quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Chico Buarque: paixão pela música e o futebol



19 de junho, aniversário de Chico Buarque. Em 2014, ele completou 70 anos de amor pela música e o futebol. De tanto falar sobre futebol talvez não exista um cidadão no mundo, isso mesmo, no mundo, que não saiba da paixão de Chico Buarque pelo futebol. No mundo porque não foram poucas as vezes que ele já se atreveu a mostrar seu dito talento como jogador “peladeiro”. Uma dessas vezes, aconteceu em 2006, na Copa da Alemanha quando ele integrou uma equipe de músicos e escritores brasileiros que jogou contra um combinado de jornalistas alemães. O jogo fez parte da Copa da Cultura, evento organizado pelo Ministério da Cultura brasileiro.

A paixão de Chico pela bola é incrível. Até tentou ser jogador profissional, quando arriscou um teste no Juventus, da capital paulistana. Sorte nossa que tudo deu errado e não perdemos o grande músico e compositor. Não podendo ser profissional da bola, Chico assumiu o lado “peladeiro”. Montou um time só dele, o famoso Polytheama, e até mesmo um campo, no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro, para receber os amigos e bater uma bola. Gente famosa do mundo artístico e também dos gramados já tentou enfrentar a turma de Chico.

Chico com a camisa do Polytheama
Apesar de tricolor carioca declarado, o grande herói de Chico Buarque no futebol chamava-se Pagão, centroavante santista, na década de 50. Ia aos estádios só para vê-lo jogar. A idolatria era tanta que, quando garoto, Chico costumava assinar súmulas dos jogos que participava com o nome do craque. Ganhou o apelido entre os amigos de “Pagão”. Já famoso, Chico realizou o sonho de jogar ao lado do ídolo do futebol. Levou-o para uma pelada em seu campo, no Polytheama.

Chico Buarque e seu maior ídolo no futebol, Pagão.
Mais do que tê-lo no coração, Chico também deixou em versos uma música que reverencia, não apenas Pagão, mas antigos craques do futebol brasileiro. A música “O futebol” (ver letra e vídeo abaixo) é uma “declaração de amor” de Chico Buarque ao futebol.

Em artigo escrito por Fernando Calazans, para O Globo, em junho de 2004 (vale a pena ler o artigo na íntegra em
http://www.chicobuarque.com.br/texto/artigos/artigo_globo16_0604.htm), o jornalista revela como o craque da música enxergava um jogo de futebol: Chico rejeita a jogada mais simples. Aprecia a firula, a graça, o rebuscamento, o drible de corpo - e já escreveu, em crônica para O GLOBO, na Copa do Mundo de 98, que ‘o drible de corpo é quando o corpo tem presença de espírito’"..

No livro “Futebol-Arte, A cultura e o jeito brasileiro de jogar” (Editora Senac, 1998), Chico deixa outro testemunho do quanto o futebol é importante na vida, dele e na de quase todo brasileiro:

O que conta mesmo é a bola e o moleque, o moleque e a bola, e por bola pode-se entender um coco, uma laranja ou um ovo, pois já vi fazerem embaixada com ovo. Se a bola de futebol pode ser considerada a sublimação do coco, ou a reabilitação do ovo, o campo oficial às vezes não passa de um retângulo chato. Por isso mesmo, nas horas de folga, nossos profissionais correm atrás dos rachas e do futevôlei, como Garrincha largava as chuteiras no Maracanã para bater bola em Pau Grande. É a bola e o moleque, o moleque e a bola”.

Letra e vídeo da música “O futebol”, de Chico Buarque

Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei
Para tirar efeito igual
Ao jogador
Qual
Compositor
Para aplicar uma firula exata
Que pintor
Para emplacar em que pinacoteca, nega
Pintura mais fundamental
Que um chute a gol
Com precisão
De flecha e folha seca

Parafusar algum joão
Na lateral
Não
Quando é fatal
Para avisar a finta enfim
Quando não é
Sim
No contrapé
Para avançar na vaga geometria
O corredor
Na paralela do impossível, minha nega
No sentimento diagonal
Do homem-gol
Rasgando o chão
E costurando a linha

Parábola do homem comum
Roçando o céu
Um
Senhor chapéu
Para delírio das gerais
No coliseu
Mas
Que rei sou eu
Para anular a natural catimba
Do cantor
Paralisando esta canção capenga, nega
Para captar o visual
De um chute a gol
E a emoção
Da idéia quando ginga

(Para Mané para Didi para Mané Mané para Didi para Mané para
Didi para
Pagão para Pelé e Canhoteiro)

1989 © - Marola Edições Musicais Ltda.



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