sábado, 31 de dezembro de 2011

O milagre da renovação


No novo ano que começa já já, não esqueça de incluir na sua lista de desejos a leitura de mais livros. Use o caminho mais fácil para o conhecimento: leia mais!

O Literatura na Arquibancada agradece a todos que tiveram a paciência de passar por aqui para conhecer a obra e a vida de gente que luta e lutou fazendo literatura, escrevendo e deixando para nós muito mais do que palavras soltas, mas reflexões eternas.

Nossa mensagem final está no verso do poeta-craque da literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade, dica do nosso colaborador, Domingos D'Angelo. Os versos são bastante conhecidos, mas nunca é demais relembrá-los:



Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O "passarinho" de Chico Buarque


O grande barato do futebol é esse: como as histórias surgem do nada. Final de ano, casa da sogra, poucas horas para a ceia de Natal começar a rolar e todos prontos para se empanturrarem de comida e bebida, vem o papo do cunhado, Marcelo Góes e do sogro, Ludenbergue Góes: “Achei sensacional a história do Futebol de Tucumã que você publicou no blog...Tudo bem, essa história é boa, mas não tem igual a que li sobre o Passarinho do Chico”. No mesmo instante retruquei: “Passarinho? Como assim? O que isso tem a ver com os botões de Tucumã?”. E lá se foi meia hora de uma deliciosa conversa. Eles (cunhado e sogro), lembravam-se de uma história narrada pelo craque da literatura, Mário Prata, sobre o tal “Passarinho do Chico Buarque”. Só mesmo lendo essa preciosidade para entender e se divertir...

Mário Prata, ao lado de Chico e Tarso de Castro.
Crédito: acervo pessoal Mário Prata, www.marioprataonline.com.br

O passarinho do Formiga de Chico Buarque
Por Mário Prata

Éramos três do Estadão lá em Paris, sem contar o meu querido Reali Jr: o Chico Buarque, o Mateus Shirts e eu. Os três, cronicando. Para evitar que a gente escrevesse a mesma coisa, driblasse o mesmo tema, trocávamos fax (o compositor é contra e-mail).

Chico Buarque jogando botão com Vinicius de Morais.
Crédito: www.futmesabrasil.com
No primeiro sábado, antes de sair a primeira dominical do Chico, chega o fax: "Com Os Meus Botões". Um poema, como me diria depois o flamenguista Aluizio Maranhão, nosso redator-chefe. Realmente um poema. Em Paris, entre os colegas jornalistas, não se falava noutra coisa.
Leio orgulhoso. Afinal, fui eu quem convenceu o poeta a escrever crônicas na Copa. Tinha certeza que ia dar samba. A crônica falava dos times de botão do Chico e dos que todos nós tínhamos nos anos 50 e 60, pedaços de plásticos concentrados dentro de uma caixa de catupiri, com direito a talco e flanelinha. E todos botões tinham nome, é claro. Mas tinha um pedaço na crônica:

"Certa vez fui apresentado a um antigo centromédio do Santos, o Formiga. Depois de um breve diálogo, o assunto esgotado, sem saber por que continuei a encará-lo. O silêncio se prolongava, incômodo, e ainda encasquetei de colocar a mão no ombro do Formiga. Com o polegar, comecei a pressionar de leve a sua clavícula, e me lembro que ele ficou um pouco vermelho. Então me dei conta de que, pela primeira vez na vida, conversava pessoalmente com um botão".

Chico Formiga, ex-jogador do Santos.
Muito bonito. Só que eu gritei:

- Passarinho! Isso é passarinho do Chico!

- O quê que é passarinho?, me perguntou o Mateus abrindo uma garrafa de uísque com os dentes.

- O dedão na clavícula é passarinho!!!

Deixa eu explicar o que é um passarinho. Em 54, o Nelson Rodrigues escreveu uma crônica (acho que na Última Hora) dizendo que a imprensa estava muito chata por falta de passarinhos. E explicava que antigamente era diferente. Que hoje (54) não se mentia mais. Uma vez houve um incêndio na Lapa, mandaram um repórter para lá e reservaram a primeira página. O repórter voltou desanimado: apagaram o incêndio com um regador de jardim. Mas não aconteceu nada que dê notícias? Bem, disse o repórter, tinha um passarinho dentro de uma gaiola muito nervoso. Foi o bastante: "Fogo Ameaça Fauna na Lapa".

Era isso: o Nelson estava dizendo que os jornalistas brasileiros não mais aumentavam a notícia, não criavam nenhum passarinho. E nas nossas conversas inter-cronistas a palavra passarinho é muito corriqueira. Eu, por exemplo, me considero um passarinheiro de marca maior.

