terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Cesar o que é de Cesar

 
Ontem, segunda-feira aconteceu a cerimônia de entrega do prêmio Brasil Olímpico 2011, no Rio de Janeiro. E lá estava presente uma mulher que nunca correu, nadou ou jogou esporte algum, mas para sorte do esporte olímpico, ela é a guardiã da história de muitos personagens que, ontem mesmo foram premiados, e de todos os outros que um dia, ganhando ou não uma medalha, defenderam o Brasil em uma Olimpíada. No texto abaixo, publicado em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/2011/a-cesar-o-que-e-de-cesar/, toda a sensibilidade da psicóloga do esporte brasileiro, Dra. Katia Rubio.


A Cesar o que é de Cesar

É fato: tenho problemas com essa época de final de ano. Não gosto dessas confraternizações forçadas, amigo secreto com quem não é seu amigo, votos de felicidades e sucesso de quem te apunhalou pelas costas durante os últimos 12 meses e, mais cruel, a necessidade de se fazer balanços. Tudo bem que o ano fiscal acaba em dezembro, mas todo mundo resolve fazer retrospectos, cenas dos melhores momentos, balanços de todas as ordens, homenagens e outros que tais. E aí, chega no dia 1 de janeiro vem aquele rosário de promessas de ano novo que quase nunca são cumpridas. Mas isso é um problema meu.

Este ano as coisas parecem ser um pouco diferentes. Não montei árvore de natal em casa… pura falta de tempo. Em pleno dia 19 de dezembro estou no Rio de Janeiro coletando dados da minha pesquisa, mesmo sob protestos da minha família que me queria em almoços, comemorações, confraternizações… Fazer o que! Ossos do orifício! E aproveitando mais uma passagem pela Cidade Maravilhosa compareci à entrega do Prêmio Brasil Olímpico 2011. Festa bonita para quem merece todas as homenagens: os atletas! O tema desse ano foi A Jornada do Atleta. E como em anos anteriores foram homenageados todos os atletas que mais se destacaram em suas modalidades, bem como um técnico de modalidade individual e outro de coletiva.

Fabiana Murer
Anunciado desde o começo da cerimônia o título de melhores de ano geral, um homem e uma mulher, ficou para o final, como era de se esperar. Só lamento que até na entrega de prêmio por mérito só haja uma colocação. Olhando para o trabalho e esforço de cada um minha vontade era de atribuir outros vários prêmios àqueles que se destacaram, não apenas por seus resultados, mas pelo “conjunto da obra”, quero dizer superação de adversidades, dificuldades, fossem elas da natureza que fossem. Afinal, cada um ali, a seu modo, do seu jeito, carrega as características do herói. Foram para a grande final quatro atletas incontestáveis: Fabiana Murer e Fabiana Beltrame, Emanoel e Cesar Cielo. Todos os quatro escreveram algumas linhas de façanhas esportivas neste ano. Todos eles realizaram conquistas internacionais elevando o esporte brasileiro alguns degraus acima do patamar anterior.

Fabiana Beltrame
Isso não é pouco para quem viu a primeira medalha de ouro em uma modalidade feminina individual ser conquistada apenas em 2008 ou ainda quebrar a hegemonia norte-americana e australiana em provas tradicionalíssimas como a natação. E, lamentando por Emanuel e Fabiana Beltrame, assisti a coroação de Fabiana Murer e Cesar Cielo como os melhores do ano. Claro que isso não foi uma grande surpresa por conta dos feitos desses dois grandes atletas. O que surpreendeu foi o que cada um teve a dizer depois de apresentados os resultados.

Fabiana não me pareceu surpresa. Já havia conquistado esse prêmio no ano passado e sua trajetória vencedora desse ano confirmou seu favoritismo. Agradeceu a todos, pessoas físicas e jurídicas, e saiu prometendo empenho para chegar a uma boa colocação nos Jogos Olímpicos de Londres, já no ano que vem.

Na seqüência Cesar Cielo começou agradecendo pelo prêmio e disse ter tentado várias vezes escrever algo para falar naquele momento, mas nada pareceu expressar completamente tudo o que ele passou no ano de 2011. A emoção o fez calar. É muito difícil dominar a voz quando as lágrimas correm para se chegar primeiro.

