sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ferreira Gullar e o futebol



Se você, que gosta da literatura esportiva e costuma pesquisar temas ligados a ela, com certeza encontrará milhares de citações sobre a palavra “Gol”. Entre tantas páginas disponíveis na rede (e não é a bola na rede), aparece também um famoso poema do craque-poeta maranhense Ferreira Gullar, “O Gol”, Prêmio Camões de 2010. Tantas citações justificam-se. Uma obra-prima:

A esfera desce / do espaço / veloz / ele a apara / no peito / e a pára / no ar / depois / com o joelho / a dispõe a meia altura / onde / iluminada / a esfera espera o chute que / num relâmpago / a dispara / na direção / do nosso / coração.

Crédito arte:
http://piscoiso.blogspot.com
Contudo, entre milhares de citações sobre o belo poema de Ferreira Gullar, quase ninguém fala sobre a ligação do poeta com o futebol. Literatura na Arquibancada então, curioso como sempre, foi atrás e partiu pela referência mais óbvia que poderia ter. Ferreira Gullar é vascaíno declarado, por isso, seria quase evidente que sites ligados aos torcedores do time da cruz de malta tivessem a nossa mesma curiosidade.

E está lá, faz bom tempo, uma entrevista sensacional feita pelo site
www.semprevasco.com. que por sinal, o Literatura na Arquibancada recomenda aos torcedores vascaínos de todo o País. Está aí também, nesta entrevista, a explicação do próprio poeta sobre o poema tão citado e explorado na internet. Mais do que isso, revelações importantes, como a citação quase “perdida” sobre um de seus grandes ídolos no futebol em um de seus mais conhecidos versos, “Poema Sujo”. Quer mais: Ferreira Gullar jogou ao lado de um dos maiores craques do futebol brasileiro, Canhoteiro.

Além da entrevista que você lerá abaixo, não deixe de acessar o conteúdo produzido por essa galera. Na seção “famosos” há outras pérolas imperdíveis...

Por: www.semprevasco.com

Gullar costumava freqüentar os estádios de São Luís, nos ombros do center forward Newton Ferreira e acompanhar os jogos pelo rádio, antes de o eletrodoméstico ser expulso pela tevê, da sala para a cozinha. "Sou vascaíno desde os 10 anos de idade", conta esse apaixonado por futebol, que tem a obra iluminada pelos campos de várzea do seu Maranhão. Coloquial, bem-humorado e com inteligência cada vez mais afiada, analisa o esporte e a influência lusitana dentro do universo cultural brasileiro. Ferreira Gullar demonstra que a poesia não é alheia a nada da vida. Muito menos ao futebol.

Como você passou a se interessar por futebol?
Meu pai era amigo do jogador Newton Ferreira, que cito no Poema Sujo [num verso sobre o desaparecimento das pessoas no mundo, Gullar escreve que "(...) de Newton Ferreira, ex-center forward da seleção maranhense, não há nenhum traço (...)'']. Ele jogava no Luso-Brasileiro, nas décadas de 1920 e 1930, tinha uns 20 e poucos anos.

Uma vez, me contou uma história de que veio ao Rio nos anos 1930, como integrante da seleção maranhense que jogaria com a carioca. E a seleção foi recebida por Washington Luís, tá entendendo? Eles jogaram e perderam de 9 a 0. Isso, depois de almoçar com o presidente da República!

Foi com ele que você aprendeu a jogar bola?
Ele foi comerciante na Rua da Alegria, perto da nossa casa. E me carregava nos ombros para os jogos nos estádios. Comecei a jogar futebol garoto, na rua. E um de meus parceiros era o Canhoteiro [José Ribamar de Oliveira, temível ponta-esquerda que jogou pelo São Paulo e pela Seleção Brasileira], filho de um barraqueiro que vendia mingau no Mercado Novo, onde meu pai tinha uma quitanda. De manhã cedo, quando eu ia pro colégio, tomava mingau de milho ou arroz ali, antes de pegar a condução, em frente ao mercado, que me levaria para a Escola Técnica.