Chico Formiga, ex-jogador e técnico do Santos.
Então, pra mim, o dedão na clavícula do Formiga era passarinho. Estava na cara que era. Basta conhecer um pouquinho o Chico. Aliás, um bom, um excelente passarinho. Mas, passarinho.
Passo um fax para a casa do Chico lá em Marais. Não deu dois minutos, toca o telefone. Era ele. Indignado. Não fala oi, nem nada. Raivoso, atacando e se defendendo ao mesmo tempo, parecia a seleção da Nigéria em seus desengonçados momentos de glória. Ele estava mesmo bravo comigo:

- O dedão na clavícula é passarinho? O dedão na clavícula do Formiga é passarinho?


Chico Buarque jogando botão com Vinicius de Morais.
Crédito: www.futmesabrasil.com

Nunca tinha visto o cara assim. Dei até um passo atrás lá no meu quarto. Fiquei sem jeito. Achei que eu tinha pegado pesado com ele. Afinal, a primeira crônica dele e eu dizendo que o dedão na clavícula era passarinho? Mas fiquei na minha:

- Desculpa lá, mas é. Você vai me desculpar muito, tá tudo muito bom, muito bonito mesmo, um poema e não sei mais o que. Até você ficar sem palavras olhando para a cara do Formiga, tudo bem. Colocar a mão no ombro, tudo bem. Mas jogar botão com a clavícula do Formiga, pra mim é passarinho. Um excelente passarinho, diga-se de passagem.

- Você acha mesmo que o dedão na clavícula do Formiga é passarinho?

Eu achava mesmo:

- Acho!

Ele abre uma risada contagiante e mal consegue dizer, triunfal:

- Cara, eu nunca vi o Formiga na minha vida!!!

Fonte:

Para saber mais sobre Mário Prata, acessar seu site fantástico, repleto de textos do craque da literatura, do cinema, do teatro e da televisão: http://www.marioprataonline.com.br/

Para quem não sabe, Mário é ligado em futebol, torcedor do Linense, clube do interior paulista, terra onde viveu a infância e a juventude, nos anos 1950 e 1960.






Time do Linense, 1953.
Crédito: www.mariopratoonline.com.br
Na capital paulista, palmeirense, tendo inclusive publicado o livro “Palmeiras, um caso de amor” (Objetiva, 2002)

Crédito fotos: site do autor www.mariopratoonline.com.br  

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Gilka: uma mulher à frente do seu tempo


E ainda há os que dizem que a literatura sobre o futebol é fenômeno recente. Em 1938, quando o Brasil projetou definitivamente seu nome no cenário internacional do futebol por conta do terceiro lugar obtido na Copa do Mundo de 1938, disputada na França, até mesmo uma das maiores poetas que o país tinha naquele momento escreveu sobre o tema. Trata-se de Gilka Machado, eleita em 1933, pela prestigiada revista O Malho, “a maior poetisa do Brasil”, escolha feita entre 200 intelectuais brasileiros. Neste ano, coube a uma mulher, Gilka, numa sociedade extremamente machista, escrever o poema “Aos heróis do futebol brasileiro”, uma ovação aos jogadores que estiveram muito próximos de conquistar um título mundial.

Gilka estava à frente de seu tempo e por causa de seus versos considerados “escandalosos” para a época entrou para a história da poesia brasileira. O sangue de artista, estava em suas veias. A mãe, Thereza Christina Moniz da Costa foi atriz de teatro e rádio-teatro; e Heros, sua filha, foi bailarina famosa além de pesquisadora das danças nativas brasileiras. Ainda em sua família, existiam poetas e músicos famosos.

A iniciação na poesia começou cedo, na infância. Com apenas 13 anos ganhou o concurso organizado pelo jornal A Imprensa. Mas foi em 1915 que ela entraria definitivamente para o cenário nacional com a publicação de sua primeira obra-prima, “Cristais partidos”.

Por conta dos versos que mostravam explicitamente suas sensações, emoções e desejos eróticos, foi transformada em porta-voz das mulheres de sua época, período em que a crítica moralista e conservadora imperava no País.

Gilka Machado entrou para a história da poesia brasileira como fonte de resistência à situação de alienação da mulher. Uma mulher para ser lida sempre...

Ela morreu em 1980 e um ano antes recebeu da Academia Brasileira de Letras o prêmio Machado de Assis pela publicação do volume de suas “Poesias completas” e nele que se encontra essa verdadeira preciosidade para a história da literatura sobre o futebol brasileiro.


Aos heróis do futebol brasileiro


Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!

As almas dos brasileiros

distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.


Que obra de arte ou de ciência,

de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!

Que obra de arte ou de ciência

conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?


Ha milhões de pensamentos

impulsionando vossos movimentos.

Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.



Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.


Fonte:
“Poesias completas” (Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991)

E para saborear ainda mais os versos da grande poetisa brasileira, Gilka Machado, um poema inesquecível:

REFLEXÃO


Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detêm-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.


Elas, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...

