domingo, 18 de dezembro de 2011

Quando se perde a magia


Por André Ribeiro


Nunca fui um craque, mas também não era o que se chama na linguagem dos boleiros de um “cego”. Tinha boa técnica, velocidade e o que é extremamente importante em uma partida: “boa leitura de jogo”. Na várzea, acostumei-me a ver grandes jogos, duelos sensacionais que participei, dentro e fora do campo. E uma lição que aprendi convivendo com a “boleirada” é que quando íamos enfrentar uma equipe que todos reconheciam ser “quase imbatível”, só havia duas opções: ir pra cima sabendo que levaríamos vários gols, mas “indo pro jogo”; ou eleger no adversário jogadores que deveriam ser marcados individualmente.

Tudo isso para dizer que hoje, o Santos, na derrota para o Barcelona, não fez nada parecido com o que me acostumei a ver nos bons tempos da várzea: nem jogou, nem marcou. Ah, mas irão dizer: “mas como comparar um time de várzea com o poderoso Barcelona?” Dá sim, respondo a você, leitor e torcedor. Quando perdemos a essência do que somos dentro de um jogo (amador ou profissional, no campo de terra ou no tapete do Camp Nou), não há o que se fazer. E hoje, o Santos fez isso, perdeu a essência, o brilho próprio, a magia...Mudou sua formação para tentar “achar” o adversário em campo. Mais uma lição, como não cansou de afirmar a estrela Neymar durante as entrevistas do pós-jogo: “Aprendemos hoje vendo o Barcelona a como jogar”.

E é exatamente isso que temos visto ultimamente no futebol brasileiro. Pouco a pouco deixamos de ser protagonistas para virarmos coadjuvantes.

Para resgatar um pouco dessa auto-estima brasileira, vale recuperar um texto do jornalista e escritor Joaquim Ferreira dos Santos, publicado no livro “Futebol-Arte – A cultura e o jeito brasileiro de jogar” (Editora Senac, 1998).

“O drible da vaca. Se você não sabe do que se está falando, perdeu um dos bons motivos para repetir a marchinha carnavalesca e dizer, orgulhoso, que ‘com o brasileiro não há quem possa’. Outros povos, outros cérebros, fundiram o átomo e explodiram a bomba nas cabeças alheias. Outras línguas criaram infernos dantescos e geniais. De outras pranchetas voaram satélites. Nós inventamos o drible da vaca.

Estufe o peito. Não é pouco. É uma operação tão criativa quanto qualquer vacina Sabin, tão estupefaciente quanto um mega Gates. 

O jogador, a bola, o adversário. Frente a frente. Jogue a bola por um lado, corra pelo outro, dando a volta no inimigo. Alcance-a novamente e invista contra o gol.

Na Copa de 1970, no México, Pelé deu um drible desses no goleiro Mazurkiewicz, do Uruguai. Ofereceu um plus: sequer tocou na bola, enganando o goleiro com o corpo. É uma das cenas do século (como a de Armstrong deixando as pegadas na lua, o bafo do metrô descortinando as coxas de Marilyn) e neste momento deve estar passando em alguma TV a cabo do mundo. Arrepiante. Arte. Coisa de brasileiro. No bom sentido.

Ninguém sabe explicar onde os genes confluíram, em que momento as bolas trazidas por Charles Miller em 1894 começaram a ser tocadas de um jeito diferente daquele usual no resto do mundo.

Todos reconhecem, no entanto, que a bicicleta do Leônidas, a folha seca do Didi, o drible elástico do Rivelino, as embaixadas do Paulo César Caju, o chute de três dedos do Gérson, o finge-que-vai-e-vai do Garrincha, o gol de calcanhar do Túlio, o drible da vaca do Pelé, todas essas maravilhas são suficientes para fazer um país.

Querem alguns que foi a confraternização racial ou o acesso dos pobres, já no começo do século, aos clubes elitistas que praticavam o esporte. Outros preferem falar dos campos esburacados de várzea obrigando uma atenção maior nas jogadas ou a iniciação com incríveis pelotas de meia recheadas de papel. Não importa. Somos especiais no futebol, da mesma maneira que João Gilberto é único na música e Sônia Braga no jeito de descontrolar os quadris. Os outros são bons em clonar ovelhas, mas, grandes coisas, morrem de tédio com isso. Eles queriam mesmo é reproduzir o drible da vaca, e correr para o abraço.”

Sobre Joaquim Ferreira dos Santos:

(fonte: http://www.releituras.com/jfsantos_menu.asp)
Escritor e jornalista, nasceu no Rio de Janeiro (RJ) em 1951. Trabalhou como repórter, crítico de música e show na revista "Veja" durante mais de 10 anos. Foi editor das revistas "Domingo" e "Programa", do "Jornal do Brasil". Em 1991 foi editor executivo do jornal "O Dia". Atualmente é cronista e colunista do jornal "O Globo". Alguns de seus livros já publicados: "Feliz 1958! — O ano que não devia terminar",  "O que as mulheres procuram na bolsa",  "Em busca do borogodó perdido", "Seja feliz e faça os outros felizes", e "O que as mulheres procuram na bolsa". Na coleção "Perfis do Rio", foi o autor de "Antônio Maria — Noites de Copacabana", além de ter organizado "Benditas sejam as moças — As crônicas de Antônio Maria", "O diário de Antônio Maria" e "Um homem chamado Maria".

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