faz quando amassa pão. Sempre achei mágico aquele processo todo: água quente para fazer o fermento ”acordar”, depois um ovo, um pouco de óleo ou margarina e aí a farinha… uma, duas, três xícaras e amassa, amassa e amassa mais um pouco. Volta pra tigela, já como uma bola com aquele cheiro próprio do fermento que está agindo, coberto com um pano sequinho em um lugar quente e sem vento. E daí vem o milagre: depois de 50 minutos lá está aquele produto vivo e dinâmico que para ser assado precisa ser uma vez mais amassado e formatado para ir ao forno. Realmente, fazer pão e escrever são coisas muito parecidas. E assim como posso escolher diferentes farinhas e líquidos para fazer pães com diferentes sabores, posso escolher diferentes palavras e formas de escrever para expressar minhas ideias.

Hoje, enquanto cozinhava, pensava no fenômeno MMA e UFC.
Não pretendo aqui fazer reflexões moralistas acerca das lutas, principalmente após orientar uma tese de doutorado sobre a genealogia do judô brasileiro, de Alexandre Velly Nunes, leitura obrigatória para estudiosos e amantes das artes marciais. Uma preciosidade, posso afirmar. O que tento entender é o que acontece com uma sociedade, em pleno século XXI com tantas inovações e avanços no campo das ciências biológicas e sociais, reproduzir comportamentos anteriores ao nascimento de Cristo. Farei um esforço para poder ser entendida.

Observo que as lutas exercem grande fascínio, principalmente entre os jovens. Não é por acaso que as encontramos em inúmeros seriados infantis de National Kid a Power Rangers, o que atesta a atemporalidade desse entretenimento. Penso também que o imaginário envolvido nas lutas acaba por evocar um universo mítico que permite emergir toda ordem de criaturas monstruosas, como bem observamos nas diferentes séries que ano após ano se repetem em diferentes emissoras. Vale ressaltar que em todos episódios das diferentes séries o que prevalece nos roteiros é uma estrutura maniqueísta onde, obviamente, os mocinhos ganham dos terríveis vilões, sejam eles seres de outro mundo, uma figura mitológica ou um ser humano com poderes supremos, quase sempre aniquilando-os, destruindo-os, restituindo em seguida a humanidade do aniquilador.

Confesso que esse tipo de produção nunca exerceu sobre mim qualquer fascínio, mesmo quando eu era garota e via o “Nachonaro Kido” na sessão Zás Trás. Mas, acho que eu não sou das melhores referências para isso porque a TV nunca me encantou. Até que meu filho Toshihiro surgiu. Gerado em um mundo de tecnologia acessível e virtual, desde cedo, mas muito cedo mesmo, ele se envolveu com o mundo dos games. Lia, jogava, colecionava publicações e ainda no ensino fundamental era uma espécie de consultor para assuntos “jogos” em sua escola. Tentei por muito tempo incentiva-lo a buscar jogos próximos do RPG, mas é claro que os mais desejados eram aqueles que envolviam lutas. Lembro como ficava irritada com os jogos de lutas (e depois descobri que não eram apenas os de lutas) e a situação limite do “Ih. Morri”. Sentia aquilo como a banalização da morte, da finitude e um desrespeito pela situação do embate contra um oponente, fosse ele mais forte ou fraco. Percebo hoje que a lógica que me movia e me mobilizava era aquela praticada no “do”, entendida como caminho.

Agora sei que Jigoro Kano tentou evitar a inclusão do judô no programa olímpico por conta de um receio concreto que seu “caminho da suavidade” se tornasse apenas um combate. Por entender que o judô era um caminho para muitas coisas, principalmente para a educação, Kano evitou o quanto pode fazer da luta apenas uma briga. Isso porque as referências culturais que trazia do Japão davam a ele uma dimensão própria do que eram as lutas para seu país em diferentes momentos históricos em que elas se desenvolveram.