Mais sobre Gilka Machado:

Gilka da Costa de Melo Machado (Rio de Janeiro RJ 1893 - idem 1980). Publicou seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, em 1915. Na época, já era casada com o poeta Rodolfo de Melo Machado. No ano seguinte, ocorreu a publicação de sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 saiu Estados de Alma; seguiram-se  Poesias, 1915/1917 (1918); Mulher Nua (1922), O Grande Amor (1928), Meu Glorioso Pecado (1928), Carne e Alma (1931). Em 1932 foi publicada em Cochabamba, na Bolívia, a antologia Sonetos y Poemas de Gilka Machado, prefaciada por Antonio Capdeville. Em 1933, Gilka foi eleita "a maior poetisa do Brasil", por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro. Foram lançadas, nas décadas seguintes, suas obras poéticas Sublimação (1938), Meu Rosto (1947), Velha Poesia (1968). Suas Poesias Completas foram editadas em 1978, com reedição em 1991. Poeta simbolista, Gilka Machado produziu versos considerados escandalosos no começo do século XX, por seu marcante erotismo.  Para o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, ela foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma?

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O bandeirinha artilheiro


Amigos, já que a bola está parada dentro dos gramados, nada melhor do que tratarmos sobre um personagem do futebol que ganhou enorme “notoriedade” nos últimos tempos em uma partida, após anos e anos de quase total descaso. Tornaram-se polêmicos por conta da velocidade de um jogo de futebol e o reflexo preciso exigido deles (ou delas) em momentos decisivos, qualquer que seja a situação.

O que veremos mais abaixo é uma fantástica crônica escrita por Nelson Rodrigues baseada em um fato real. O texto “Bandeirinha-Artilheiro” foi publicado na revista Manchete Esportiva, no dia 2 de maio de 1959 e descreve um momento, talvez único na história do futebol mundial, do bandeirinha Adelio Maia durante o tradicional clássico FlaFlu, disputado no dia 20 de abril de 1959, pelo torneio RioSão Paulo. Adelio entrou para a história do futebol mundial porque acabou ajudando o Flamengo a marcar um dos gols da vitória por 2 a 0 sobre o Fluminense. Isso mesmo, Adelio Maia conhecido pelo curioso apelido de “Caixa Econômica” deu o passe para um gol !!! 

 BANDEIRINHA-ARTILHEIRO

Amigos, ontem foi o lírico domingo dos velhos. Aqui, Barbosa, fechando o gol do Vasco; em São Paulo, Jair, decidindo o jogo para o Santos. Duas eternidades e ambas viçosas, ambas salubérrimas. Tanto Jair como Barbosa podiam ser, hoje, o meu personagem da semana. Mas há melhor, amigos, há melhor! Refiro-me ao “Caixa Econômica”, a mais recente, inesperada e espetacular celebridade do futebol brasileiro. Antigamente, em matéria de Caixa Econômica, só se conhecia a própria. Mas, graças ao Fla–Flu, fez-se uma descoberta sensacional. Sim, amigos: – existia, aqui, nas nossas barbas, sem que o percebêssemos, o “Caixa Econômica” bandeirinha. Foi o grande e, direi mesmo, foi a contundente surpresa do Fla–Flu!

O bandeirinha! É, na história do futebol, o sujeito mais secundário. A humildade de sua função só tem paralelo com a do gandula. E houve uma época em que o bandeirinha era um franciscano apanhador de bola. Foi preciso que o profissionalismo aparecesse e o arrancasse de sua compacta obscuridade. Então ele subiu social e economicamente. Lembro-me da primeira remuneração do bandeirinha – 25 mil réis por jogo! Hoje,a função é mais importante. O homem já marca impedimentos e tornou-se um personagem ativo e militante na comédia do futebol. Todavia, nenhum bandeirinha conseguiu, jamais, o furioso destaque do “Caixa Econômica”. Num Fla–Flu sensacional, ele conseguiu ofuscar o juiz, os jogadores, o outro bandeirinha. Foi, atrevo-me a dizê-lo, o solista do espetáculo.


Aliás, tudo no “Caixa Econômica” parece predispô-lo para a celebridade e para a glória. A começar pelo apelido. É “Caixa Econômica”, como poderia ser “Banco de Crédito Real de Minas Gerais”, “Prolar S.A” etc. etc. E vamos e venhamos: – ninguém consegue chamar-se “Caixa Econômica” impunemente. Há entre o nome de um sujeito e o seu destino uma conexão inevitável. Napoleão teria que ter um destino napoleônico. E o nosso “Caixa Econômica” não poderia viver eternamente obscuro e eternamente humilde. O Fla–Flu foi a sua grande chance terrena.

Ao começar e até o encerramento da primeira etapa, o “Caixa Econômica” ainda permanecia ignorado, ainda permanecia inédito. E, súbito, na etapa final, surgiu a sua oportunidade napoleônica. Imagino que tenha ocorrido com o nosso herói uma crise de saturação. Cansou-se de ser um fósforo apagado dentro do jogo. Achou talvez abusivo que o campo fosse um espaço privativo dos jogadores e do juiz. E fez o que nenhum outro bandeirinha, jamais, teve o desplante de fazer: – entrou no campo e pôs-se a passear no gramado com uma soberana naturalidade. E, de repente, acontece o inconcebível: – uma tabelinha de um jogador rubro-negro com o “Caixa Econômica”!

