sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Vi, vivi, sofri e morri o futebol...



Um dia, o escritor mineiro Paulo Mendes Campos, fervoroso torcedor do Botafogo carioca, decidiu aposentar-se das arquibancadas dos estádios. Mas não poderia fazer isso sem deixar um texto magnífico que só mesmo ele, um dos maiores nomes da literatura brasileira poderia fazer.

Sorte nossa que, no ano 2.000, a Editora Civilização Brasileira, publicou O gol é necessário — Crônicas esportivascom obras primas reunidas por Flávio Pinheiro.

Paulo Mendes Campos faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 1º de julho de 1991, aos 69 anos de idade.

O texto abaixo faz parte da coletânea organizada por Ricardo Ramos, em “A palavra é...futebol” (Editora Scipione, 1990), um ano antes da morte do escritor mineiro.

Para saber mais sobre Paulo Mendes Campos, acessar: http://www.releituras.com/pmcampos_bio.asp


Eu devia ou pelo menos merecia estar aposentado. Mas a ideia sombria da invalidez, e não do ócio com vivacidade, orientou os criadores do instituto de aposentadoria.
Deu-se que um dia, há três anos, vislumbrei de súbito que uma aposentadoria especial estava ao alcance de minha mão. Foi uma coisa drástica mas lúcida: exonerei-me do futebol. Descobri num relance que eu somava trinta e cinco anos de futebol e podia muito bem fazer outra coisa nos fins de semana. Pensei: se em trinta e cinco anos ainda não vi o futebol, é porque não tenho olhos para vê-lo. Sim, já vi o futebol. Já vi, vivi, sofri e morri o futebol. Valeu muitíssimo a pena e o prazer, mas não tinha sentido me perder no tráfego de sábado e domingo a fim de presenciar do alto da arquibancada um espetáculo já visto e revisto.

Velhos irmãos de opa, sobretudo os de opa alvinegra, ficam irritados com esse meu raciocínio, que consideram um desvio do entendimento, e com essa retirada, na qual farejam uma apostasia. Pois vou agüentando as broncas todas, folheando ainda as páginas esportivas, participando do papo, assistindo a um ou outro vetê vadio, mas decidido a só comparecer ao estádio em caso de compulsão emotiva.

Já vi o futebol. Hoje prefiro e só me cabe rever as fitas da lembrança, onde se gravam os grandes lances do meu aturado exercício de espectador. Não me cansei do futebol, retirei-me dele, insisto, para preservar meu patrimônio de memórias, sem o desgaste da ansiedade de quem continua, em idade canônica, a esperar nas arquibancadas um milagre maior. Já testemunhei os milagres todos que podiam acontecer em campo. Vi nessa longa temporada lances magistrais que possivelmente não se repetirão nos dias de minha vida. Conheço bem a experiência calorosa de sentir-me uno e soldado à alma da multidão, como conheço o sentimento dramático e animador de estar em confronto com a maioria ululante.

Sei que as possibilidades de uma partida qualquer são infinitas; mas não quero disputar mais; não quero mais exercer o pileque dionisíaco da vitória e nem a ressaca autopunitiva da derrota. Na idade magoada em que me encontro, torcer como se deve torcer, com o desvario da alma toda, seria um despudor. Um instinto me aponta o caminho da contemplação e outro instinto me insinua que, em matéria de contemplação futebolística, minhas chances de novidade e plenitude são mínimas.

O futebol já me viu. O futebol jogou-me como quis. O que colhi no campo dá perfeitamente para eu viver mais dez ou vinte anos. No meu celeiro de craques há vívidas memórias d Leônidas, Zezé Procópio, Romeu, Zizinho, Didi, Nílton Santos, Pelé, Sastre, Puskas, Nestor Rossi, e Garrincha, que pode não ser o maior, mas se singulariza por ter demonstrado que a mágica pode ganhar da lógica. Vi maviosos conjuntos, sinfonicamente arranjados, e vi a jam-session das improvisações talentosas. Vi craques nascentes como quem acha um novo amor ou dinheiro perdido. Vivi até onde pude minhas tardes olímpicas e minhas noites de dança ritual ao pé do fogo. Retiro-me com a sensação saciada de que cumpri o dever para com a tribo e não driblei o meu destino.

Meu destino era amar o futebol. Amei-o. Desde criancinha, quando espiava da lonjura da janela a bola que dançava no capim do clube aldeão. Até hoje, não é o perfume de aubépine* ou de qualquer outra planta altiva que me proustianiza**; é o aroma rasteiro da grama que me espacia. 

(*)pilriteiro (arbusto ornamental da família das rosáceas), em francês.
(**) referência ao escritor francês Marcel Proust e à sua obra Em busca do tempo perdido. Nesse romance o protagonista relata suas memórias, recriando minuciosamente o passado através das sensações marcantes, embora triviais. 

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