Como aponta Nunes (1) a formação dos monges chineses e coreanos e a classe dos Samurais são alguns exemplos bem conhecidos da formação de lutadores nessas regiões. 

Nesses locais, a formação para o combate quase sempre esteve associada a rituais religiosos, ao estabelecimento de padrões de comportamento e a uma ética particular. Para o treinamento utilizavam-se formas mais brandas e menos violentas de combater, daí a transição para o esporte.

Ontem a tarde fui assistir às comemorações da entrada do ano novo chinês, o Ano do Dragão, no Templo Zu Lai, próximo a Cotia, em São Paulo. E todas essas questões invadiram meu sótão acordando meus macaquinhos que andavam por lá adormecidos. Entre a dança do dragão, dos leões, apresentações de tai chi chuan e kung fu pensei no quanto tudo aquilo é significativo dentro do contexto em que foi desenvolvido. Arte, meditação, educação, religião… tudo ali se mistura de forma homogênea onde nem o mais audaz cartesiano é capaz de separar, dividir, compartimentalizar.

E então me lembrei uma vez mais do mestre Carl Gustav Jung que tenta explicar no livro O Segredo da Flor de Ouro a impossibilidade de se praticar os orientalismos de forma plena fora do Oriente. E isso se deve a uma razão simples: por melhor que se possa reproduzir o que se passa no Oriente nenhum lugar será como lá. O que sempre veremos serão simulações, e as vezes simulacros como diria Baudrillard, do Oriente, mesclados à cultura local e suas idiossincrasias. 
Então, embora lá estivessem monges budistas, diplomatas e membros da comunidade chinesa, aqueles rituais todos que estavam sendo apresentados já eram uma mescla com a cultura brasileira.

E com esses mesmos argumentos e pensamentos voltei a lembrar no UFC e MMA. Isso porque não vejo mal nenhum em entender esses espetáculos como quaisquer outros onde alguns seres iluminados conseguiram vislumbrar uma possibilidade de fazer um grande negócio, movimentando milhões de dólares, explorando as habilidades de algumas pessoas fora da média. Nada que faça surpreender em um modo de produção capitalista! Por isso lutadores migram de suas modalidades amadoras, olímpicas ou ritualísticas porque desejam buscar fama e fortuna com um tipo de atividade que pode lhes proporcionar uma vida melhor. Não é assim em outras profissões?

Então paremos de escamotear, de tergiversar ou enganar a quem quer que seja.

Que não se confundam essas práticas de entretenimento com esporte. Muito embora tenham regras definidas, sejam institucionalizadas e organizadas não devem ser entendidas e confundidas com esporte.

Entendo que tanto o UFC como o MMA são vídeo games reais. Os combatentes são avatares criados a partir de uma referência da necessidade de luta, que para ganhar dramaticidade são nomeados com distinções míticas ou simbólicas, valendo prêmios milionários. 

E se no passado o imperador de sua tribuna usava os polegares para determinar a morte do derrotado, agora temos a televisão, cuja audiência qualificada aponta o céu ou os infernos para o menos habilidosos ou desfortunados no combate.

Há espaço para muitas manifestações culturais e formas de entretenimento na sociedade contemporânea e não me julgo arauta da moralidade e dos bons costumes para promover uma cruzada contra o MMA e o UFC. Entendo que essas competições não são menos nocivas que o BBB ou algumas novelas que impõe padrões de comportamento. O que talvez devesse ter pedido ao dragão, nesse ano que se inicia, é que definitivamente essas manifestações de movimento não sejam confundidas com o esporte.

(1)    NUNES, A. V. (2011) A influência da imigração japonesa no desenvolvimento do judô brasileiro: uma genealogia dos atletas brasileiros medalhistas em jogos olímpicos e campeonatos mundiais. Tese de Doutorado. Escola de Educação Física e Esporte. Universidade de São Paulo.

Sobre Katia Rubio:
Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.