Dizem que a bola bateu, simplesmente bateu, no fabuloso bandeirinha. Amigos, sejamos mais líricos e menos objetivos. Vamos admitir que o “Caixa Econômica” deu um passe que caiu como uma luva, ou melhor, como uma meia no pé de Henrique. Jamais Zizinho no apogeu, ou Jair, ou o divino Domingos da Guia conseguiram ser tão precisos, exatos, perfeitos. O estupor do Fluminense foi de tal ordem que o time parou, de ponta a ponta, e Henrique, vivíssimo, penetrou com furiosa velocidade. Dida recebeu a bola para marcar. Vejam vocês a trama diabólica: – “Caixa Econômica” – Henrique – Dida! O Fla–Flu continuou, mas a verdade é que o tricolor estava perdido. O que desintegrou meu time não foi bem o gol, mas a intervenção sobrenatural do “Caixa Econômica”.

A partir do momento em que se tornou o primeiro bandeirinha-artilheiro do universo, o meu personagem da semana conheceu a celebridade. Ontem, a sua simples presença no Vasco x Flamengo valorizou e dramatizou o clássico. O pânico da torcida cruzmaltina era que o “Caixa Econômica” apanhasse a bola, saísse driblando e marcasse para o Flamengo o gol da vitória.

Fonte: 
“À sombra das chuteiras imortais” (Companhia das Letras, 1993, organização Ruy Castro) 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O coração azul de Adele


Amigo leitor, você pode estar estranhando os posts que o Literatura na Arquibancada vem fazendo sobre grandes estrelas da música nacional e internacional e suas paixões pelo futebol. Para mim, diferente de muitos críticos especializados, letras de músicas também podem ser consideradas “literatura”. Evidentemente, cada um na sua praia. Música é música, literatura é literatura. Um verso isolado, sem acordes perfeitos e a ênfase em determinadas palavras, não teria o mesmo efeito para os ouvintes, assim como, um poema lido sem a respectiva sonoridade necessária, não faria sentido.

Sendo assim, aí vai mais uma dica de uma estrela da música que vem fazendo gigantesco sucesso há apenas três anos. Seu nome é Adele Laurie Blue Adkins, ou simplesmente, Adele. A menina inglesa de apenas 23 anos é dona de uma voz única e, diferente das estrelas do pop mundial, é avessa aos paradigmas impostos pela atual indústria da música. Ela é gordinha, não faz estripulias no palco, os cenários são simples, sem grandes pirotecnias. Seus shows são “intimistas”, apesar do ritmo dançante de muitas de suas músicas. Fica em pé, na frente da imensa plateia e ao seu lado, um banquinho com uma garrafa de água para molhar de vez em quando a garganta que guarda uma voz poderosa.

Adele está apenas no seu segundo álbum, “21”, lançado em janeiro deste ano, “um requiem às separações amorosas” que se tornou o mais vendido na Inglaterra, com 3,4 milhões de cópias, superando “Back To Black” da falecida Amy Winehouse. Adele é sucesso em todo o mundo. 
Nos Estados Unidos, as vendas de seu álbum ultrapassaram 4 milhões de cópias. Na internet, os downloads crescem de forma impressionante.

Por conta do estilo (discreta, mas fuma e não esconde de ninguém que gosta de beber), da voz rouca e também gostar do gênero Soul, Adele passou a ser comparada a Amy Winehouse. Mas a menina loira e gordinha parece ser bem mais centrada do que a ex-amiga de escola, já que ambas estudaram juntas na Inglaterra.

Recentemente, Adele conseguiu um feito que muitos imaginavam impossível de ser batido: superou a marca dos Beatles, em 1964, tornandos-se a primeira artista viva a ter uma canção e um álbum no topo do ranking no Reino Unido. E de quebra, Adele ainda foi apontada a artista de 2011.

Bom, mas o que tudo isso teria a ver com o futebol? Até agora, falamos “apenas” das proezas que Adele tem conseguido com a força da sua voz, nos palcos do mundo inteiro. Mas ela também, aos poucos, está conseguindo entrar no mundo do futebol britânico. Para quem não sabe, o Liverpool FC ou os Reds, clube tradicionalíssimo da Primeira Divisão do futebol inglês (a Premier League) tem uma maneira emocionante de, digamos, “energizar” seus atletas antes de cada jogo disputado em seu estádio. As arquibancadas viram verdadeiros palcos de shows musicais, que misturam canções escolhidas pelos próprios torcedores para serem tocadas antes do início e nos intervalos dos jogos. E outras cantadas por eles mesmos, os torcedores. A mais famosa delas é a mítica canção “You Will Never Walk Alone”. Veja a letra e assista o vídeo com a tradução da letra. É emocionante.