Vocês jogavam juntos?
É, nós jogávamos bola numa área cimentada desse mercado, onde os caminhões deixavam as mercadorias, e que ficava livre boa parte do tempo. A gente usava umas bolas de borracha. E a vocação é indiscutível, tá entendendo? Ele [Canhoteiro] era um gênio! Fazia o diabo com a bola e driblava todo mundo, com um toque de bola no pé e outro, no chão. Era impossível tomar a bola dele.

E como você jogava?
Eu era um perna de pau. Joguei, depois, no Sampaio Correa, no infantil e no juvenil, até que me deram um chute na bunda que doeu pra burro. Parecia que tinham me quebrado. Sai na hora certa.

E continuou como torcedor?
É, ia aos jogos, já rapaz. Havia dois estádios em São Luís: o campo do Maranhão Futebol Clube, que ficava na Rua do Passeio e era uma das principais atrações da cidade - lembro que ele tinha um muro muito grande; e o outro, ficava na continuação da Fabril, uma fábrica que tinha lá. Naquele tempo, eu ignorava que me tornaria poeta. Achava que todos os poetas já tinham morrido. Antes de me meter nesse negócio, eu tinha meus companheiros de futebol, como o Esmagado e o Espírito da Garagem da Bosta.

Quem?! [risos]
Em frente à nossa casa tinham dois garotos que consertavam bicicletas e motos, com quem todo mundo se dava. Um deles era o Maninho, que depois virou o Espírito da Garagem da Bosta. O pai deles era barbeiro. Um dia, o Maninho fez uma estripulia e foi se esconder na garagem. Como era bem pretinho, quando o irmão foi procurá-lo, só viu dois olhos brancos no meio daquele preto da garagem. Então, disseram que parecia alma do outro mundo. E Garagem da Bosta porque lá não tinha sanitário e os irmãos cagavam em cima de folhas de jornal e, depois, jogavam o jornal da bosta em cima da garagem. Foi assim que surgiu o Espírito da Garagem da Bosta [risos].

E o Vasco, como chegou até você?
Todo mundo tinha time de botão. E era botão mesmo, que a gente lixava para poder jogar. Especialmente os de paletó, tinham a borda mais saliente que atrapalhava o controle com a palheta. Então, a gente tinha de ficar tirando aquele ressalto para a palheta atender ao comando e o botão correr direito. Meu pai ouvia os jogos pelo rádio, o que era bem usual. E também comprava uma revista do Rio - acho que se chamava Vamos Ler - que publicava, a cada duas semanas, uma reportagem sobre um time de São Paulo ou do Rio. Quando preparei meu novo time de botão, saiu uma edição que falava sobre o Vasco, vinha com sua história e uma síntese do que estava ocorrendo no Campeonato Carioca. Coincidiu. "Bom", pensei, "então meu time vai ser o Vasco". Peguei a lista dos jogadores e botei seus nomes no meu time de botão. Até bem pouco tempo, me lembrava de cada jogador.

Era comum todo mundo no Norte e no Nordeste do país torcer por um time do Rio e de São Paulo, não?
Todo mundo torcia. Na minha roda, tinha quem torcesse pelo Palmeiras, São Paulo e Vasco. A gente torcida pelo Sampaio Correa ou o Maranhão Esporte Clube, mas também por um time do Rio ou de São Paulo. A simpatia, no meu caso, era porque meu pai simpatizava com o Vasco. Ele era filho de portugueses e minha avó já veio ao Brasil com ele na barriga.

