segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Tocando o barco com o Barcelona



Após a recente conquista do Mundial Interclubes contra o Santos, a equipe do Barcelona nunca antes foi tão falada no Brasil. Badalada por todos, gera polêmica entre os “especialistas” de plantão que começaram a duvidar da própria excelência do futebol praticado pelos brasileiros. Afinal, somos ou não os melhores do mundo, perguntam todos eles.

Para tentar entender um pouco mais sobre esse clube (muito mais do que uma simples equipe de futebol), um colaborador freqüente do Literatura na Arquibancada, o jornalista Hélio Alcântara nos sugere a leitura de um livro que teve enorme repercussão quando foi lançado em 2005: “Como o futebol explica o mundo” (Editora Jorge Zahar). Em um dos capítulos escritos pelo jornalista Franklin Foer, “O discreto charme do nacionalismo burguês”, dedicado ao Barcelona, podemos compreender melhor as razões de o clube catalão encantar não apenas dentro dos gramados e ainda compreender a enorme rivalidade existente entre o Barça e o Real Madrid.

Antes do referido texto veja a sinopse dessa obra importantíssima para a literatura esportiva mundial.

SINOPSE
O futebol é mais do que um esporte, ou mesmo um modo de vida; abrange questões complexas que ultrapassam a arte do jogo. Envolve interesses reais – capazes de arruinar regimes políticos e deflagrar movimentos de libertação. Os clubes de futebol espelham classes sociais e ideologias políticas, e freqüentemente inspiram uma devoção mais intensa que as religiões.

Para realizar esse amplo e perspicaz trabalho de reportagem, Franklin Foer viajou o mundo – da Itália ao Irã, do Brasil à Bósnia, analisando o intercâmbio entre o futebol e a nova economia global. E acabou por derrubar mitos, ao verificar que em vez de destruir as culturas locais, como preconizava a esquerda, a globalização deu nova vida ao tribalismo, e que, longe de promover o triunfo do capitalismo apregoado pela direita, fortaleceu a corrupção.
Investigando os bastidores desse esporte, Foer apresenta uma vasta e por vezes quase inverossímil galeria de personagens: um hooligan inglês, filho de uma judia com um nazista, que devotou a vida à violência; mulheres que freqüentam os estádios iranianos; os cartolas do futebol brasileiro; uma torcida organizada sérvia que se transformou em brutal unidade paramilitar.

As histórias colecionadas – extravagantes, violentas, engraçadas, trágicas – ilustram desde o choque de civilizações à economia internacional e revelam como o futebol e seus fiéis seguidores podem expor as mazelas de uma sociedade, sejam elas a pobreza, o anti-semitismo ou o fanatismo religioso. Original, inteligente, escrito com paixão e humor, o livro nos ajuda a compreender nossa turbulenta época.


Miguel Primo de Rivera y Orbaneja, militar
e ditador espanhol, fundador da organização fascista Union Patriótica,
inspiradora da União Nacional portuguesa. Primo de Rivera, na década
de 1920, promoveu um golpe e tomou o poder na Espanha, governando
o país entre 1923 e 1930. Além de proibir a língua e a bandeira catalã,
o general fechou o estádio do FC Barcelona depois de ouvir seus
torcedores cantarem o hino da Catalunha.

Trecho do capítulo “O discreto charme do nacionalismo burguês”

“(...) Havia (...) uma importante diferença entre as atitudes de Franco e as de seu antecessor. Primo de Rivera reagira ao Barça de modo furioso porque era um caudilho clássico, o ditador medíocre que esma­gava qualquer dissidente capaz de ameaçar seu frágil poder. Já para Franco a luta contra o Barça assumiu a forma de um comba­te pessoal de natureza épica. No nível político mais óbvio, ele ti­nha boas razões para punir os devotados torcedores do clube. A Catalunha havia sustentado por mais tempo a oposição ao golpe. Os habitantes de Barcelona, após anos de contenda industrial pré-guerra civil, tinham se tornado os Henry Fords da construção de barricadas. Embora partes da cidade recebessem Franco de braços abertos, muitos de seus moradores desenvolveram a guer­ra urbana com um apetite que nem Che Guevara conseguiria igualar. Franco cobrou um preço por essa resistência. Quando a cidade caiu, ele mandou matar um sem-número de seus oponen­tes e os enterrou numa cova coletiva no morro Montjuic, onde futuramente se construiria o estádio olímpico.

