segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Os meninos de Cotia



Literatura na Arquibancada destaca mais um artigo escrito pela psicóloga do esporte, Dra. Katia Rubio, em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/2011/nota-sobre-um-trabalho-de-base/. Para quem estava acostumada às precariedades na formação de atletas brasileiros, Katia Rubio surpreendeu-se com o belo trabalho realizado no Centro de Formação de Atletas (CFA) do São Paulo Futebol Clube, desde 2005, ano de sua criação.

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Não canso de dizer que é um privilégio trabalhar com o que se escolheu e, obviamente, se gosta. Já escrevi sobre isso anteriormente, mas a cada novo projeto, e novos resultados sinto-me reforçada a repetir essa frase, como um mantra.

Há um ano acompanho o trabalho do psicólogo Augusto Carvalho e da assistente social Mariana Grassia nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube. Em 2009, o coordenador técnico da base do SPFC, Marcelo Lima e Mariana me procuraram falando sobre o que estava sendo feito nas categorias de base do clube e do quanto esse trabalho social era importante para o desenvolvimento dos “meninos”, e conseqüentemente, lá na frente, no profissional. Essa disposição em fazer um trabalho diferente calçava como uma luva com aquilo que penso e ajudo a construir na Psicologia do Esporte há quase duas décadas: entender o atleta no seu contexto, buscar sua história de vida para entender o que ocorre no presente e se projeta para o futuro e, depois sim, aplicar uma intervenção específica nas questões relacionadas ao rendimento como motivação, treinamento mental, controle de ansiedade e outros subitens do rendimento esportivo.


E a partir do final de 2010 passei a acompanhar esse trabalho de formiga que Augusto e Mariana fazem, com quase 300 garotos que vão dos 13 aos 20 anos, naquele espaço de 220 mil metros quadrados de um antigo haras em Cotia transformado em Centro de Formação de Atletas que leva o nome do antigo presidente do clube, Laudo Natel, sob os cuidados de Marcos Tadeu Novais, diretor das categorias de base do Tricolor, e Geraldo Oliveira, gerente de futebol.

Confesso que a primeira vez que visitei o Centro imaginei que a qualquer momento fosse surgir o senhor Roarke e o pequeno Tattoo dando as boas vindas aos visitantes. Do compo oficial com estádio para 1.500 pessoas, passando pelos 8 campos oficiais e 4 sociais de treino e competição, ao hotel para 150 hóspedes e 4 alojamentos para 100 pessoas, aos jardins bem cuidados e toda infra-estrutura disponível aos atletas, nada ali sugere as infra-estruturas precárias que já conheci do esporte olímpico e que são oferecidas aos atletas como se eles fossem obrigados a se acostumar com pouco para não se sentirem muito.

Pois bem. A vida dos atletas em Cotia é muito mais do que se tornar máquinas de jogar futebol. Freqüentar a escola e ser aprovado é condição básica para os meninos se manterem no clube. Estudo? Treino? Isso mesmo. A tônica do trabalho no Centro de Formação é preparar esse garoto para ser um profissional da bola e não apenas um jogador. E é sobre essa cruzada que os profissionais ali envolvidos se debruçam e se empenham para fazer cada vez melhor.

Parte dessa saga reside em uma mudança de mentalidade, ou eu chamaria de cultura, que implica em entender o futebol como uma profissão como tantas outras: é preciso talento, determinação, mas também conhecimento, capacidade técnica que podem ser desenvolvidos como uma habilidade que se aprimora para se chegar à perfeição em uma instituição que alguns poderiam dizer que se assemelha a uma escola. Perseguindo essa meta, então, os vários profissionais, tanto da parte técnica, como social, da saúde e administrativa realizam uma proposta inovadora para o futebol brasileiro, e ouso dizer a partir das minhas andanças por congressos e centros esportivos, para o futebol mundial.