You'll Never Walk Alone  Você Nunca Andará Sozinho

When you walk through a storm,                  Quando você anda através da tempestade,
Hold your head up high,                               Mantenha sua cabeça erguida,
And don't be afraid of the dark.                  E não tenha medo da escuridão.
At the end of a storm,                                 No final da tempestade,
There's a golden sky,                                   Existe um céu dourado,
And a sweet silver song of a lark.                 E o doce canto de uma cotovia.

Walk on through the wind,                          Ande através do vento,
Walk on through the rain,                           Ande através da chuva,
Though your dreams be tossed and blown... Mesmo que seus sonhos tenham sido jogados e perdidos...

Walk On! Walk On! With hope in your heart, Caminhe! Caminhe! Com esperança em seu coração,
And you'll never walk alone...                       E você nunca caminhará sozinho
           
You'll never walk alone                                  Você nunca caminhará sozinho

Walk On! Walk On! With hope in your heart, Caminhe! Caminhe! Com esperança em seu coração,
And you'll never walk alone...                       E você nunca vai andar sozinho

You'll never walk alone.                                E você nunca caminhará sozinho.




Recentemente, os torcedores do Liverpool FC escolheram como músicas para o “pré-jogo”, U2 – “Beautiful Day”, Foster the People – “Pumped Up Kicks” e Coldplay – “Viva La Vida”. Para o intervalo, mesmo Adele não sendo torcedora dos Reds e demonstrando todo o sucesso que faz entre os ingleses, sua música, “Rolling in the Deep”, surgia pela primeira vez em um estádio inglês. Pelo ritmo, já que a letra fala de um amor não correspondido, dá para se entender o pedido dos torcedores do Liverpool FC. A música é contagiante.




Mas então, por qual time o coração apaixonado de Adele fala mais alto? A resposta é Tottenham Hotspur, time de sua terra natal. Com o estrondoso sucesso de suas músicas, Adele não é mais uma simples torcedora local. No início do ano, quando estava hospedada em um hotel de Liverpool para um de seus shows, ela não se conteve ao saber que seu time favorito o Spurs, como são conhecidos, também estava ali concentrado para um jogo.

Como uma fã qualquer, pensou que poderia chegar próximo aos jogadores para demonstrar seu carinho, mas acabou barrada pelo rigoroso técnico da equipe Harry Redknapp que não sabia de quem se tratava aquela loira gordinha. 




Harru Redknapp, técnico do Tottenham. 




Adele ficou indignada e a notícia repercutiu em todos os jornais londrinos: “Ele não tinha ideia de quem eu era. Ele apenas me deu um olhar fulminante como se dissesse: ‘Você não pode causar uma cena, por favor, por favor, vá embora! Eu estava tão animada. Sou fã dos Spurs”. E emendou falando do entusiasmo que sentia com as notícias da época sobre o astro do futebol inglês, David Beckham, poder jogar pelo Tottenham Hotspur.
Beckham chegou a treinar por algumas semanas no clube inglês, mas apenas para manter a forma para a disputa da liga norte-americana de futebol pelo Los Angeles Galaxy.
Adele não parou por aí nas declarações sobre o encontro mal sucedido com seus ídolos do futebol inglês. Disse que, assim como o time do Liverpool tem músicas para homenagear seus craques e o próprio time, ela tentaria de todas as formas emplacar uma de suas músicas como tema para a equipe.
A canção que Adele diz querer ver cantada pelos torcedores do Spurs é “Hometown Glory”, uma de suas primeiras canções a projetá-la nas paradas britânicas. Uma música que fala da paixão pelo lugar em que cresceu. Será que os diretores do Spurs cederão ao apelo da nova estrela do pop mundial? Veja o vídeo com a tradução. A música pode não ter o ritmo e o balanço que vem seduzindo milhares de pessoas no mundo inteiro, mas é inesquecível, como uma declaração de amor, bem típica nas composições de Adele.


E para fechar, para aqueles que querem apenas curtir a voz poderosa de Adele, não pode deixar de ver o vídeo com outra de suas canções que vem fazendo enorme sucesso: "Someone like you".


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Em campo o Literatura Luso-Brasileira Futebol Clube



Final de ano e o noticiário esportivo é inundado com “seleções” de craques da temporada.

Aqui, no Literatura na Arquibancada a formação desse time imbatível é diferente e foi feita por um “técnico”, ou melhor, um mestre da literatura brasileira, torcedor do Vasco da Gama.


Mauro Rosso, autor de “Lima Barreto versus Coelho Neto – Um Fla-Flu Literário” (Difel, 2010), coloca seu time em campo, sem medo de crítica da torcida...

O seu "Literatura Luso-Brasileira Futebol Clube" foi escalado neste ano, 2011, em uma palestra, no dia 24 de agosto, sobre "futebol e literatura", ao lado de  Xico Sá e mediação de Marcelo Moutinho:
                                                                     
                                                      Manuel Bandeira

                                     Camões                                 José de Alencar   

                                                          Machado de Assis 


Mario de Andrade                                                                               Monteiro Lobato


                                                           Fernando Pessoa

                    Eça de Queiroz                                             Graciliano Ramos


                                           Jorge Amado             Lima Barreto


No banco, mas também, “titulares” : Erico Veríssimo, Aluisio Azevedo, Euclides da Cunha, Mario Sá-Carneiro, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Mario Quintana, Castro Alves, Coelho Neto.