Após o golpe que colocou o General Francisco Franco
no poder (foto), a língua e as tradições da nação catalã
foram completamente abolidas. Torcer pelo Barcelona se tornou
sinônimo de lutar pela liberdade e pela causa catalã.
Mas havia outra razão, igualmente importante, para o ódio que Franco devotava ao Barça. O Generalíssimo acompanhava obsessivamente o esporte e, de modo mais específico, o rival do Barça, o Real Madrid. Era capaz de citar de cabeça as escalações do Real de décadas anteriores e mandava anunciar que descansa­va em seu palácio acompanhando o jogo da semana pela te­levisão. (Não por coincidência, a TV estatal reservava ao Real Madrid, em suas transmissões semanais, um espaço muito maior que o de qualquer outro time.) Quando assistia aos jogos, ele até arriscava um palpite sobre os resultados. Franco gostava de jogar numa loteria estatal que lhe permitia fazer apostas no futebol.

"Mais que um clube, em catalão".
Franco levou sua vingança pessoal contra o Barça às últimas conseqüências. Manuel Vasquez Montalbán escreveu: "As tropas de ocupação de Franco entraram na cidade. A quarta organização a ser expurgada, depois de comunistas, anarquistas e separatistas, era o Barcelona Football Club." No início dos três anos da revolta de Franco, a milícia fascista prendeu e executou o presidente do Barça, Josep Sunyol, de orientação esquerdista, quando ele passava de carro pelas colinas de Guadarrama em visita aos soldados catalães que defendiam Madri, cercada por tropas de direita.


Josep Sunyoli i Garriga, político espanhol,
de ideologia nacionalista catalã e 22º presidente
do Barcelona, entre 1935 e 1936.
Quando os soldados de Franco realizaram um ataque final para conquistar a insubordinada Catalunha, bombardearam o prédio que abrigava os troféus do clube. Depois de demolirem as insta­lações do Barça, os franquistas tentaram destituir o clube de sua identidade. O regime insistiu em mudar o nome de "Football Club Barcelona" para "Club de Football Barcelona" - não apenas uma particularidade estética, mas a tradução desse nome para o castelhano. Também insistiu em excluir a bandeira catalã do es­cudo do time. E isso foi somente o começo. Para supervisionar a transformação ideológica do clube, o regime impôs um novo pre­sidente. Ele devia ser bem adequado para o cargo. Durante a guerra, fora capitão da "Divisão Antimarxista" da guarda civil. No Barça, ele mantinha cuidadosamente copiosas fichas policiais de todas as pessoas envolvidas com o clube, de modo a poder im­portunar e solapar quaisquer diretores que demonstrassem sim­patias nacionalistas latentes.

Nos primeiros anos da era Franco, um evento se destaca nos livros de história. Em 1943, o Barça enfrentou o Real Madrid pe­las semifinais da Copa Generalíssimo Franco. Momentos antes do jogo, o diretor de segurança do Estado entrou no vestiário do Bar­celona - uma cena cultuada em Barça, a magistral história do clu­be escrita pelo jornalista Jimmy Burn. Ele lembrou aos jogadores que muitos deles tinham acabado de retornar à Espanha, de seu exílio em tempo de guerra, graças a uma anistia que perdoava sua fuga. "Não se esqueçam de que alguns de vocês só estão jogando pela generosidade de um regime que lhes perdoou a falta de pa­triotismo." Naquela época de repressão, não foi difícil entender o conselho. O Barça perdeu por 11 X 1,uma das maiores derrotas da história do clube.

Esse foi o primeiro de muitos favores prestados pelo regime ao Real Madrid, que pareceu retribuir a afeição construindo seu novo estádio na Avenida Generalíssmo Franco. Segundo alguns, o governo deu ao Real uma ajuda decisiva na contratação do me­lhor jogador dos anos 1950, o argentino Alfredo di Stefano, embora o Barça já tivesse feito um acordo com ele.
Quando o Real se sagrava campeão, Franco lhe concedia medalhas e honrarias não oferecidas a outros times vencedores. Paul Preston, biógrafo do caudilho, escreveu: "Franco via as vitórias do Real Madrid e da seleção nacional espanhola como, de alguma forma, suas." Tudo isso é fato. Mas há um aspecto que não se encaixa exatamente na conspiração anti-Barça sustentada pelos catalães. Um detalhe importante desmente isso. Nos primeiros anos da era Franco, o Barça teve uma de suas melhores temporadas da história.

Alfredo Di Stéfano: ídolo máximo no Real Madrid,
começou com a camisa do Barcelona, Espanha.
É um paradoxo - repressão e triunfo - que leva a uma das questões mais espinhosas na história política do esporte. Umberto Eco colocou-a desta maneira: "É possível ocorrer uma revo­lução num domingo de futebol?" Para o Barça, esse assunto é especialmente desconfortável. Seus torcedores gostam de se ga­bar de que seu estádio constituía um espaço em que podiam dar vazão ao ódio que sentiam pelo regime. Estimulados por cem mil pessoas cantando em uníssono, com a segurança de sua presença numérica, os torcedores aproveitavam a oportunidade para grita­rem coisas que não podiam ser ditas, mesmo que furtivamente, na rua ou num café. Esse é um fenômeno bastante comum. Há uma longa história de movimentos de resistência inflamando-se num estádio de futebol. Na Revolução do Estrela Vermelha, Draza, Krle e outros hooligans de Belgrado ajudaram a derrubar Slobo-dan Milosevic. As comemorações pela classificação da Romênia à Copa do Mundo de 1990 se espalharam pelas praças de Bucareste, culminando num grupo de atiradores apontando seus rifles para o ditador Nicolae Ceausescu e sua mulher. O movimento que derrubou o ditador paraguaio Alfredo Stroessner também teve seu ponto de partida no esporte.