A influência portuguesa é muito forte no Maranhão?
Muito. Porque o Maranhão foi fundado em 1612 por franceses, mas como São Luís ficava mais perto de Portugal do que o Rio de Janeiro, a colônia portuguesa foi muito grande por lá. Os grandes escritores brasileiros costumavam estudar Direito em Coimbra, como Gonçalves Dias e Odorico Mendes. O igualmente maranhense Francisco Sotero dos Reis escreveu a primeira gramática da língua portuguesa editada no Brasil e deu uma nova cara à inteligência brasileira, ao escrever sobre a Setembrada e a Balaiada, revoluções ocorridas no Maranhão. Seus textos são o início dos estudos sociológicos no Brasil. Então, a ligação entre o Maranhão e Portugal era muito grande, tanto que o Estado tentou resistir à independência e Caxias teve de ir pra lá sufocar a rebelião.

Quando você veio para o Rio de Janeiro, continuou a torcer pelo Vasco?
Fiquei muito tempo ligado ao Vasco. Em 1951, cheguei ao Rio e vi muitos jogos no Maracanã, que era um estádio recente. Na Copa de 1950, ainda não estava concluído, ouvi aquela tragédia pelo rádio. Depois, casei com uma carioca e ela contou que foi ao jogo e assistiu àquela tristeza. Fui mais algumas vezes ao Maracanã, mas depois, com minhas ocupações como poeta e crítico de arte, acabei me afastando cada vez mais. Ia esporadicamente, mas passei a participar de uns almoços, aos domingos, com artistas discutindo exposições.

Chegou a ter camisas do Vasco?
Nunca. Não lembro de ninguém ter camisas naquele tempo. Isso veio com a televisão.

E como jornalista, você chegou a trabalhar com futebol?
Cheguei a trabalhar na Rádio Timbira do Maranhão como locutor, mas não de futebol. Uma vez, não sei por que razão, fui destacado para acompanhar a equipe que fez a transmissão de um jogo. O speaker era uma especialização [emposta a voz]: "Royal Briard, o perfume que deixa saudades." Mas aí, eu percebi o seguinte: o cara narrava o jogo atrasado, porque se o cara fosse mais rápido do que o jogo, ficaria sem ter o que falar. E ele não pode parar. Então, narra atrasado.

Por que você escreveu O Gol, dedicado ao futebol?
Foi um pedido daquele menino, o Elio Gaspari. Ele me telefonou porque pretendia dedicar uma coluna ao futebol e queria publicar poemas com o tema. Expliquei que nunca tinha feito poema específico para o futebol, pedi um tempo e que depois me ligasse. E pensei em escrever um poema sobe momento decisivo do futebol. E qual é? O gol. Esse poema não tá em livro algum meu. Fiz o poema e perdi o texto. Fui achar muito tempo depois, na coluna impressa.

                                                                           ******

Literatura na Arquibancada também encontrou no blog de Maranhão Viegas, do Maranhão, terra natal do poeta, outra obra prima, escrita pelo próprio Ferreira Gullar. O texto tem o título, "Craques da Minha Vida" e pode ser acessada pelo endereço:
http://maranhaoviegas.blogspot.com/2010_05_01_archive.html


CRAQUES DA MINHA VIDA

Sou filho de um antigo centroavante do Luso Brasileiro Futebol Clube, que foi tantas vezes campeão maranhense. Ele se chamava Newton Ferreira, e foi na qualidade de craque da seleção maranhense que, em 1929, conheceu o Rio de Janeiro, um ano antes de nascer o seu filho José, ou seja, eu, também conhecido como Periquito.

Disputava-se o Campeonato Brasileiro, e a seleção maranhense, campeã do Norte e Nordeste, veio ao Rio enfrentar a seleção carioca. Foi recebida, no palácio do Catete, pelo presidente Washington Luís e, no dia seguinte, adentrou o gramado disposta a vencer. Mas perdeu: perdeu para os cariocas de 9 a 0 e saiu de campo debaixo de vaias e sob uma chuva de chupas-de-laranja.

