domingo, 4 de dezembro de 2011

Sócrates: o filósofo e doutor da bola


Por André Ribeiro

Ele não exerceu a medicina nos gramados, mas tornou-se o médico mais famoso desde que o futebol brasileiro começou a ser praticado no Brasil. E agora, em 19 de fevereiro de 2014 estaria completando 60 anos.

Sócrates, o nosso “Magrão”, digo nosso, porque sou corintiano, partiu na madrugada do dia 4 de dezembro de 2011. Deixou-nos fisicamente, claro, porque entre nós ficará seu legado da luta e posicionamento firme nas questões que envolvem o homem, no futebol, e, principalmente, na vida, como cidadão. Os puristas, nos dias de internação do jogador, espalharam a hipocrisia pelos quatro cantos criticando suas posturas fora dos gramados, quando, de cabeça em pé, admitiu o alcoolismo. Sócrates viveu a vida e ponto.

Esse mesmo homem que muitos criticaram, foi entrevistado pelo escritor britânico Alex Bellos para o livro “O Brasil em Campo”, tradução de “The Brazilian way of Life” (Editora Jorge Zahar, RJ, 2002). O texto abaixo que o Literatura na Arquibancada apresenta, foi editado, pois o capítulo exclusivo ao “Doutor” da bola e da vida, é bem maior. Mas aí está um bom “espelho” do que Sócrates, o pensador da bola, deixou como reflexão para nós que ficamos.

Aqui, no Literatura na Arquibancada você pode conferir também outro livro sobre Sócrates:


E a conferir, a biografia assinada por sua esposa, Katia Bagnarelli, mas realizada de fato pela biógrafa Regina Echeverria: "Sócrates Brasileiro: minha vida ao lado do maior torcedor do Brasil (Ed. Prumo). Neste link você pode acessar uma entrevista da autora sobre esse livro:







Diálogo socrático

Se o futebol brasileiro em seu apogeu é o ideal platônico do jogo, nada mais razoável que a última vez em que o Brasil jogou seu melhor futebol tenha sido sob o comando de um homem com o nome do mestre de Platão.

Sócrates foi capitão da seleção na Copa de 1982. Com expressão pensativa, passada aristocrática, barba preta encaracolada, cabelos despenteados e olhos escuros, ele parecia mesmo mais um filósofo do que um atleta. Seu estilo de jogo também sugeria uma autoridade moral. Mantinha-se sempre frio, raramente dando mostras da exuberância “brasileira”, nem quando marcava um gol. Não era um caso de velocidade ou de força (seus pés, tamanho 41, eram pequenos para sua altura, 1,91m), mas de visão, passes inteligentes e truques. Sua marca registrada era o calcanhar. Pelé disse que Sócrates jogava melhor para trás do que muitos jogadores jogavam para a frente.

Ao lado dele em 1982 estavam Zico e Falcão, um meio-campo dos mais fortes que já vestiu a camisa canarinho. O time foi derrotado pela Itália por 3x2, ou mais precisamente por Paolo Rossi, que marcou todos os gols italianos. Apesar de não ter ganho o título, a turma de 82 é lembrada com mais carinho do que qualquer outra desde 1970 – muito mais, sem dúvida, do que os campeões de 1994, quando a vitória teve um gostinho amargo pelo fato de o time ter jogado defensivamente e vencido a final nos pênaltis. Em 1982, o Brasil era Brasiiiiiil; parecia jogar por puro divertimento.

Lembro de Sócrates nas copas de 1982 e 1986 mais vividamente do que qualquer outro jogador brasileiro. Quando vim para o Brasil, aprendi logo que também era igualmente excepcional por suas atividades extracampo. Passou a ser o jogador que eu mais queria conhecer. Sócrates iniciou sua carreira no futebol quando estudava medicina. Depois de pendurar as chuteiras, retomou os estudos, formou-se e abriu uma clínica multidisciplinar de medicina esportiva em Ribeirão Preto. Seu apelido é “Doutor”.

Porém, o mais importante, Sócrates era um militante. Conseguiu politizar o futebol de um modo que o Brasil jamais havia visto. Jogadores geralmente são das classes trabalhadoras, pobres e sem acesso à educação. O Doutor foi um garoto de classe média brilhante que incutiu seu idealismo esquerdista em seus colegas e acabou assumindo um papel no desdobramento dos destinos políticos de seu país.

