terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O dia em que Sócrates pagou para jogar


Mais uma história espetacular do Dr. Sócrates. Desta vez extraída do recomendadíssimo livro “Recados da Bola – Depoimentos de doze mestres do futebol brasileiro” (Editora Cosac Naify, 2010). O livro tem organização de Jorge Vasconcelos e foi feito a partir de entrevistas feitas pelo jornalista Claudiney Ferreira e pelo próprio Jorge Vasconcelos com 12 feras do futebol brasileiro: Barbosa, Domingos da Guia, Jair Rosa Pinto, Zizinho, Ademir de Menezes, Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Zito, Didi, Rivellino e, claro, o Dr. Sócrates.
Foi fora do campo que “Magrão” teve de começar a usar a criatividade para conciliar futebol e medicina.
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Na minha vida, o futebol foi um acidente de percurso. Gostava muito de esporte e o futebol sempre foi o meu esporte predileto. Quando tinha catorze anos fui jogar no Botafogo de Ribeirão Preto. Jogava no juvenil, toda a turma do colégio foi para lá; eu acabei ficando.

Logo de cara, no Botafogo, começou uma pressão para que eu me profissionalizasse. Mas sempre achei impossível conciliar os estudos e o futebol.

Nessa época, eu fazia cursinho e logo depois entrei na faculdade. Só aparecia no clube aos domingos, para as partidas. No segundo ano da faculdade, disputava o campeonato amador como juvenil e jogava contra um pessoal bem mais velho.

No final do segundo ano do curso, tive umas férias longas – minhas últimas férias longas – e foi quando resolvi aceitar o convite para tentar conciliar as duas coisas, o que também representaria uma forma de independência em relação ao meu velho.

Mas, sinceramente, eu não acreditava que fosse possível me dedicar aos estudos e ao futebol. Era muito complicado porque minha carga horária era puxada, no mínimo doze horas por dia. Não podia treinar e vivia num regime de absoluta exceção.

(...)

Era comum chegar em cima da hora dos jogos. Não podia deixar de freqüentar alguns cursos, tinha mesmo de assistir a certas aulas. Quando jogávamos em São Paulo, Sorocaba, Bauru, eu saía de Ribeirão Preto às seis da tarde e ia para o jogo. A delegação do Botafogo chegava ao local da partida na véspera, e eu só depois. 

Então houve o episódio do Pacaembu. 

Nunca havia jogado lá e cheguei em cima da hora, num jogo do Campeonato Paulista, no meio da semana. Não sabia onde ficava o vestiário, o motorista que me levou também não. Disse para ele: “Me deixa aqui que eu compro ingresso, entro no campo e lá resolvo”.

Dentro do campo, comecei a perguntar onde era o vestiário, aí um cara falou que era do outro lado. Talvez tenha sido a única vez na vida que corri para jogar bola. Nem em campo corria tanto. A essa altura, tive de negociar com um porteiro; disse a ele que iria jogar e ele não acreditou, deu uma risadinha. Mas o mesmo porteiro aceitou chamar alguém do Botafogo – acho que sentiu que eu realmente pertencia ao grupo. Me identificaram, ele me deixou entrar e joguei. Isso foi em 1974, no primeiro Campeonato Paulista que disputei.

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