sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O Tulipa Negra


Que todos já ouviram histórias sobre músicos, escritores ou jornalistas que chegaram a jogar futebol, isso não é nenhuma novidade. Mas o contrário, um jogador, craque e ídolo do futebol mundial ter uma banda de música e cantar, isso pouquíssima gente sabe.

Um dos personagens mais marcantes do futebol mundial, Ruud Gullit, é um dos perfis mais interessantes na produção do livro “A Magia da Camisa 10”, escrito pela dupla de jornalistas, André Ribeiro e Vladir Lemos (Verus Editora, 2006). Talvez, por histórias curiosas como a de Gullit, o livro tenha sido publicado em vários países, como Portugal, Hungria, Polônia e até mesmo, no Japão.

Edição da Hungria, de
"A Magia da Camisa 10"
Vale a pena, após a leitura sobre a vida deste personagem instigante, ver o vídeo em que ele aparece cantando com a sua banda de reggae.

Diferente de muitos jogadores, Ruud Gullit destaca-se não só pelo visual, marcado pelas tranças do cabelo rastafári, mas pela cultura e inteligência acima da média de seus companheiros de profissão. Uma razão para isso pode estar na formação cultural de seus pais. Gullit é filho de um negro surinamês com uma holandesa. George, seu pai, era um ex-jogador de futebol e professor, enquanto a mãe trabalhava no Museu Rijks, de Amsterdã. Seu pai foi seu maior incentivador nos primeiros anos vividos no Haarlem, bairro popular de Amsterdã. O orgulho holandês de ver Cruyff vestindo a camisa da seleção é um sentimento que o garoto, nascido em setembro de 1962, também soube despertar. Só que seu caminho inicial não foi o mesmo do ídolo Cruyff. Depois de famoso, tinha uma explicação simples, mas realista, para o fato de não ter começado a carreira no mesmo clube que revelou o maior ídolo do futebol holandês: A razão é simples. O campo do Ajax ficava muito distante do lugar onde morava”.

Gullit começou bem cedo a praticar futebol em Amsterdã. Os primeiros chutes foram dados aos oito anos, na escolinha do Meerboys Club. Pouco depois passou para os amadores do DWS Amsterdã e, com apenas 15 anos, já atuava entre os profissionais do modesto Haarlem. Logo na primeira disputa do campeonato holandês, em 1979, Gullit deixava claro seu estilo incomum, marcado pelo porte físico avantajado, aliado a ginga, arranque e uma capacidade espetacular para encontrar espaços dentro de um campo de futebol.

Em 1982 Gullit foi comprado pelo Feyenoord, clube de grande tradição na Holanda, ao lado do Ajax. Na temporada de estréia ganhou seu primeiro título holandês, fato que repetiria mais duas vezes, em 1985 e 1986, mas vestindo o uniforme do rival, PSV. 

Em campo, o corpo negro de Gullit passou a ser sinônimo de uma combinação fatal de força e talento. Os adversários pareciam não ter muito a fazer diante de suas investidas, na maior parte das vezes traçadas em uma linha diagonal.

Não demorou muito para que o poderoso futebol italiano decidisse levá-lo. Em 1987, o empresário e presidente do Milan, Silvio Berlusconi, decidiu abrir os cofres do clube e desembolsar 12 milhões de dólares para ter o futebol de Gullit. Com certeza, o investimento foi mais do que compensador. Logo em sua primeira temporada no Milan, comandado pelo exigente treinador Arrigo Sacchi, Gullit foi eleito o melhor jogador da Europa e agraciado com a badalada Bola de Ouro. As portas da fama e do sucesso estavam abertas para o negro holandês.

Obcecado por surpreender o adversário e com um nível de exigência de abalar até os mais calmos, Sacchi era o homem certo para extrair o máximo de um elenco raro. Além de Gullit, o Milan tinha ainda o talento do atacante Marco Van Basten e do defensor Frank Rijkaard, ambos jovens jogadores holandeses.

Não seriam poucas, nem pequenas, as conquistas de Gullit com o time de Milão. Em 1988, ano em que triunfou pela primeira vez no Campeonato Italiano, viveu um momento magnífico com a seleção holandesa, que dois anos antes não havia sequer conquistado vaga para o Mundial do México. Liderado pelo seu capitão e camisa 10, o time laranja chegou à final da Eurocopa. A vitória por 2 a 0 em cima da União Soviética foi marcada pela força de Gullit, que com uma cabeçada abriu o placar. Mais importante do que o gol e o título era o resgate de uma geração de craques, como Johann Cruyff e Johann Neeskens, que haviam perdido duas Copas do Mundo, em 1974 e 1978.

O prestígio e a fama de Gullit nos gramados permitiram ao jovem negro holandês começar a impor seu estilo fora de campo. Avesso às entrevistas, recusava-se a falar com a imprensa e amigos sobre suas atuações nos jogos que disputava. Sua vida particular ganhava muito mais importância no noticiário. Nessa época, aos 25 anos, Gullit já era casado e pai de duas filhas.


Tinha uma banda de reggae, batizada de Revelation Time (Tempo de Revelação), na qual cantava e tocava contrabaixo. Suas músicas foram gravadas em discos e chegaram até as paradas de sucesso na Holanda. As longas tranças utilizadas no cabelo, em homenagem ao músico jamaicano Bob Marley, marcaram a imagem do craque. Para Gullit, futebol e música tinham outro significado: Futebol e música têm aspectos comuns. Ambos representam um potencial coletivo. Seu palco preferido são os estádios e as ruas. Nos lugares onde outras formas de expressão foram proibidas, são a alternativa para os jovens romperem a repressão. Isso: futebol e reggae significam liberdade”.