História em Quadrinhos e o Futebol (final)


Hoje, dia 30, comemora-se o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos. A data foi instituída há 22 anos pela Associação de Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo, com o objetivo de lembrar que em 1869, nesse mesmo dia, foi publicada a primeira história em quadrinhos brasileira.

Na série que o Literatura na Arquibancada vem mostrando, hoje, um artigo escrito pelo estudante de História da PUC de São Paulo, Marcio Cavalcante.

Histórias em Quadrinhos e o Futebol
Por Marcio Cavalcante

Em uma homenagem simples ao dia do HQ – gibi para os íntimos – resolvi a pedido do Andre Ribeiro, trazer a memória algumas publicações nas quais o futebol é retratado ou é pano de fundo para diversas historias, brincadeiras, suspense, humor, ações sociais e críticas.

No artigo escrito pelo Marcus Ramone postado neste site, o futebol dentro da HQ foi amplamente retratado, e acabei lembrando de vários personagens, várias histórias, vários gibis, vários amigos e também de personagens que são mais recentes. Nesta minha breve primeira participação, faço as minhas considerações sobre o que lembro de forma mais específica e pessoal destas duas artes: Futebol e Histórias em Quadrinhos.


Dico, o 007 hermano

Bem, um dos gibis dos quais me refiro foi o (no original) “Dick, El artillero”, uma série de HQ argentina criada para o público latino norte-americano no início da década de 70. Nos EUA também era conhecida pelo seu nome americano, Gunner, tinha inicialmente roteiros de Alfredo Julio Grassi e desenhos do talentoso José Luis Salinas. 

O personagem ganhou fama na Europa nas páginas da revista "Mundo de Aventuras", publicação portuguesa de quadrinhos que remodelou a série, re-diagramando as tiras em páginas inteiras, para publicar aventuras completas.

Recomeçada com o nome do personagem principal da tira, "Dick, o Avançado-centro", Dick chegou ao público brasileiro em 1975, com o nome de "Dico" - provavelmente para lembrar o jogador "Zico" que começava a encantar o Brasil - em revista própria da RGE. O Artilheiro, como era chamado por seus companheiros Jeff, Poli e toda a equipe do Estrela Futebol Clube, era apresentado em HQs completas, acompanhadas de reportagens sobre futebol. Então o Dico entre um gol e outro, no uniforme preto e azul vivia envolvido com casos policiais e entre um jogo e outro envolvido em suspenses.

Coincidentemente (ou não), Dico também é o apelido de infância de um certo Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido como Pelé. 

Assumidamente utilizando o futebol como pano de fundo das aventuras policiais e de suspense, esse gibi transitava em um assunto não tão comum, pois aqui o futebol, a meu ver, deveria ser destaque, os lances e tal, no entanto as edições originais hoje valem um bom $$ nos sebos e sites especializados.


Pelezinho...sem palavras...

Agora sim, um personagem tipicamente brasileiro, com nome brasileiro e baseado num dos maiores brasileiros vivos. 
Segundo levantamento de conversas (mercadológicas) entre Pelé e Maurício de Sousa nasceu o personagem Pelezinho, baseado no menino Edson Arantes do Nascimento. Para fazer um ambiente bem natural, todos os outros personagens da turma do Pelezinho também nasceram de sugestões ou reminiscências do craque. 
Pelezinho foi criado em 1976 (no auge da sua participação no time do Cosmos de NY) para publicação em tiras diárias nos jornais.

Como já escreveu aqui Marcus Ramone, o sucesso foi instantâneo, afinal o toque de gênio que Pelé tinha na bola, também se manifestava em seus empreendimentos financeiros. Mas isso não influenciava a criação das histórias que sempre tinham o futebol como agregador da turma do Pelezinho, brincadeiras e testes para a criançada. A única situação que não ocorreu em suas histórias foi o encontro entre o craque da Turma da Mônica, o corintiano roxo Cascão versus Pelezinho, pois as duas turmas viviam suas próprias histórias em separado.