E também mulheres (por que não?): Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Cecilia Meireles, Maria Alice Barroso, Cleonice Benardinelli, Ana Maria Machado.


Sobre Mauro Rosso:
Mora em Petrópolis, Rio de Janeiro. É professor e pesquisador de literatura brasileira, ensaísta e escritor. Palestrante e conferencista em universidades e entidades culturais. Escreve textos, artigos e ensaios sobre literatura brasileira para revistas acadêmicas e sites de literatura. Desenvolve projetos e programas de pesquisa literária para entidades acadêmicas.


Tocando o barco com o Barcelona



Após a recente conquista do Mundial Interclubes contra o Santos, a equipe do Barcelona nunca antes foi tão falada no Brasil. Badalada por todos, gera polêmica entre os “especialistas” de plantão que começaram a duvidar da própria excelência do futebol praticado pelos brasileiros. Afinal, somos ou não os melhores do mundo, perguntam todos eles.

Para tentar entender um pouco mais sobre esse clube (muito mais do que uma simples equipe de futebol), um colaborador freqüente do Literatura na Arquibancada, o jornalista Hélio Alcântara nos sugere a leitura de um livro que teve enorme repercussão quando foi lançado em 2005: “Como o futebol explica o mundo” (Editora Jorge Zahar). Em um dos capítulos escritos pelo jornalista Franklin Foer, “O discreto charme do nacionalismo burguês”, dedicado ao Barcelona, podemos compreender melhor as razões de o clube catalão encantar não apenas dentro dos gramados e ainda compreender a enorme rivalidade existente entre o Barça e o Real Madrid.

Antes do referido texto veja a sinopse dessa obra importantíssima para a literatura esportiva mundial.

SINOPSE
O futebol é mais do que um esporte, ou mesmo um modo de vida; abrange questões complexas que ultrapassam a arte do jogo. Envolve interesses reais – capazes de arruinar regimes políticos e deflagrar movimentos de libertação. Os clubes de futebol espelham classes sociais e ideologias políticas, e freqüentemente inspiram uma devoção mais intensa que as religiões.

Para realizar esse amplo e perspicaz trabalho de reportagem, Franklin Foer viajou o mundo – da Itália ao Irã, do Brasil à Bósnia, analisando o intercâmbio entre o futebol e a nova economia global. E acabou por derrubar mitos, ao verificar que em vez de destruir as culturas locais, como preconizava a esquerda, a globalização deu nova vida ao tribalismo, e que, longe de promover o triunfo do capitalismo apregoado pela direita, fortaleceu a corrupção.
Investigando os bastidores desse esporte, Foer apresenta uma vasta e por vezes quase inverossímil galeria de personagens: um hooligan inglês, filho de uma judia com um nazista, que devotou a vida à violência; mulheres que freqüentam os estádios iranianos; os cartolas do futebol brasileiro; uma torcida organizada sérvia que se transformou em brutal unidade paramilitar.

As histórias colecionadas – extravagantes, violentas, engraçadas, trágicas – ilustram desde o choque de civilizações à economia internacional e revelam como o futebol e seus fiéis seguidores podem expor as mazelas de uma sociedade, sejam elas a pobreza, o anti-semitismo ou o fanatismo religioso. Original, inteligente, escrito com paixão e humor, o livro nos ajuda a compreender nossa turbulenta época.


Miguel Primo de Rivera y Orbaneja, militar
e ditador espanhol, fundador da organização fascista Union Patriótica,
inspiradora da União Nacional portuguesa. Primo de Rivera, na década
de 1920, promoveu um golpe e tomou o poder na Espanha, governando
o país entre 1923 e 1930. Além de proibir a língua e a bandeira catalã,
o general fechou o estádio do FC Barcelona depois de ouvir seus
torcedores cantarem o hino da Catalunha.

Trecho do capítulo “O discreto charme do nacionalismo burguês”

“(...) Havia (...) uma importante diferença entre as atitudes de Franco e as de seu antecessor. Primo de Rivera reagira ao Barça de modo furioso porque era um caudilho clássico, o ditador medíocre que esma­gava qualquer dissidente capaz de ameaçar seu frágil poder. Já para Franco a luta contra o Barça assumiu a forma de um comba­te pessoal de natureza épica. No nível político mais óbvio, ele ti­nha boas razões para punir os devotados torcedores do clube. A Catalunha havia sustentado por mais tempo a oposição ao golpe. Os habitantes de Barcelona, após anos de contenda industrial pré-guerra civil, tinham se tornado os Henry Fords da construção de barricadas. Embora partes da cidade recebessem Franco de braços abertos, muitos de seus moradores desenvolveram a guer­ra urbana com um apetite que nem Che Guevara conseguiria igualar. Franco cobrou um preço por essa resistência. Quando a cidade caiu, ele mandou matar um sem-número de seus oponen­tes e os enterrou numa cova coletiva no morro Montjuic, onde futuramente se construiria o estádio olímpico.

