segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Sócrates x Afonsinho

Sócrates e Afonsinho.
Crédito: site uol.com.br

Por Hélio Alcântara

Magrão sempre me lembrou o Afonsinho da minha infância-adolescência. Ambos barbudos, tecnicamente abençoados, destoando brilhantemente da imensa massa de calções, chuteiras e camisas de clubes.

A barba de Afonsinho me parecia a maneira visual que ele havia encontrado de deixar evidente seu desacordo com o sistema vigente na época - vivíamos a ditadura militar, cujos agentes e "militantes" eliminaram pessoas e hoje não esboçam o menor sinal de arrependimento (nota-se pelas reações atuais dos velhos torturadores e/ou seus chefes).


Aos meus olhos adolescentes, Afonsinho foi o primeiro jogador a enfrentar o sistema estabelecido, com seus patrões apodrecidos e invariavelmente ligados ao Exército. 

Foi impedido de jogar futebol durante algum tempo porque os militares o consideravam um rebelde, um "inimigo da pátria". Afonsinho entrou na Justiça para obter o "direito de ir e vir", contemplado em nossa Constituição. 
Ao final dessa batalha em que lutou praticamente sozinho, ganhou "passe livre", o que significava poder atuar aonde bem entendesse/desejasse.
Para mim, Magrão é também essa parte da história de Afonsinho, ex-Botafogo alvinegro, ex-Santos de/com Pelé. Quando surgiu, no Botafogo tricolor, era um cara muito magro e alto e quase não sorria. Tinha aquele ar compenetrado e extremamente sério. Acho que passou a sorrir mais livremente anos mais tarde, já no Corinthians, depois de ter se estranhado com a imensa Fiel. E sentiu-se verdadeiramente "em casa" ao se aproximar de gente de cabeça arejada na época, como Eduardo Suplicy, Adílson Monteiro Alves, Fernando Henrique Cardoso, Osmar Santos, Lula, o garoto Casagrande e Wladimir, aquele que mais vezes vestiu a camisa do Corinthians em toda a história do clube.

Nessa época (1984) já havia "criado e experimentado" uma das maiores "transgressões" do futebol brasileiro: a chamada "Democracia Corinthiana". Deixou sementes preciosas, porque o país começou a mudar, ainda que "lenta, gradual e seguramente". 
Tem gente que não acredita nisso, mas, e daí?

Em 2009, quando eu dirigia e apresentava o programa "Grandes Momentos do Esporte", na TV Cultura, tive a honra e o privilégio de conversar com ele por quase duas horas ininterruptas. Foi uma das experiências mais prazerosas da minha vida profissional e pessoal. A espontaneidade e a naturalidade desse "artista da bola" (como ele se autodenominou, certa vez, na Itália) me fizeram sentir que nos conhecíamos há muitos anos.

Li hoje, na "Folha", a tristeza do Juca (Kfouri). E concordo, quando diz que Sócrates era incoerente e apaixonante. Mas, incoerentes somos todos nós. Apaixonantes, apenas alguns - Magrão era um deles. E, campeão, foi-se embora. Se bem o conheço, deve estar morrendo de rir, ao lado de outros maravilhosos seres humanos.


Sobre Hélio Alcântara

É autor do livro "Ponta de Lança - A história de um brasileiro que foi jogar bola nos Estados Unidos e descobriu o mar" (Editora Ysayama, 2000). É jornalista e ex-chefe do Departamento de Esportes da TV Cultura. 


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