Uma observação, o personagem Cascão (corintiano roxo) já era o grande jogador da Turma da Mônica, então a familiaridade e interações das histórias são bem feitas e lúdicas, por isso, amigo Maurício de Souza, você que já colocou o Pelezinho frente ao Maradoninha, por que não no mesmo gibi do Cascão? 

Ah !!! Lembram do corte de cabelo do Ronaldo Fenômeno na Copa de 2002 ??? Homenagem ao Cascão !!!!






Ronaldinho...o Gaúcho ?

Em 2006, quando eu já não lia tanto quadrinhos como outrora, novamente outro gênio do futebol foi retratado por Mauricio de Souza. 

Desta vez, Ronaldinho Gaúcho, e as histórias da sua turma com personagens familiares ao jogador (irmão Assis, mãe e irmã) se passam no Bairro do Limoeiro, mesmo bairro onde residem os personagens da Turma da Mônica.

Em quase todas as histórias, as duas turmas se encontram em divertidas situações, segundo meus priminhos que as lêem. 

Para marcar o personagem, ele é dentucinho, tem um cabelo longo e vive com o uniforme de futebol do Brasil e, ao menos nos quadrinhos, torce pelo Grêmio.

O Estúdio do Maurício de Souza ainda transformou em personagem o outro Ronaldo, o Fenômeno, mas sem aventuras específicas, somente para homenageá-lo na despedida dos campos de futebol.


Zé Carioca pra camisa 10 !!!

A Disney tem um personagem que tem o futebol dentro de suas histórias, já também muito bem lembrado aqui, na matéria do Marcus Romano. Ele fez parte das minhas leituras de infância. Falo do Zé Carioca e, especificamente, quando jogava no Vila Xurupita Futebol Clube, que tem as cores rosa e branco (cores que teriam sido escolhidas para não lembrarem nenhum do Brasil). Ainda existem rumores diversos sobre o time, como o que reza que os "causos" ocorridos com a equipe não seriam inventados, mas sim baseados nos acontecimentos reais do futebol amador jogado pelos roteiristas, desenhistas e todos aqueles envolvidos com a produção das revistas. Então, se assim for o desenhista do Zé é bem ruim de bola...rsrsrsrs
Mas ele joga em todas as posições e vive dando seus “perdidos” no time adversário e no seu próprio....rsrsrsrs

Como a Disney não entende de futebol, mas aproveitando essa identificação, quadrinhos especiais foram lançados como o Manual do Zé Carioca, dentre os Manuais Disney, lançados na década de 1970 pela Editora Abril, mais especificamente, em 1974 (graças à Copa da Alemanha), e depois em 1978, edição revisada e atualizada (Copa da Argentina), e 1982, na Espanha, e uma reedição da Copa do México em 1986.




Dr. Sócrates e seus ensinamentos alem do futebol. 
(Texto de Marcus Ramone, no link:
http://www.universohq.com/quadrinhos/2011/n06122011_02.cfm)

Uma das primeiras citações a Sócrates nas HQs aconteceu no final dos anos 1970, em uma história do personagem Visconde de Sabugosa, no gibi Sítio do Picapau Amarelo, da RGE. 

Na aventura, o intelectual e literato vegetal faz uma brincadeira com o nome do filósofo grego Sócrates e do futebolista que pegou seu nome emprestado - e que, curiosamente, também acabou se tornando um "pensador", característica rara no universo da bola.

Mas somente na década de 1980 o jogador Sócrates ganhou suas primeiras versões para os quadrinhos, quando já se tornara figura marcante nos noticiários esportivos e políticos e também passara a ser chamado de Doutor, graças à sua formação profissional em medicina.
Ele contracenou diversas vezes com a criançada do Bairro do Limoeiro (uma delas foi republicada recentemente na série Coleção Histórica Turma da Mônica) em aparições curtas e ocasionais, protagonizou peças publicitárias em forma de HQ e, até a Copa do Mundo de 1986, virou figura fácil nas aventuras do Zé Carioca - e com ele chegou a trocar passes.

