quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As Mulheres e o Esporte Olímpico Brasileiro




Katia Rubio, uma das maiores estudiosas do esporte brasileiro, participou há três anos, em Brasília, de audiência pública na Câmara dos Deputados sobre o tema “A Mulher e o esporte”. O objetivo foi de instituir 2013 como o ano do esporte feminino no país. O ano em questão passou e pouca coisa aconteceu para mudar a realidade das "mulheres no esporte". Katia Rubio é autora, entre os vários livros publicados, de “As mulheres e o esporte olímpico brasileiro” (Casa do Psicólogo, 2011) e autora de um projeto espetacular de resgate da memória olímpica brasileira que, em breve, se tornará uma "Enciclopédia Olímpica Brasileira".



Heroínas olímpicas brasileiras
Por Katia Rubio
Fabiana Murer, atleta olímpica
Que a história das mulheres no esporte é uma grande aventura que mescla drama e emoção acima da média, ninguém duvida. Desde sempre essa situação envolveu luta por direitos, condições mínimas de igualdade e a superação do preconceito seja ele racial, econômico ou de gênero.
No caso do esporte brasileiro isso ganha colorido próprio em função das origens da constituição de nossa sociedade e do feminismo no Brasil. Sociedade patriarcal rural com suas tradições fincadas no poder masculino, como em boa parte do Ocidente e do Oriente, a alegação de que mulheres não podiam praticar esporte caía como uma luva para aqueles que desejavam vê-las cuidando do lar e dos filhos. Vários estudos apontam que o acesso ao esporte feminino no início do século XX era um privilégio das classes dominantes ou de imigrantes que trouxeram essa prática como um dado cultural de seu país de origem.
Maria Lenk
Prova disso foi a participação de Maria Lenk nos Jogos Olímpicos de 1932, em Los Angeles. Lenk, filha de alemães aprendeu a nadar com o pai, um grande incentivador e entusiasta da prática esportiva das filhas. A partir de sua dedicação à natação Maria Lenk entrou para a história do esporte olímpico como a primeira mulher brasileira, e latino americana, a participar de Jogos Olímpicos.
O que chama a atenção para essa trajetória são as décadas que separam essa primeira participação feminina das primeiras medalhas: 54 anos! Embora a participação feminina tenha iniciado em 1932 as primeiras medalhas olímpicas conquistadas datam de 1996. Essas constatações inclusive motivaram uma pesquisa que gerou um livro em que o Grupo de Estudos Olímpicos, da Escola de Educação Física e Esporte da USP, buscou analisar e entender os motivos para esse retardo.
Sandra Pires, parceira de Jackie Silva, ouro olímpico em 1996.
E para chegar às respostas uma vez mais fiz uso das histórias de vida, metodologia que adotei há mais de 15 anos para as minhas pesquisas. Faço uso das histórias de vida simplesmente porque entendo que fatos e instituições são feitas de e por pessoas, embora nas instituições idôneas as pessoas apenas passem por elas, deixando suas marcas, sem se perpetuar no poder ou em alguma posição. Estudo as histórias de vida porque sei que uma história individual carrega as marcas do tempo e da sociedade vividos e ao mesmo tempo aponta as singularidades daquele que viveu.
Silvina, atleta olímpica brasileira, nunca  conquistou uma medalha,
mas ganhou tudo o que o esporte pode  ensinar.
Atualmente é líder comunitária na comunidade da Mangueira, no Rio de Janeiro.
Para mim o narrador é único e intransferível e tudo que diz respeito a ele me interessa se narrado por ele próprio. As pistas vão se apresentando ao longo da narrativa de forma latente ou manifesta e como um bordado o desenho vai se apresentando a partir de recordações mais emocionais ou racionais. Para mim não existe nada mais precioso que uma história de vida. Tenho tanta respeito por esse método, e faço questão de reafirmá-lo sempre que posso, que um professor, talvez desconhecedor de toda a riqueza que se produz com ele, chegou a sugerir que eu desejava fundar uma religião ou dar poder demasiado a atletas. Que tolice! Ou melhor, quanta limitação e ignorância!
Audiência pública realizada ontem em Brasília.
Crédito: Akimi Watanabe
No dia 12 de dezembro de 2011, mais uma vez, confirmei não apenas a validade das histórias de vida, como pude comprovar o poder de mobilização gerado por elas. Nesse dia tive a honra de participar como expositora em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em Brasília, sobre a Mulher e o esporte com o objetivo de instituir 2013 como o ano do esporte feminino no país. Compartilhei a mesma sessão com as atletas Aída dos Santos, Jackie Silva, Leila e Amanda.
Em função das pesquisas realizadas já tinha tido o privilégio de ouvir sem pressa a história de Aída e Jackie, que me servem como exemplos ilustrativos para muitas discussões das quais participo sobre mulher e esporte no Brasil. Não posso falar da Leila e da Amanda porque não as entrevistei e o que sei sobre elas são notícias divulgadas por diferentes veículos de comunicação.