Mas o que realmente chamava a atenção dos críticos era a postura política de Gullit. A mesma vitalidade física do corpo surgia no ativista contra o racismo e o sistema de apartheid da África do Sul. Em 1988, ano de sua consagração no Milan, dois atos foram marcantes em sua vida pública. Em agosto, participou de uma conferência internacional sobre a situação dos refugiados, desabrigados e flagelados da África Austral, promovida em Oslo, Noruega, pela Organização da Unidade Africana. Pouco depois, na véspera da partida entre Milan e Juventus, dedicou a conquista da Bola de Ouro do ano anterior ao líder africano Nelson Mandela, preso pelo regime de Pretória havia anos. Queria ler um manifesto, mas foi desaconselhado pelos dirigentes do Milan. O veto não o fez calar. Gullit distribuiu uma carta, com o manifesto, aos jornalistas presentes ao Estádio de San Siro.

A posição firme na questão do apartheid fez de Gullit um porta-voz para centenas de milhares de negros no mundo. Mais do que isso, o craque negro deixava clara a postura que seus companheiros de profissão deveriam assumir:

Não estou me envolvendo em política. Não estou fazendo política, porque não considero “política” o sistema do apartheid. Defino o apartheid como um insulto à humanidade. E não creio que sejam tão poucos os atletas que condenam o racismo e o apartheid. O problema é que os jornalistas não perguntam muito aos atletas o que eles pensam sobre as injustiças que existem no mundo. Em geral, querem saber sobre os jogos, sobre as possibilidades de vitória de um time sobre outro... Ser jogador de futebol não é sinônimo de burrice...

Dois anos marcaram a trajetória de Gullit. Em 1989, apesar dos problemas no joelho, e também em 1990, ganhou tudo o que um atleta profissional poderia sonhar em sua carreira. Conquistou o bicampeonato da Copa dos Campeões, principal campeonato de Velho Continente, foi bicampeão da Supercopa da Europa e também bicampeão do Mundial Interclubes.

O Milan de Gullit, jogador quase impossível de ser marcado, foi a referência do bom futebol praticado naqueles anos. Passou a ganhar adjetivos em série, como os de Rei, Magnífico e o que melhor se encaixava com sua imagem, Tulipa Negra. 

Se em 1986 a Holanda havia ficado de fora do Mundial do México, na Copa da Itália, em 1990, Gullit era a maior esperança dos holandeses. A Holanda, no entanto, acabou eliminada pela Alemanha Ocidental nas oitavas-de-final por 2 a 1, em pleno Estádio Giuseppe Meazza, em Milão. Gullit esteve irreconhecível em campo, mas havia uma razão. Entre 1988 e 1989 havia passado por duas cirurgias no joelho direito, que o obrigaram a ficar parado durante dez meses. Para muitos, Gullit estava acabado para o futebol. Dois anos após a decepção da Copa, mesmo enfrentando dores nos joelhos, Gullit sagrou-se bicampeão italiano, pelo Milan, em 1992 e 1993. A derrota para o Olympique de Marselha, em maio de 1993, pela Copa dos Campeões, fez Gullit mudar de ares, na Itália. Achavam-no velho demais para correr pelo tricampeonato italiano, no Milan.

Contratado por um milhão de dólares para a temporada 1993/1994, pelo Sampdoria, não decepcionou: ajudou a equipe de Gênova a conquistar a Copa da Itália. Suas brilhantes atuações fizeram os dirigentes do Milan admitir o erro de liberar o craque um ano antes. Voltou ao Milan para a temporada 1994/1995 e preparou-se para disputar sua última Copa do Mundo.

O único problema é que o técnico Dick Advocaat, da seleção holandesa, concluiu que Gullit já não tinha lugar na equipe titular. Para não perder a tradição, o craque holandês criou polêmica na sua saída da seleção. Decidiu abandoná-la em pleno período de concentração, no balneário de Noordwijk, na Holanda, um mês antes do início da Copa dos Estados Unidos. Era o final de uma trajetória iniciada em 1981 e que teve como saldo 64 partidas e 17 gols. Gullit encerrou a carreira de jogador no Chelsea, da Inglaterra, onde também foi treinador, em 1997.

Em 1999, o anúncio da contratação de Gullit como treinador do Newcastle fez as ações do clube subirem rapidamente quase 10% na Bolsa de Londres. Façanhas de um homem eternizado pelas finalizações potentes e precisas, que sabia como poucos proteger a bola e chegar, na maior parte das vezes, de maneira fulminante até o gol.

Gullit foi curtir a vida, a música e a família. Gostava de afirmar que, acima de um jogador de futebol, era um ser humano, definição que Sven-Goran Erikson soube como ninguém deixar no ar: Ruud Gullit? Não sei quem é melhor: se o jogador ou o homem

Gullit cantando com a banda Revelation Time. 


Um comentário:

  1. Mas o que realmente chamava a atenção dos críticos era a postura política de Gullit. A mesma vitalidade física do corpo surgia no ativista contra o racismo e o sistema de apartheid da África do Sul. Em 1988, ano de sua consagração no Milan, dois atos foram marcantes em sua vida pública. Em agosto, participou de uma conferência internacional sobre a situação dos refugiados, desabrigados e flagelados da África Austral, promovida em Oslo, Noruega, pela Organização da Unidade Africana. Pouco depois, na véspera da partida entre Milan e Juventus, dedicou a conquista da Bola de Ouro do ano anterior ao líder africano Nelson Mandela, preso pelo regime de Pretória havia anos. Queria ler um manifesto, mas foi desaconselhado pelos dirigentes do Milan. O veto não o fez calar. Gullit distribuiu uma carta, com o manifesto, aos jornalistas presentes ao Estádio de San Siro.

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