Nos últimos meses, o ex-atleta preparava-se para lançar um gibi estrelado por ele mesmo, como parte de um projeto de cunho social. O HQ do Doutorzinho "pretende transmitir mensagens educacionais para os jovens que terão os gibis em mãos", com exemplos de "socialização, tolerância e respeito entre os seres humanos", de acordo com as palavras do Dr. Sócrates, que deveria escrever os roteiros das HQs, em parceria com o jornalista Xico Sá. Se nos quadrinhos o corintiano Cascão está triste, no mundo real o pesar se abateu não apenas sobre os torcedores do clube pelo qual Sócrates será sempre lembrado, mas também entre todos os amantes do futebol. Mas com a prematura morte do craque em 2011, o projeto passa por um período de estudos.


Maciota, futebol e suas realidades.

Inicialmente foi na primeira metade dos anos 70 que o quadrinhista Paulo Paiva, criou junto com Franco de Rosa o jogador de futebol Maloca, trabalho nunca publicado. Mais tarde, Maloca virou “Maciota”, feito só por Paiva Lima. Paiva iniciou sua carreira, nos anos 1970, nos estúdios de nem mais nem menos Maurício de Sousa onde roteirizava tiras e também escrevia, nos anos 1980, roteiros para o Zé Carioca. Podemos então perceber por que o futebol esta tão presente neste personagem “craque” do Xurupita.

Foi um dos personagens mais marcantes que eu lia, pois era completamente diferente dos outros citados. Era um típico jogador folgado, malandro, “perna-de-pau” não assumido e com um humor crítico sobre o próprio meio do futebol. Paulo Paiva fazia muito bem o contra ponto do humor e crítica pelas histórias do Maciota nas páginas da revista Placar (e também em outros veículos como a Folha da Tarde e as revistas Flash!Calvin & Cia), no início na década de 1980, juntamente com os escudinhos de futebol de botão de grande sucesso entre a garotada.

Em uma das suas tirinhas ele insinuava que iria dar o tiro de meta com um revólver!!! Brincava com as situações reais do futebol, dizia que seu time jogava num 4-3-4 (quatro pingas no início, três no intervalo e mais quatro no segundo tempo) e que era um jogador inegociável, afinal nenhum time do mundo o compraria.
Em 1987, foi lançada uma revista que tinha somente as histórias do grande Maciota , que não tive oportunidade de possuir, mas somente folhear na Gibiteca do Centro Cultural Vergueiro.

Sobre Marcio Cavalcante:
Estudante de História da PUC-SP, gremista e lutador pela memória do futebol juntamente com os demais companheiros de Memofut (Grupo Memória e Literatura do Futebol). 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Paixão Corinthiana em prosa e verso


Atenção “loucos” de plantão. Amanhã tem mais um livro sobre o Corinthians para a história da literatura esportiva. Paixão Corinthiana (Publisher Brasil, 2012),de Vitor Guedes tem várias crônicas do autor onde o personagem central é o torcedor. São histórias que relembram momentos inesquecíveis como a invasão da torcida no Maracanã, nas semifinais do Brasileiro de 1976. Na prosa de Vitor também surgem cenas do cotidiano, como a de uma paquera no metrô paulistano ou ainda em uma simples “viagem” de elevador.

Sinopse (da editora):
Em cem crônicas cotidianas, o jornalista Vitor Guedes conta a história de um dos clubes de futebol mais queridos do planeta, mostrando que o amor pelo Corinthians é um amor à moda antiga: não há a possibilidade de esfriamento ou divórcio. Com textos leves e bem-humorados, os personagens e as histórias do livro revelam a alma corinthiana como só um dos 30 milhões de seus torcedores poderia fazer. A orelha do livro é escrita pelo ex-jogador Basílio e o prefácio é de Marília Ruiz.
Fonte: 
(http://pbrasil.lojavirtualfc.com.br/sistema/ListaProdutos.asp?IDLoja=7499&IDProduto=3277420)

Uma crônica do Paixão Corinthiana:

