quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O bandeirinha artilheiro


Amigos, já que a bola está parada dentro dos gramados, nada melhor do que tratarmos sobre um personagem do futebol que ganhou enorme “notoriedade” nos últimos tempos em uma partida, após anos e anos de quase total descaso. Tornaram-se polêmicos por conta da velocidade de um jogo de futebol e o reflexo preciso exigido deles (ou delas) em momentos decisivos, qualquer que seja a situação.

O que veremos mais abaixo é uma fantástica crônica escrita por Nelson Rodrigues baseada em um fato real. O texto “Bandeirinha-Artilheiro” foi publicado na revista Manchete Esportiva, no dia 2 de maio de 1959 e descreve um momento, talvez único na história do futebol mundial, do bandeirinha Adelio Maia durante o tradicional clássico FlaFlu, disputado no dia 20 de abril de 1959, pelo torneio RioSão Paulo. Adelio entrou para a história do futebol mundial porque acabou ajudando o Flamengo a marcar um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Fluminense. Isso mesmo, Adelio Maia conhecido pelo curioso apelido de “Caixa Econômica” deu o passe para um gol !!! 

 BANDEIRINHA-ARTILHEIRO

Amigos, ontem foi o lírico domingo dos velhos. Aqui, Barbosa, fechando o gol do Vasco; em São Paulo, Jair, decidindo o jogo para o Santos. Duas eternidades e ambas viçosas, ambas salubérrimas. Tanto Jair como Barbosa podiam ser, hoje, o meu personagem da semana. Mas há melhor, amigos, há melhor! Refiro-me ao “Caixa Econômica”, a mais recente, inesperada e espetacular celebridade do futebol brasileiro. Antigamente, em matéria de Caixa Econômica, só se conhecia a própria. Mas, graças ao Fla–Flu, fez-se uma descoberta sensacional. Sim, amigos: – existia, aqui, nas nossas barbas, sem que o percebêssemos, o “Caixa Econômica” bandeirinha. Foi o grande e, direi mesmo, foi a contundente surpresa do Fla–Flu!

O bandeirinha! É, na história do futebol, o sujeito mais secundário. A humildade de sua função só tem paralelo com a do gandula. E houve uma época em que o bandeirinha era um franciscano apanhador de bola. Foi preciso que o profissionalismo aparecesse e o arrancasse de sua compacta obscuridade. Então ele subiu social e economicamente. Lembro-me da primeira remuneração do bandeirinha – 25 mil réis por jogo! Hoje,a função é mais importante. O homem já marca impedimentos e tornou-se um personagem ativo e militante na comédia do futebol. Todavia, nenhum bandeirinha conseguiu, jamais, o furioso destaque do “Caixa Econômica”. Num Fla–Flu sensacional, ele conseguiu ofuscar o juiz, os jogadores, o outro bandeirinha. Foi, atrevo-me a dizê-lo, o solista do espetáculo.


Aliás, tudo no “Caixa Econômica” parece predispô-lo para a celebridade e para a glória. A começar pelo apelido. É “Caixa Econômica”, como poderia ser “Banco de Crédito Real de Minas Gerais”, “Prolar S.A” etc. etc. E vamos e venhamos: – ninguém consegue chamar-se “Caixa Econômica” impunemente. Há entre o nome de um sujeito e o seu destino uma conexão inevitável. Napoleão teria que ter um destino napoleônico. E o nosso “Caixa Econômica” não poderia viver eternamente obscuro e eternamente humilde. O Fla–Flu foi a sua grande chance terrena.

Ao começar e até o encerramento da primeira etapa, o “Caixa Econômica” ainda permanecia ignorado, ainda permanecia inédito. E, súbito, na etapa final, surgiu a sua oportunidade napoleônica. Imagino que tenha ocorrido com o nosso herói uma crise de saturação. Cansou-se de ser um fósforo apagado dentro do jogo. Achou talvez abusivo que o campo fosse um espaço privativo dos jogadores e do juiz. E fez o que nenhum outro bandeirinha, jamais, teve o desplante de fazer: – entrou no campo e pôs-se a passear no gramado com uma soberana naturalidade. E, de repente, acontece o inconcebível: – uma tabelinha de um jogador rubro-negro com o “Caixa Econômica”!

Dizem que a bola bateu, simplesmente bateu, no fabuloso bandeirinha. Amigos, sejamos mais líricos e menos objetivos. Vamos admitir que o “Caixa Econômica” deu um passe que caiu como uma luva, ou melhor, como uma meia no pé de Henrique. Jamais Zizinho no apogeu, ou Jair, ou o divino Domingos da Guia conseguiram ser tão precisos, exatos, perfeitos. O estupor do Fluminense foi de tal ordem que o time parou, de ponta a ponta, e Henrique, vivíssimo, penetrou com furiosa velocidade. Dida recebeu a bola para marcar. Vejam vocês a trama diabólica: – “Caixa Econômica” – Henrique – Dida! O Fla–Flu continuou, mas a verdade é que o tricolor estava perdido. O que desintegrou meu time não foi bem o gol, mas a intervenção sobrenatural do “Caixa Econômica”.

A partir do momento em que se tornou o primeiro bandeirinha-artilheiro do universo, o meu personagem da semana conheceu a celebridade. Ontem, a sua simples presença no Vasco x Flamengo valorizou e dramatizou o clássico. O pânico da torcida cruzmaltina era que o “Caixa Econômica” apanhasse a bola, saísse driblando e marcasse para o Flamengo o gol da vitória.

Fonte: 
“À sombra das chuteiras imortais” (Companhia das Letras, 1993, organização Ruy Castro) 

2 comentários:

  1. E o famoso árbitro mineiro "Chiquinho Bola Nossa"?...

    ResponderExcluir
  2. Já passou por aqui...Veja no post "Nilton Santos e os homens de preto". abs

    ResponderExcluir