Aída dos Santos.
Aída marcou a história do esporte brasileiro por ter sido a única mulher da delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964. Isso não seria nenhuma novidade se em 1956 Mary Dalva Proença, e Wanda dos Santos, em 1960, também não tivessem sido as únicas. O que marcou a trajetória de Aída foi o fato de mesmo estando só e completamente abandonada a seu próprio destino durante a realização dos Jogos ela chegou ao 4º lugar no salto em altura, passando muito perto de ser a primeira medalhista olímpica brasileira. Desprezada pelos dirigentes brasileiros ela foi acolhida pela delegação cubana que não apenas emprestou o material esportivo que ela não tinha como ainda lhe deram cuidados médicos em função de uma lesão ocorrida durante seus treinamentos solitários em solo japonês.
Jackie Silva
Jackie por sua vez é um ícone da resistência do esporte feminino no Brasil. Figura representativa do voleibol esteve presente na primeira seleção feminina a participar de Jogos Olímpicos, juntamente com outras atletas que marcaram época como Isabel, Vera Mossa, Dora, Lenice, Fernanda. Era a primeira vez que uma modalidade coletiva feminina participava de Jogos Olímpicos e aproveitava o sucesso da primeira geração vitoriosa do voleibol masculino que veio a conquistar a medalha de prata em 1984 e que começou a se profissionalizar e formalizar contratos de patrocínio no início dos anos 1980. Enquanto os homens decolavam para a profissionalização as mulheres eram mantidas à sombra e assistiam a tudo sem ter direito a voz e voto sobre sua imagem e resultados dentro da quadra. Jackie se rebelou contra aquilo e o preço que pagou foi com a própria carreia: cortada da seleção brasileira e impedida de jogar em clubes se viu obrigada a ir embora do Brasil, o que a levou aos EUA para jogar vôlei de praia. E foi nessa condição que Jackie entrou para a história. Tornou-se a melhor do mundo e veio a conquistar a primeira medalha olímpica do esporte feminino, e de ouro.
Leila
Naquela audiência pública, ouvi uma vez mais Jackie e Aída contarem suas histórias e fiquei lembrando das inúmeras situações em que fiz uso daqueles relatos para exemplificar questões relacionadas à discriminação e superação por mulheres no esporte brasileiro. Tive também a oportunidade de ouvir a história de Leila, que saiu de Taguatinga aos 17 anos para jogar voleibol em Belo Horizonte, mesmo contra a vontade do pai, e muitas das agruras vividas em função de sua escolha. Amanda, jogadora do futebol do Clube Atlético Mineiro, falou também com firmeza do alto de seus 18 anos, o que é ser atleta de uma modalidade que mesmo apresentando resultados expressivos, como é o caso do Brasil, continua a ser tratada como algo menor e sem prestígio quando o carro chefe é o masculino pentacampeão mundial, e que continua a perseguir o ouro olímpico nunca antes conquistado.
Seleção Brasileira de Futebol Feminino.
Percebo que, naquela oportunidade, a iniciativa das deputadas Luci Choinacki e Jô Moraes em nos convidar para essa audiência foi uma forma de iluminar a questão relacionada à mulher no esporte, principalmente em um momento em que as atenções mundiais se voltam para o país que sediará uma Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. É preciso de uma vez por todas admitir a discriminação vivida pelas mulheres ao longo de décadas de submissão em geral, e das mulheres atletas em específico. E são muitos os temas a serem abordados tais como a diferença de prêmios e patrocínios, o impedimento da prática de modalidades que contribuíram para o retardo do seu desenvolvimento, a especificidade do treinamento para as mulheres e o assédio vivido e quase nunca relatado em função do temor de represálias.
Maurren Maggi
Entendo que vivemos novos tempos para a mulher na sociedade e no esporte. Tempos esses que ainda não expressam de fato a importância que as mulheres passaram a ter para o esporte brasileiro, e para isso basta ver a curva ascendente de participação nas últimas edições dos Jogos Olímpicos e os resultados obtidos pelas atletas brasileiras na última edição olímpica em Pequim. Mas acredito que essa é uma condição irrefutável. E espero que dirigentes, técnicos e patrocinadores tenham a sabedoria de enxergar esse cenário para não retardar ainda mais esse processo que tem rendido bons frutos. A ignorância pode ser perdoada. A má intenção não.
Sobre Katia Rubio:

Professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.


Um comentário:

  1. De todas, a que mais admiro é a Aída.
    Pela força, coragem e toda a diversidade que enfrentou com muita dignidade.
    Uma mulher, uma guerreira...
    Em uma época nada favorável às mulheres.
    Parabéns querido.
    Parabéns a autora.
    Grande braço.

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