Isso foi meu pai mesmo que me contou, muitos anos depois, quando o trouxe ao Rio para tratar da saúde. Talvez tenha sido dele que herdei esta disposição para rir de mim mesmo. Ele ria da derrota e eu ria com ele.


Mas minha relação com o futebol não se limita a isso, já que, sem o mesmo talento que ele, joguei no infantil do Ferroviário Futebol Clube, sem contar as peladas no Campo do Ourique, em frente ao Mercado Novo. Bem, já então Newton Ferreira abandonara o futebol e se tornara um pequeno comerciante, mas ainda me levava para assistir, aos domingos, às partidas do Luso.

Minha carreira futebolística terminou quando sofri uma violenta rasteira e caí de bunda no chão. Temi ter quebrado o espinhaço e vi que seria melhor dedicar-me a esporte menos brabo; a poesia, por exemplo.

Troquei a rua pelo quarto, onde agora passava os dias lendo, enquanto meus companheiros de pelada seguiram seu rumo. Dois deles se tornaram craques de futebol, amados das respectivas torcidas: Esmagado, que fez sua carreira lá mesmo em São Luís do Maranhão, e Canhoteiro, que se tornou ídolo da torcida do São Paulo.


Quando, aos 21 anos, me mudei para o Rio de Janeiro, já os tinha perdido de vista e quase me esquecera do futebol -eu, que era vascaíno doente, que pusera o nome do Vasco em meu time de botão.

Muito anos depois, numa das minhas idas a São Luís, reencontrei Esmagado, já fora do futebol, mas admirado pelos fãs. Passeamos juntos pelas ruas da Madre-Deus, num sábado à noite, quando pude ver como o povão o admirava e se aproximava de nós para abraçá-lo e conversar.

De Canhoteiro, tive notícias através dos jornais: era chamado de "o Garrincha do Morumbi", tão sensacionais eram os dribles que dava nos adversários, com o mesmo espírito moleque das peladas de infância. Jogou na seleção brasileira e conquistou legiões de fãs, entre os quais o menino Chico, filho de Sérgio Buarque de Holanda.


Certo domingo, pela televisão, o vi jogar. Mal acreditei: ali estava, com as mesmas gingas, o Canhoteiro das partidas em frente ao Mercado Novo. Nesse mercado, o pai dele, seu Cecílio, tinha uma banca onde vendia mingau de milho e tapioca. Era lá que, todas as manhãs, bem cedo, quebrava o jejum antes de seguir para o colégio.

Ele não via com bons olhos aquela obsessão do filho pelo futebol. Queria que o filho estudasse, em vez de jogar bola. "O que vai ser desse menino quando crescer? Vai terminar vendendo mingau no mercado que nem eu?"

Newton Ferreira procurava tranquilizá-lo: "Nada disso, seu Cecílio, o menino vai ser um craque da bola. Ouça o que estou lhe dizendo". Mas é que, naquela época, ser um craque da bola no Maranhão, em matéria de grana, não queria dizer grande coisa. "Você foi um craque e acabou quitandeiro. Quero que meu filho seja doutor, seu Ferreira, isso o que eu quero", dizia Cecílio.


Canhoteiro já era gênio aos dez anos de idade. Prendia a ponta da camisa na mão, enfiava dois dedos na boca (ele ainda chupava dedo) e saía driblando todo mundo com extraordinária habilidade. Tive, assim, a glória de trocar passes com ele, muito antes que a fama o coroasse.

Um dia confidenciei a um cronista esportivo -se não me engano, ao Armando Nogueira- que tinha sido colega de infância de Canhoteiro, e ele logo pensou em promover um encontro de nós dois, na primeira oportunidade que o São Paulo viesse jogar no Rio. O encontro não houve, mas, quando falou de mim a Canhoteiro, este exclamou:
-Não me diga, o Periquito virou poeta?!



Para saber mais sobre Ferreira Gullar, acessar: http://www.releituras.com/fgullar_bio.asp

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