sábado, 3 de dezembro de 2011

Aquele Deus, amigo das crianças



Uma pequena obra prima do jornalista e poeta Cassiano Ricardo sobre o futebol, publicada em um de seus principais livros, “Martim Cererê – Meninos, poetas e heróis”, de 1928, com diversas reedições.

MARTIM CERERÊ - Jogador de Futebol

O pequenino vagabundo joga bola
e sai correndo atrás da bola que solta e rola.
Já quebrou quase todas as vidraças
Inclusive a vidraça azul daquela casa
onde o sol parecia um arco-íris em brasa.
Os postes estão hirtos de tanto medo.
(O pequenino vagabundo não é brinquedo...)
E quando o pequenino vagabundo
cheio de sol, passa correndo entre os garotos,
de blusa verde-amarela e sapatos rotos,
aparece de pronto um guarda policial,
o homem mais barrigudo deste mundo,
com os seus botões feitos de ouro convencional,
e zás! carrega-lhe a bola!
“Estes marotos
precisam de escola...
O pequenino vagabundo guarda nos olhos,
durante a noite toda, a figura hedionda
do guarda metido na enorme farda
com aquele casaco comprido todo chovido
de botões amarelos.
E a sua inocência improvisa os mais lindos castelos;
e vê, pela vidraça,
a lua redonda que passa, imensa,
como uma bola jogada no céu.
“É aquele Deus com certeza,
de que a vovó tanto fala.
Aquele Deus, amigo das crianças,
que tem uma bola branca cor de opala
e tem outra bola vermelha cor do sol;
que está jogando noite e dia futebol
e que chutou a lua agora mesmo
por trás do muro e, de manhã, por trás do morro,
chuta o sol ...


Sobre Cassiano Ricardo
Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos SP 1895 - Rio de Janeiro RJ 1974). Poeta, ensaísta e jornalista. Passa a infância na Fazenda Vargem Grande, de propriedade de seus pais. Faz o curso primário em sua cidade-natal e o ginasial em Jacareí, São Paulo, mudando-se para a capital paulista, em 1912, para estudar na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Estréia com o livro de poemas Dentro da Noite, em 1915. Alinha-se aos modernistas, em 1922, organizando os grupos Anta e Verde-Amarelo, com os escritores Menotti del Picchia (1892 - 1988), Plínio Salgado (1895 - 1975), Cândido Motta Filho (1897 - 1977) e Raul Bopp (1898 - 1984).  Um claro exemplo das tendências partilhadas pelos grupos que integra pode ser encontrado no ensaio Marcha para o Oeste: a influência da Bandeira na formação social e política do Brasil, publicado em 1940, no qual expõe suas idéias ultranacionalistas. É eleito para a Academia Brasileira de Letras - ABL, em 1937, e, três anos depois, assume no Rio de Janeiro a direção do jornal A Manhã, órgão oficial do Governo Vargas, além de criar o suplemento literário Autores e Livros. Sua obra se desdobra em diversas tendências, ao longo da vida: depois da fase modernista, cujo ápice é o livro de poemas Martim Cererê, de 1928, funda, em 1948, o Clube da Poesia de São Paulo, que edita os livros da chamada Geração de 45, à qual adere. Na década de 1960, assume os pressupostos do movimento concretista e mais tarde os do praxismo.


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