Após o golpe que colocou o General Francisco Franco
no poder (foto), a língua e as tradições da nação catalã
foram completamente abolidas. Torcer pelo Barcelona se tornou
sinônimo de lutar pela liberdade e pela causa catalã.
Mas havia outra razão, igualmente importante, para o ódio que Franco devotava ao Barça. O Generalíssimo acompanhava obsessivamente o esporte e, de modo mais específico, o rival do Barça, o Real Madrid. Era capaz de citar de cabeça as escalações do Real de décadas anteriores e mandava anunciar que descansa­va em seu palácio acompanhando o jogo da semana pela te­levisão. (Não por coincidência, a TV estatal reservava ao Real Madrid, em suas transmissões semanais, um espaço muito maior que o de qualquer outro time.) Quando assistia aos jogos, ele até arriscava um palpite sobre os resultados. Franco gostava de jogar numa loteria estatal que lhe permitia fazer apostas no futebol.

"Mais que um clube, em catalão".
Franco levou sua vingança pessoal contra o Barça às últimas conseqüências. Manuel Vasquez Montalbán escreveu: "As tropas de ocupação de Franco entraram na cidade. A quarta organização a ser expurgada, depois de comunistas, anarquistas e separatistas, era o Barcelona Football Club." No início dos três anos da revolta de Franco, a milícia fascista prendeu e executou o presidente do Barça, Josep Sunyol, de orientação esquerdista, quando ele passava de carro pelas colinas de Guadarrama em visita aos soldados catalães que defendiam Madri, cercada por tropas de direita.


Josep Sunyoli i Garriga, político espanhol,
de ideologia nacionalista catalã e 22º presidente
do Barcelona, entre 1935 e 1936.
Quando os soldados de Franco realizaram um ataque final para conquistar a insubordinada Catalunha, bombardearam o prédio que abrigava os troféus do clube. Depois de demolirem as insta­lações do Barça, os franquistas tentaram destituir o clube de sua identidade. O regime insistiu em mudar o nome de "Football Club Barcelona" para "Club de Football Barcelona" - não apenas uma particularidade estética, mas a tradução desse nome para o castelhano. Também insistiu em excluir a bandeira catalã do es­cudo do time. E isso foi somente o começo. Para supervisionar a transformação ideológica do clube, o regime impôs um novo pre­sidente. Ele devia ser bem adequado para o cargo. Durante a guerra, fora capitão da "Divisão Antimarxista" da guarda civil. No Barça, ele mantinha cuidadosamente copiosas fichas policiais de todas as pessoas envolvidas com o clube, de modo a poder im­portunar e solapar quaisquer diretores que demonstrassem sim­patias nacionalistas latentes.

Nos primeiros anos da era Franco, um evento se destaca nos livros de história. Em 1943, o Barça enfrentou o Real Madrid pe­las semifinais da Copa Generalíssimo Franco. Momentos antes do jogo, o diretor de segurança do Estado entrou no vestiário do Bar­celona - uma cena cultuada em Barça, a magistral história do clu­be escrita pelo jornalista Jimmy Burn. Ele lembrou aos jogadores que muitos deles tinham acabado de retornar à Espanha, de seu exílio em tempo de guerra, graças a uma anistia que perdoava sua fuga. "Não se esqueçam de que alguns de vocês só estão jogando pela generosidade de um regime que lhes perdoou a falta de pa­triotismo." Naquela época de repressão, não foi difícil entender o conselho. O Barça perdeu por 11 X 1,uma das maiores derrotas da história do clube.

Esse foi o primeiro de muitos favores prestados pelo regime ao Real Madrid, que pareceu retribuir a afeição construindo seu novo estádio na Avenida Generalíssmo Franco. Segundo alguns, o governo deu ao Real uma ajuda decisiva na contratação do me­lhor jogador dos anos 1950, o argentino Alfredo di Stefano, embora o Barça já tivesse feito um acordo com ele.
Quando o Real se sagrava campeão, Franco lhe concedia medalhas e honrarias não oferecidas a outros times vencedores. Paul Preston, biógrafo do caudilho, escreveu: "Franco via as vitórias do Real Madrid e da seleção nacional espanhola como, de alguma forma, suas." Tudo isso é fato. Mas há um aspecto que não se encaixa exatamente na conspiração anti-Barça sustentada pelos catalães. Um detalhe importante desmente isso. Nos primeiros anos da era Franco, o Barça teve uma de suas melhores temporadas da história.