Mas quando os torcedores do Barça enfatizam o espírito sub­versivo do Camp Nou não conseguem explicar por que Franco simplesmente não o esmagou. É claro que ele poderia ter feito isso com facilidade. Governava um eficiente Estado policial em que tanto os trens quanto os grandes inquisidores funcionavam a tempo e a hora. Para esmagar o Barça, como Primo de Rivera ti­nha feito nos anos 1920, bastariam alguns soldados. Mas ele pôs de lado essa opção e preferiu deixar os adversários gritarem suas obscenidades. Franco nunca justificou explicitamente sua políti­ca de tolerância. Mas seu objetivo era bastante claro: deixar que o povo catalão canalizasse suas energias políticas num passatempo inofensivo.

Se o Barça possibilitava à Catalunha desabafar, esse arranjo acabou se revelando conveniente para todos os envolvidos. Fran­co nunca enfrentou uma oposição séria por parte dos catalães. Diferentemente dos bascos, a outra minoria lingüística persegui­da pelo regime franquista, os catalães nunca se juntaram às fren­tes de libertação, nem seqüestraram presidentes de bancos de Madri, nem detonaram bombas em estações de ônibus. E os tor­cedores do Barça, apesar de todo o barulho no Camp Nou, jamais se opuseram seriamente aos apologistas de Franco que dirigiam o clube. Embora os catalães se mantivessem de cabeça baixa, eles tocaram em frente os negócios. A economia nacionalista de Fran­co, que incluía subsídios e tarifas, produziu um grande boom in­dustrial na área metropolitana de Barcelona. Imigrantes do sul da Espanha, aos milhares nos anos 1950 e 1960, foram trabalhar nas fábricas da região. O novo esforço industrial e o bem-estar conco­mitante ajudaram a afastar das mentes a opressão e as memórias dos massacres.

Bandeira da Catalunha
Os catalães têm uma autodescrição que explica esse instinto de "tocar o barco": gostam de dizer que possuem uma qualidade nacional chamada seny, palavra que se traduz como algo entre o pragmatismo e a sagacidade. É uma herança de séculos como mercadores do Mediterrâneo, a aversão do negociante à confusão. (Um exemplo clássico de seny: os catalães insistem em que sua língua seja ensinada nas universidades e usada nos sinais de trân­sito. Ela pode ser vista por toda parte, menos nos classificados de imóveis de muitos jornais em catalão. O nacionalismo não deve jamais atrapalhar os negócios.) Nessa autodescrição, os catalães também admitem possuir um yin para contrabalançar o yang do seny: eles têm outra característica nacional chamada rauxa, uma tendência a surtos de violência. Foi essa característica que impeliu a Catalunha a lutar de forma tão determinada durante a Guer­ra Civil espanhola e a tornou tão turbulenta nos anos anteriores.

Fosse esse ou não o desejo de Franco, o Barça ajudou a man­ter o seny e o rauxa dos catalães num estado de equilíbrio confor­tável. Um jornalista esportivo me contou uma parábola que ilustra esse fato. Dois criminosos trancafiados numa prisão de Franco realizam uma fuga perfeitamente planejada. Coordenam a ação de modo a poderem assistir ao jogo do Barça com o Real Madrid no Camp Nou. Por força da boa sorte, os fugitivos presen­ciam a vitória do seu Barça. Agora têm a liberdade e o triunfo. Dali em diante, bastava seguir o roteiro estabelecido em dezenas de filmes policiais e pegar a estrada. Mas eles desempenhavam seus papéis como homens da Catalunha, não como atores de Hollywood: curados de seu rauxa pelo Barça, eles retornam ao presídio onde tinham sofrido por tanto tempo. Procuram um guarda e se entregam."


Sobre o autor:
FRANKLIN FOER é redator do New Republic e colaborador assíduo da revista Slate
Seus textos já foram publicados em diversos outros órgãos de imprensa, como o New York Times e o Wall Street Journal.

Um comentário:

  1. E os incautos a considerar que o futebol não é cultura...
    Texto ótimo e esclarecedor. Aliás, durante a Academia ESPN de Letras, no Rio de Janeiro, Juca Kfouri elegeu “Como o futebol explica o mundo” como um dos livros fundamentais para entender o futebol e sua influência na vida.

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