Quando quis conversar com um “expert” sobre a situação do futebol brasileiro, raciocinei que Sócrates seria um excelente oráculo. Provavelmente não existe ninguém mais qualificado.

(...)

Sócrates é conhecido por sua independência. Fala o que quer quando quer. Nunca teve um empresário. Se você quiser falar com ele é só ligar para seu celular, que atende pessoalmente. Combinamos um almoço num bar de São Paulo. Quando chego, o bar está quase vazio. Sócrates está sentado sozinho, usando um par de óculos espelhados e com um cigarro numa das mãos. Tem um chope com colarinho na mesa à sua frente. Dá mais impressão de um roqueiro envelhecido do que de um antigo astro do esporte. Tem o cabelo preto cortado curto. Sua barba, apesar de aparada, permanece resolutamente desgrenhada e já meio grisalha.

Eu me apresento. Sócrates tem uma voz grave de fumante e o sotaque do interior paulista. Como um bom brasileiro, me dá as boas-vindas como se eu fosse um velho amigo. Uma vez tendo começado a falar, não pára mais.
Então, Doutor, pergunto, qual é o seu diagnóstico?
(...)

O futebol mudou, começa Sócrates, porque o Brasil mudou. “O país se tornou basicamente um país urbano”, diz. “Antigamente, não tinha muito limite – você podia jogar bola na rua ou em qualquer lugar. Com as mudanças sociais e estruturais, é muito mais difícil ter espaços para isso atualmente. Então qualquer relação que você tenha com o esporte hoje tem algum tipo de normatização”.
(...)

Sócrates diz que o outro problema estrutural é que o futebol brasileiro ficou mais branco. Os negros, argumenta, têm maior aptidão natural. Mas você não é branco?, retruco imediatamente.
“Na verdade tem um negro dentro de mim”, provoca. Sócrates ri com os dentes fechados. É bem-humorado e sensível ao longo de toda a entrevista. Faz graça de si mesmo sem nunca perder a seriedade.
(...)

“Eu sou branco mas tinha um nível de futebol para jogar. Isso nem sempre é verdade em nosso país. Privilégios podem existir em todos os níveis. Se tivermos uma relação pessoal ou política ou familiar, poderemos privilegiar essas pessoas em detrimento talvez da capacitação”.
(...) “Tive que desenvolver isso (jogar bem mesmo sendo branco) por necessidade. Eu sou um cara absolutamente a favor da criatividade. Não consigo fazer nada, não consigo ficar numa consultoria porque não tenho paciência, tenho que ir atrás de novidades. Isso faz parte de minha personalidade. E também joguei futebol e estudei medicina. Tinha que ser mais inventivo. Eu não tinha estrutura física para jogar futebol. Minha única qualidade plausível é a técnica. Então tive que desenvolver uma técnica incomparável. Caso contrário não poderia conviver nesse meio. Jamais poderia imaginar que chegaria a uma seleção brasileira. Se não tivesse estudado medicina eu seria um atleta mais limitado do que fui. Com certeza”.
(...)

Talvez seja minha pergunta mais juvenil. E com boa razão. Desde 1982, quando eu tinha 12 anos, sempre quis perguntar a Sócrates se seu nome influenciou seu caráter. Digo a ele que acho difícil dissociar o nome de seu estilo – tanto dentro quanto fora do campo.
Descubro que a pergunta faz mais sentido do que imaginei.
“O meu nome em si não faz ninguém”, responde. “Mas é óbvio que, pelo nome que escolheu para mim, dá para imaginar quem é o meu pai. Ele vivia dentro da biblioteca. Então eu vivia com ele lá. Lia pra cacete. E é essa experiência que ele passou, em particular a mim, que sou o mais velho dos irmãos”.
(...)

Você leu Platão?, pergunto.
“Claro. Leio filósofos pra cacete. Gosto do Platão, gosto do Maquiavel, muito do Hobbes. Depende da época, da sua cabeça, aonde você está indo...eu leio muito, não tudo, mas gosto muito de filosofia também”.