Alfredo Di Stéfano: ídolo máximo no Real Madrid,
começou com a camisa do Barcelona, Espanha.
É um paradoxo - repressão e triunfo - que leva a uma das questões mais espinhosas na história política do esporte. Umberto Eco colocou-a desta maneira: "É possível ocorrer uma revo­lução num domingo de futebol?" Para o Barça, esse assunto é especialmente desconfortável. Seus torcedores gostam de se ga­bar de que seu estádio constituía um espaço em que podiam dar vazão ao ódio que sentiam pelo regime. Estimulados por cem mil pessoas cantando em uníssono, com a segurança de sua presença numérica, os torcedores aproveitavam a oportunidade para grita­rem coisas que não podiam ser ditas, mesmo que furtivamente, na rua ou num café. Esse é um fenômeno bastante comum. Há uma longa história de movimentos de resistência inflamando-se num estádio de futebol. Na Revolução do Estrela Vermelha, Draza, Krle e outros hooligans de Belgrado ajudaram a derrubar Slobo-dan Milosevic. As comemorações pela classificação da Romênia à Copa do Mundo de 1990 se espalharam pelas praças de Bucareste, culminando num grupo de atiradores apontando seus rifles para o ditador Nicolae Ceausescu e sua mulher. O movimento que derrubou o ditador paraguaio Alfredo Stroessner também teve seu ponto de partida no esporte.

Mas quando os torcedores do Barça enfatizam o espírito sub­versivo do Camp Nou não conseguem explicar por que Franco simplesmente não o esmagou. É claro que ele poderia ter feito isso com facilidade. Governava um eficiente Estado policial em que tanto os trens quanto os grandes inquisidores funcionavam a tempo e a hora. Para esmagar o Barça, como Primo de Rivera ti­nha feito nos anos 1920, bastariam alguns soldados. Mas ele pôs de lado essa opção e preferiu deixar os adversários gritarem suas obscenidades. Franco nunca justificou explicitamente sua políti­ca de tolerância. Mas seu objetivo era bastante claro: deixar que o povo catalão canalizasse suas energias políticas num passatempo inofensivo.

Se o Barça possibilitava à Catalunha desabafar, esse arranjo acabou se revelando conveniente para todos os envolvidos. Fran­co nunca enfrentou uma oposição séria por parte dos catalães. Diferentemente dos bascos, a outra minoria lingüística persegui­da pelo regime franquista, os catalães nunca se juntaram às fren­tes de libertação, nem seqüestraram presidentes de bancos de Madri, nem detonaram bombas em estações de ônibus. E os tor­cedores do Barça, apesar de todo o barulho no Camp Nou, jamais se opuseram seriamente aos apologistas de Franco que dirigiam o clube. Embora os catalães se mantivessem de cabeça baixa, eles tocaram em frente os negócios. A economia nacionalista de Fran­co, que incluía subsídios e tarifas, produziu um grande boom in­dustrial na área metropolitana de Barcelona. Imigrantes do sul da Espanha, aos milhares nos anos 1950 e 1960, foram trabalhar nas fábricas da região. O novo esforço industrial e o bem-estar conco­mitante ajudaram a afastar das mentes a opressão e as memórias dos massacres.

Bandeira da Catalunha
Os catalães têm uma autodescrição que explica esse instinto de "tocar o barco": gostam de dizer que possuem uma qualidade nacional chamada seny, palavra que se traduz como algo entre o pragmatismo e a sagacidade. É uma herança de séculos como mercadores do Mediterrâneo, a aversão do negociante à confusão. (Um exemplo clássico de seny: os catalães insistem em que sua língua seja ensinada nas universidades e usada nos sinais de trân­sito. Ela pode ser vista por toda parte, menos nos classificados de imóveis de muitos jornais em catalão. O nacionalismo não deve jamais atrapalhar os negócios.) Nessa autodescrição, os catalães também admitem possuir um yin para contrabalançar o yang do seny: eles têm outra característica nacional chamada rauxa, uma tendência a surtos de violência. Foi essa característica que impeliu a Catalunha a lutar de forma tão determinada durante a Guer­ra Civil espanhola e a tornou tão turbulenta nos anos anteriores.

Fosse esse ou não o desejo de Franco, o Barça ajudou a man­ter o seny e o rauxa dos catalães num estado de equilíbrio confor­tável. Um jornalista esportivo me contou uma parábola que ilustra esse fato. Dois criminosos trancafiados numa prisão de Franco realizam uma fuga perfeitamente planejada. Coordenam a ação de modo a poderem assistir ao jogo do Barça com o Real Madrid no Camp Nou. Por força da boa sorte, os fugitivos presen­ciam a vitória do seu Barça. Agora têm a liberdade e o triunfo. Dali em diante, bastava seguir o roteiro estabelecido em dezenas de filmes policiais e pegar a estrada. Mas eles desempenhavam seus papéis como homens da Catalunha, não como atores de Hollywood: curados de seu rauxa pelo Barça, eles retornam ao presídio onde tinham sofrido por tanto tempo. Procuram um guarda e se entregam."


Sobre o autor:
FRANKLIN FOER é redator do New Republic e colaborador assíduo da revista Slate
Seus textos já foram publicados em diversos outros órgãos de imprensa, como o New York Times e o Wall Street Journal.