Nós que acompanhamos o esporte sabemos exatamente ao que Cesão se referia. Algumas semanas antes do mundial de natação em julho, um exame flagrou uma substância proibida na sua urina, levando-o a ser advertido e a ter que ser submetido a uma corte internacional que avaliou se a substância fora usada de forma intencional ou não.

Naquelas semanas de junho de 2011 vi de tudo pelos meios de comunicação, mais ou menos como aconteceu com a decisão de Santos e Barcelona. Observei experts dando veredictos duvidosos, corneteiros avaliando a relação substância X performance como doutores na matéria e também vi alguns profissionais, que de alguma forma, em algum momento tiveram contato com Cesar tentado prestar solidariedade e apoio, ainda que apenas moral. E após a confirmação do veredito Cielo foi para a piscina e conquistou aquilo que lhe era devido, mostrando ao mundo o profissionalismo no qual se fundamenta sua carreira, agindo com a maturidade e determinação de um sábio.

As lágrimas de hoje certamente estavam guardadas desde lá. Após o resultado do tribunal não havia tempo para elaborações, nem elucubrações. Por uma questão de honra era preciso mostrar dentro da piscina que aquilo tudo não passava de uma armadilha do próprio sistema, que muito bem poderia ter acabado com a sua carreira. E com a convicção de que nada havia sido feito de errado, a vitória e as medalhas se incumbiram de por as coisas em seus devidos lugares… aparentemente. Quem alguma vez na vida passou pelo constrangimento de ser acusado por um crime não cometido sabe o que Cielo sentiu naquelas semanas. A injustiça apunhala os sensíveis, é uma sangria que não estanca prontamente e como uma dor profunda, mesmo que diagnosticada a sua cura, ela ainda deixa as marcas do efeito moral mobilizado pela exposição pública e pela necessidade de se provar inocência. Ainda que a lei indique que somos todos inocentes até que se prove o contrário, temos assistido com freqüência nos últimos tempos o quanto de recursos e energia somos obrigados a mobilizar não apenas para nos defender de uma injustiça, mas também para provar nossa idoneidade construída com o trabalho árduo de muitos anos.

Claro ficou para nós, que estávamos assistindo a tudo, quanto choro e quanta angústia Cesar Cielo teve que engolir em 2011 para enfrentar as tantas provas, dentro e fora da piscina. Para mim o prêmio dele não foi apenas pelas medalhas e títulos esportivos conquistados. Foi antes de tudo, por sua batalha para se mostrar um atleta limpo e determinado. Que trabalha arduamente para chegar às marcas que tem e o faz com o espírito do artesão que a cada dia lapida um pouco mais sua peça buscando a perfeição. E consciente de seu papel e competência faz isso à exaustão porque quer estar entre os melhores, sem precisar fazer uso de meios ilícitos ou imorais. E sem ter vergonha de admitir que é um dos melhores do mundo.

Ao final de tudo Cesar encerrou seu discurso dizendo que aquele troféu era o carinho que ele precisa receber para mostrar que ele estava de volta.

Desculpe te corrigir, Cesão. Como é que você pode estar de volta se você nunca se foi? Posso imaginar que seu coração já deva estar tranqüilo agora que tudo acabou, que o ano chegou ao fim, que seus êxitos foram coroados com os prêmios merecidos pelo seu trabalho, que você está partindo com sua família para desfrutar de férias mais do que merecidas, mas principalmente porque sua inocência foi reconhecida e premiada.

Ah… como eu gostaria de ver outros Cesões no esporte brasileiro, com essa nobreza de caráter, com esse amor pelo trabalho e com essa determinação em ser melhor a cada dia.

Nessa noite nenhuma outra frase seria mais apropriada: a Cesar o que é de Cesar, ou seja, o direito a quem tem, e não a quem só o deseja. Parabéns Cesão. Que esse ano também possa te trazer boas lembranças por tudo aquilo que te foi possível aprender.

Sobre Katia Rubio:

Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.


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