Em 1964, ano do golpe militar, Sócrates tinha dez anos. Um incidente acontecido dentro de casa despertou seu interesse pela política. No dia em que os militares tomaram o poder, seu pai pegou um livro na estante sobre os bolcheviques e queimou. “Eu nem sabia exatamente o que era, não tinha conhecimento do que teria sido a Revolução Russa, mas me chamou a atenção o ato. Me assustou”.
Isso plantou a semente das idéias esquerdistas de Sócrates. “Sou filho de um processo ditatorial”, diz. “Quando entrei na universidade, com 16 anos, comecei a viver isso: repressão dentro da universidade, colegas que tinham que se esconder, que tinham que fugir”. Seus preceitos éticos guiaram sua carreira no futebol (Platão teria ficado orgulhoso). Duas décadas antes que Aldo Rebelo e o Congresso brasileiro tentassem mudar o futebol, Sócrates fez isso do lado de dentro. Naquilo que mais parece um capítulo oculto da história da Grécia Antiga, Sócrates fundou um movimento de jogadores chamado “Democracia Corinthiana”.
(...)

Em 1984, aos 30 anos, ele discursou num comício para um milhão e meio de pessoas. Fez uma promessa à multidão: caso o Congresso aprovasse a emenda constitucional para o restabelecimento das eleições diretas para presidente, que seria votada alguns dias depois, ele desistiria de uma oferta que recebera para jogar na Itália. A emenda não foi aprovada, Sócrates foi para a Fiorentina, e a era da Democracia Corinthiana estava encerrada.
(...)

Os heróis de Sócrates são Che Guevara e John Lennon. “Pessoas de quem eu colocaria um retrato na parede de casa”, diz.
(...)

À medida que a entrevista vai chegando ao fim, fecho meu caderno com as perguntas preparadas. (...) Pergunto se ele tem orgulho de ser brasileiro. Ele diz que sim, definitivamente. “A cultura brasileira – essa miscelânea de raças, essa forma de ver o mundo e a vida – talvez seja a nossa maior riqueza. Porque ela é muito alegre, é muito pouco discriminatória, porque é livre...É uma zona na realidade, nosso país é uma grande zona, que na verdade é a essência da humanidade. Quando se organizou demais, a humanidade perdeu suas características mais básicas, os instintos e seus prazeres. Eu acho que é isso que a gente tem de melhor e é por essa razão que sou absolutamente apaixonado por este país”.

Sobre Alex Bellos

E escritor, radialista, filósofo e especialista em matemática, ciências e América do Sul. Seu livro "Alex no País dos Números" foi indicado ao Prêmio Samuel Johnson da BBC de não-ficção, e para o Galaxy National Book Award, sendo traduzido para 20 idiomas diferentes. Também é autor de "Futebol: The Brazilian Way of Life", obra frequentemente listada como uma das dez melhores sobre futebol. Não por acaso, Bellos também foi autor da biografia do eterno Rei Pelé.
Morou por cinco anos no Rio de Janeiro, de 1998 a 2003, como correspondente do jornal The Guardian.

9 comentários:

  1. Caro André:

    Que linda homenagem! Precisa como a vida cidadã cirúrgica do Doutor!
    Abraço,

    Darcio Ricca

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  2. Em 1984, ela tinha 30 anos, e não 30 como citado no texto!

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  3. 34.. fora isso linda homenagem em forma de um bom texto!

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  4. Anônimo15:28

    Très beau, comme le football de Sócrates et du Brésil anos 80.

    Jean-Pierre Bonenfant

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  5. Salve a Democracia no futebol!
    Ou Melhor: Salve Sócrates!
    E eu não troco "um", apenas um, Sócrates por mil Pelé!
    Saudades eterna.
    Beijo meu amigo.

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  6. Doutor Futebol Sócrates.

    Um guerreiro.

    Exemplo de atleta e cidadão.
    Lutou, dentro e fora das quatro linhas, para melhor a vida das pessoas, fosse atleta, fosse torcedor. Pena que se deparou com os omissos e covardes, que jamais lutariam pelo coletivo. E até hoje estão por aí vivendo das sobras dos holofotes midiáticos.

    Grande filósofo da realidade humana.

    Um abraço.

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  7. Corinthians Pentacampeão Brasileiro em 2011 em 04/12/2011 mediante um empate por 0 a 0 diante do Palmeiras, no estádio do Pacaembu, e garantiu a festa de aproximadamente 38 mil torcedores alvinegros.

    Nesta data a nação corinthiana comemora mais um título mas perde aos mais um ídolo, desta vez Sócrates que morreu aos 57 anos.

    Se me permite, vou deixar o link da comemoração deste título para quem quiser revê-lo e uma singela homenagem:

    http://www.youtube.com/watch?v=SeUOhuR_1Ik

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