quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Gilka: uma mulher à frente do seu tempo


E ainda há os que dizem que a literatura sobre o futebol é fenômeno recente. Em 1938, quando o Brasil projetou definitivamente seu nome no cenário internacional do futebol por conta do terceiro lugar obtido na Copa do Mundo de 1938, disputada na França, até mesmo uma das maiores poetas que o país tinha naquele momento escreveu sobre o tema. Trata-se de Gilka Machado, eleita em 1933, pela prestigiada revista O Malho, “a maior poetisa do Brasil”, escolha feita entre 200 intelectuais brasileiros. Neste ano, coube a uma mulher, Gilka, numa sociedade extremamente machista, escrever o poema “Aos heróis do futebol brasileiro”, uma ovação aos jogadores que estiveram muito próximos de conquistar um título mundial.

Gilka estava à frente de seu tempo e por causa de seus versos considerados “escandalosos” para a época entrou para a história da poesia brasileira. O sangue de artista, estava em suas veias. A mãe, Thereza Christina Moniz da Costa foi atriz de teatro e rádio-teatro; e Heros, sua filha, foi bailarina famosa além de pesquisadora das danças nativas brasileiras. Ainda em sua família, existiam poetas e músicos famosos.

A iniciação na poesia começou cedo, na infância. Com apenas 13 anos ganhou o concurso organizado pelo jornal A Imprensa. Mas foi em 1915 que ela entraria definitivamente para o cenário nacional com a publicação de sua primeira obra-prima, “Cristais partidos”.

Por conta dos versos que mostravam explicitamente suas sensações, emoções e desejos eróticos, foi transformada em porta-voz das mulheres de sua época, período em que a crítica moralista e conservadora imperava no País.

Gilka Machado entrou para a história da poesia brasileira como fonte de resistência à situação de alienação da mulher. Uma mulher para ser lida sempre...

Ela morreu em 1980 e um ano antes recebeu da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis pela publicação do volume de suas “Poesias completas” e nele que se encontra essa verdadeira preciosidade para a história da literatura sobre o futebol brasileiro.


Aos heróis do futebol brasileiro


Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!

As almas dos brasileiros

distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.


Que obra de arte ou de ciência,

de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!

Que obra de arte ou de ciência

conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?


Ha milhões de pensamentos

impulsionando vossos movimentos.

Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.



Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.


Fonte:
“Poesias completas” (Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991)

E para saborear ainda mais os versos da grande poetisa brasileira, Gilka Machado, um poema inesquecível:

REFLEXÃO


Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.


Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...

Mais sobre Gilka Machado:

Gilka da Costa de Melo Machado (Rio de Janeiro RJ 1893 - idem 1980). Publicou seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, em 1915. Na época, já era casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado. No ano seguinte, ocorreu a publicação de sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 saiu Estados de Alma; seguiram-se  Poesias, 1915/1917 (1918); Mulher Nua (1922), O Grande Amor (1928), Meu Glorioso Pecado (1928), Carne e Alma (1931). Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville. Em 1933, Gilka foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro. Foram lançadas, nas décadas seguintes, suas obras poéticas Sublimação (1938), Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1968). Suas Poesias Completas foram editadas em 1978, com reedição em 1991. Poeta simbolista, Gilka Machado produziu versos considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo.  Para o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, ela foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma?

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