Eis que no meio das muitas discussões a respeito da condução do trabalho surge uma questão que não quer calar: qual o perfil do jogador que se deseja formar?
Pergunta aparentemente banal, mas que baliza qualquer ação relacionada ao desenvolvimento de carreira, a busca do perfil levou a uma mobilização não apenas do Centro de Formação de Atletas em Cotia, mas de todo o São Paulo Futebol Clube. Embora a resposta pareça simples o que está por traz dessa pergunta é toda a trajetória do clube, sua história e a cultura da instituição. Tendemos a falar do futebol de forma generalizada, mas observamos na atitude dos atletas como a estrutura do clube no qual ele foi formado acaba por influenciar não apenas seu estilo de jogo como o enfrentamento das diferentes situações da vida ao longo da carreira profissional.

Começou-se então um trabalho de arqueologia cultural onde as ferramentas não foram espátulas ou carbono 14, mas a memória daquelas pessoas vinculadas à história do clube. Desnecessário dizer sobre a importância do ex-presidente Laudo Natel nesse processo. Dirigente visionário foi um dos pioneiros no entendimento da necessidade de transformar o gerenciamento do futebol tornando-o em empresa. Ao entender a importância do resgate dessa história recebeu a equipe em seu escritório no centro da cidade para uma entrevista. Com 92 anos o ex-presidente do tricolor paulista tem a vitalidade que falta a muitos jovens que conheço. Trabalha todos os dias e tem a memória de um garoto. Contou-nos sobre as idéias que levaram à construção do estádio do Morumbi e o quanto isso determinou a identidade do torcedor são paulino. Falou sobre a mobilização da diretoria e dos membros do clube para que o estádio do Morumbi fosse construído sem deixar dívidas para o futuro, alavancando outras ações como a construção do Centro de Formação inaugurado em 2005. Foi interessante observar nas memórias relatadas como o futebol, embora profissionalizado desde há muito para os jogadores, foi amador em sua gestão até tão pouco tempo. Laudo Natel recordou o empirismo de ações que mais tarde seriam chamadas de marketing esportivo o que conferiria ao SPFC o pioneirismo na profissionalização da gestão do clube em geral e de seu futebol em particular.

Se o ex-presidente representava as origens o atual presidente, Juvenal Juvêncio, nos indicaria o pensamento presente sobre o tipo de jogador desejado e os caminhos para o futuro. E fomos então a ele. Recebeu-nos no Centro de Treinamento da Barra Funda, paradeiro desejado para os garotos formados em Cotia, na última semana do Campeonato Brasileiro. Por quase uma hora e meia conversamos francamente sobre o que acontece com os atletas brasileiros, formados ou não pelo SPFC. Enquanto conversávamos observei a seriedade com que ele conduzia aquela discussão. Embora seu telefone tenha tocado várias vezes preferiu não perder a linha de raciocínio que o levava a refletir sobre o perfil do jogador do São Paulo e os rumos do futebol de maneira geral. Acostumado a falar com a imprensa sobre temas espinhosos percebi que começou nossa conversa como se fosse mais uma dessas tantas coletivas, mas foi mudando o tom a medida que fomos ampliando os questionamentos que mais pareciam um diagnóstico institucional.

Terminamos nossa entrevista com a sensação de dever cumprido e com várias dicas sobre o futuro do trabalho com os “meninos de Cotia”.

A lição que tiro dessa experiência é o quanto a integração entre as várias instâncias e profissionais de uma mesma instituição faz a diferença no resultado final de um trabalho. Quando falamos do jogador profissional de um clube nos referimos a alguém que tem uma história marcada por vários episódios que emergirão de diferentes formas quando ele estiver submetido a diferentes tipos de pressão. Por isso afirmo que um bom trabalho com o profissional começa na base, em todas as vertentes daquilo que compõe a vida de um atleta, seja do ponto de vista técnico, motor, cognitivo ou afetivo. Da mesma forma que um atleta bem formado do ponto de vista técnico e motor pode significar a diferença em um time profissional, aquele que aprendeu a lidar com as próprias emoções e a desenvolver estratégias para lidar com suas limitações ainda nas categorias de base conseguirá enfrentar os desafios de um time profissional com maior segurança. Essa já é a realidade do futebol, e de várias equipes olímpicos, ao redor do mundo. Espero que o exemplo do São Paulo Futebol Clube, venha fazer mais uma vez a diferença no futebol brasileiro.

Sobre Katia Rubio:

Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.



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