domingo, 4 de dezembro de 2011

A luz no fim do túnel corintiano



Aquele corredor o fez lembrar de outros tantos percorridos em sua carreira como jogador de futebol. Uma luz clara e forte no final fez ele se recordar das tardes de Pacaembu, Morumbi, Maracanã e a outras centenas de tuneis percorridos no mundo da bola. Ele só não conseguia ver exatamente a escada que o fazia chegar ao gramado. Caminhava de maneira elegante e de forma lenta, como sempre fora o seu estilo.

A cada passo que dava, não conseguia escutar o barulho ensurdecedor da torcida corintiana que sempre o recepcionou. Em seu lugar, ouviu um zumzumzum forte, algo parecido com uma reunião com muitas pessoas.

Estava meio “sonado”, como se estivesse acordando naquele momento. A cada novo passo conseguia recordar de forma fragmentada o que havia acontecido com ele havia poucas horas. Estava de relógio, ergueu o pulso e viu que o dia estava quase amanhecendo. Sua mente ficou confusa. Onde estava? E os médicos que o rodeavam, para onde foram?

De repente, ouviu uma voz vinda da luz. Mais alguns passos e ele descobriria de quem era aquela figura de estatura bem baixa contornada por uma silhueta. O pequeno homem esforçou-se ficando na ponta dos pés para conseguir abraçá-lo. A voz rouca, com sotaque meio “italianado” era inconfundível, pelo menos para ele que o conheceu quando já era um ídolo do Corinthians. Luizinho, o pequeno polegar, craque corintiano da década de 1950, um dos maiores ídolos da Fiel torcida, falou baixo em seu ouvido:

– Bem-vindo Magrão.

Sócrates olhou direto em seus olhos, apertou seus braços como se quisesse se certificar de que ele era de carne e osso.

– Sou eu mesmo, Doutor. Não se preocupe, aqui as coisas são bem mais fáceis do que lá embaixo.

Ele já entendia onde estava. Sem perder tempo, o anfitrião Luizinho tratou de caminhar ao seu lado até romper a luz que saturava seus olhos. Era uma imensa sala, completamente branca, e apenas um objeto parecido com uma enorme bolha transparente no centro. Continuou caminhando com o pequeno polegar que começou a apresentá-lo aos outros ilustres convidados que estavam ali, não apenas para recebê-lo e dar boas vindas. Apertou as mãos de outras verdadeiras lendas corintianas como Baltazar, Neco, Cláudio e até mesmo uma figura que ele conhecia muito bem, Vicente Matheus.

Carinhosamente, Luizinho puxou uma cadeira para ele se acomodar. Olhava para todas aquelas figuras históricas e pensava que não merecia tamanha homenagem pela sua chegada ao mundo desconhecido dos mortais. Passou a ficar mais a vontade quando quase todos eles disseram:

– Bom Magrão, senta logo porque o jogo vai começar.

E outro emendou de primeira:

– Que dia para chegar por aqui em Doutor? Mas é bom, porque daqui, e ainda com você junto, a gente pode dar aquela forcinha pro nosso Timão. Senta logo que o jogo vai começar.

Seus olhos brilharam com a imagem que via a sua frente. Como num passe de mágica, a imensa bolha transparente se abriu revelando uma vista aérea cinematográfica do estádio do Pacaembu lotado, como a que ele já havia visto muitas vezes nas transmissões feitas pela televisão.

Até ali, o clima era de tensão, rostos apreensivos. Lá embaixo, o juiz da partida está pronto para apitar o início da decisão do jogo entre Corinthians e Palmeiras. Antes, ele resolve fazer uma pergunta que arrancou risos de seus novos amigos:

– Aqui teria uma cervejinha...

Não teve tempo nem para ouvir a resposta porque a bola começou a rolar.

Levou o primeiro “psiu” e nem conseguiu terminar de perguntar quando quis saber se dali não poderia saber o resultado do jogo, se o seu Corinthians seria campeão ou não. Pensou consigo mesmo que havia poucas horas estava sofrendo no leito de um hospital e já que estava do outro lado da vida bem que poderia evitar mais 90 minutos de angústia. Mas percebeu que o corpo já não sentia as dores que tanto o incomodaram nas últimas semanas entre os mortais.

Com os olhos grudados na bola que rolava no Pacaembu ele sofreu como os 30 milhões de corintianos vivos na Terra durante os 45 minutos iniciais. Não conseguiu pular da cadeira para gritar uuuuuh, pelo menos uma única vez para algum lance de gol que não aparecia. Olhava para os lados e via Luizinho reclamando do nervosismo da equipe, de Claudio dizendo que o time estava sem meio de campo...

Quando o juiz apitou o final do primeiro tempo, alívio no céu. Olharam-se todos, franzindo o cenho um para o outro, como se dissessem que o time não estava bem.

Pior ainda era saber por um anjo emissário carioca, que o Vasco estava ganhando do Flamengo por 1 a 0.

Ali, onde estavam, não precisavam clamar por Deus, porque sabiam que as questões divinas só se aplicavam ao mundo da vida terrena.

Começa o segundo tempo e o nervosismo volta ao céu e na terra...

O time parece melhor, mais ligado. De repente, todos gritam:

– Olha lá Magrão, é você, voando como um anjo suspenso por balões.

Bexigas amarradas sustentam um desenho enorme de Sócrates. 

Como se estivesse ajudando ao Corinthians, o anjo emissário carioca entra na sala gritando:

– Gol do Flamengo.

Dez minutos depois ele viu o goleiro Julio César levantar as mãos exatamente para onde estavam reunidos os heróis alvinegros. Bola na trave.


De repente, lá de cima, ele viu o técnico corintiano, que adora filosofar, olhar para ele, como se pedisse uma ajuda. Faltam poucos minutos para o jogo terminar, o título que está próximo a ser conquistado.

O jogo está terminando e sua vontade de recém chegado ao céu é poder voltar, abraçar aqueles que certamente estariam ao seu lado lá embaixo.

O jogo terminou, o Corinthians foi campeão e agora sua luz estará brilhando e iluminando tudo aquilo que ele sempre amou.

Salve, Doutor !

Obrigado, Magrão !

                                                                          Amém, Sócrates !

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