É o que é e o que não é, mano

Corinthians é do Antônio, do Toninho, do Tonhão. Que não têm um vintém. É do Ermírio de Moraes também. É do Silvio. Santos, é de todos eles. E dos pais deles. É do Paulo Evaristo Arns. Graças a Deus, é de Ogum também. Salve, Jorge! Fé, mé, metaleiro axé. Tatu voa, gavião anda a pé. O roqueiro, cabeludo bamba, cai no samba, castiga o tamborim e amaldiçoa o jurado que tirou preciosos décimos da comissão de frente da Gaviões da Fiel. Paulistana sai de baiana.

O analfabeto lê tudo que é publicado sobre o time do povo. O empresário – enquanto bate um squash no intervalo entre o brunch e o happy hour – exercita as cordas vocais: “Ela, ela, ela, é festa na favela”. Isso que é Paraisópolis! O racional prefere algo menos ensandecido: “Aqui tem um bando de loucos”. O playboy, etiqueta sob medida que vale um aluguel, rodinha esportiva invocada, caranga rebaixada, maria-gasolina oxigenada no carona, abaixa o vidro e explode o som na caixa: “Corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus”.

Por falar novamente Dele, o agnóstico veste a camisa “Deus é fiel”; o cristão, na hora do aperto, não se faz de rogado: “Saravá, São Jorge, que ele vai nos ajudar”; gourmet manda ver no ebó. Não me toques. A educadíssima lady, lábios imaculados, vai à luta e chama o juiz de filho da… O desempregado falta no trabalho para prestigiar a equipe in loco. O insensível sofre, o sofredor torce, o fato distorce. O gol não sai. O médico é paciente. O bêbado joga tudo para o santo. É dose! Mas até o cético acredita. Vem a vitória. Bendita! O dia anoitece, a noite amanhece, o velho rejuvenesce. A patricinha se embriaga com o cheiro do povo. O mudo canta até ficar rouco. Até o próximo jogo.

Perder faz parte? O pacifista, aos berros, avisa: “Se o Corinthians não ganhar, o pau vai quebrar”. O eremita comanda a festa no meio da massa. O abstêmio cobiça a taça. À beira do enfarte, o fiel acredita até o final, mesmo sem saber o que fazer com o coração cansado de sofrer: “Não para, não para, não para”. O ecologista não quer ver verde nem pintado de ouro. O vegetariano anuncia o cardápio: “Vamos comer porco”. O pai mama, o filho briga. O bebum aparta o ziriguidum. “Mais um, mais um”. Mas o jogo está 0 a 0. Não conta. Deve ser a ponta. O relaxado capricha, virtuosismo real. Virtual, impalpável amor incondicional.

Presidente na arquibancada, torcedor no gabinete. Ah, que saudade do Alfinete! Viva a democracia! Sócrates é filosofia. Ideologia de boteco. Carlitos, gênio da arte falada, mesmo que de forma incompreensível. Como a perda de um ente querido. O defunto volta para ficar, do lado do Corinthians é o seu lugar. Ainda vivo, avisou: “Na vitória ou na derrota, até a hora de nossa morte, amém”. Foi além: “Eu nunca vou te abandonar”. O mudo enxerga, o cego escuta, o surdo vê. Todos se abraçam.

Corinthians é tato. Questão de pele. Branca ou preta, tanto faz, alvinegra nação. Miscigenação, rima fácil de Coringão. É o que é, meu irmão mulato: o clube mais brasileiro! Conquistou o mundo sem ir ao estrangeiro.

Serviço:
Lançamento de Paixão Corinthiana, de Vitor Guedes
Artilheiros Bar
Rua Mourato Coelho, 1194
Segunda-feira, 30 de janeiro, 19h

Sobre o autor:
Vitor Guedes assina diariamente a coluna Caneladas do Vitão, no jornal Agora São Paulo, e também é responsável pelo BandNews Pra Toda Obra, coluna que acompanha a construção do estádio do Corinthians.