terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O futebol da bicharada

Arte: Fernando Francez
Confira o trabalho espetacular do artista plástico,
designer gráfico e ilustrador no
http://fernandofrancez.blogspot.com/



A bola para de rolar no Brasil em dezembro, pelo menos no Campeonato Brasileiro. Calma, os estaduais já já estão chegando. Enquanto isso, Literatura na Arquibancada não deixa a bola parar de rolar. Só que desta vez, o jogo é bem diferente: "Futebol da Bicharada". Agora, durante as férias, se for a uma fazenda, olhe para os animais e imagine uma “peleja” igual a que o compositor Raul Torres criou. E se não for, basta “viajar” com essa obra-prima da verdadeira e autêntica música caipira brasileira. Quem disse que letra de música não pode ser considerada “quase” uma obra literária.

Raul Torres é uma das grandes referências da música caipira. Nasceu em Botucatu, interior de São Paulo, no ano de 1906 e morreu em São Paulo, em 1970. Basta ver seu perfil elaborado pelo “dicionário MPB” para entender sua importância para a música caipira.

"Cantor. Compositor. Filho de imigrantes espanhóis. Ainda em sua cidade natal se iniciou na música, cantando modas de viola em festas, acompanhado de amigos. Com a decisão de seguir a carreira artística, mudou-se para São Paulo. Para se manter na capital paulista exerceu outras atividades profissionais. Foi cocheiro na Estação da Luz. Paralelamente exercia a atividade artística, cantando em bares, circos e cabarés. Trabalhou como lenheiro no trem de lenha da Sorocabana, fazendo o percurso entre a Barra Funda e a cidade de Itararé. Trabalhou com o pai da cantora Inezita Barroso, a quem ensinou o rasqueado, sendo um dos influenciadores da, então menina, em seu interesse pela música sertaneja."


Para conhecer a obra completa de Raul Torres, acessar:

Futebol da Bicharada
(Composição: Raul Torres)

Lá no arraiá das coruja formaro dois cumbinado,
O time do quebra-dedo, e o time do pé-rapado.
A bicharada reuniu, formaro logo seu quadro,
Nóis fumo vê esse jogo, por sê um jogo faladu.


A bicharada pediu pro jogo sê irradiadu,
Na estação du lugá, PRJ-Bichadu,
O "ispriqui" era o jumento, rapaizinho apreparadu,
As quinze hora da tarde o jogo foi cumeçado.



O time do quebra-dedo tinha fama de campeão,
Sapo jogava no gol, béqui de espera o leão,
Cavalo o béqui de avanço, o arco esquerdo preá,
Veado de center-arco, arco direito o gambá.


A linha tava um perigo, na meia jogava o rato,
No centro jogava o tigre, na otra meia o macaco,
Na esquerda jogava o bode, direita jogava o gato,
E pra atuá di juiz, foi convidado o lagarto.


(Boa tarde senhoras e senhores. Ai que bicharada gorda, barbaridade...)

O tigre deu a saída, coelho foi pra tirá,
O tigre passô pru bode, mais quando ele foi chutá,
Puxaro a barba do bode, o bode foi recramá,
Juiz falô que num viu, cachorro já quis brigá.


A cabra muié do bode, xingô o juiz de ladrão,
Torcida do quebra-dedo fizéro recramação,
A capivara e a cotia chegaro a xingá o leão,
Preguiça dava risada, de vê o sapo de carção.



Largato que era o juiz, na hora dele apitá,
Tinha engulido o apito, num pôde o jogo pará,
A torcida entrô no campo, de pau, de faca e punhá,
O pau cumeu direitinho, mataro trêis no lugá.


O bode ficô ferido, mataro o béqui leão,
Rasgaro a saia da cobra, cavalo quebrô a mão,
O sapo saiu correndo, jogou-se no riberão,
Por que na hora da briga ele ficô sem carção.


O jogo num terminô, pur isso ficô empatado,
Agora nóis vai falá, do center-arco veado.
Nervoso ele dizia, entre suspiros e ais:

Ai meu Deus do céu qui jogo bruto, meu Deus, que estupidez. 
Assim num jogo, num jogo, num jogo mais...

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Vale a pena assistir o vídeo com a composição de Raul Torres acompanhado de seu parceiro Florêncio.

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