quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Uma entrevista diferente


Ela é a principal personagem de qualquer jogo. Literatura na Arquibancada recomenda a leitura deste texto escrito pelo jornalista Armando Nogueira, no livro “O homem e a bola”, Editora Globo, 1986.

Entrevista com a personagem BOLA

“E a bola, quem é a bola? Afinal, quem é mesmo a bola? De onde ela vem? De que mistérios vem essa figura que tanto apaixona a vida do homem? Qual é a dela, aí nesse campo, correndo pra cima e pra baixo, entre risos e lágrimas da multidão?” (...)


Quer dizer, então, que tu nasceste mesmo foi para o futebol?
Acho que sim. O futebol é o esporte que mais me aproxima do meu ideal.
E qual é o teu ideal?
O meu ideal é brincar. Adoro o contato com a natureza. Gosto do ar livre, o vento batendo no meu rosto e eu rolando pela grama, na folia dos meninos.
E o que é que te incomoda, de fato, na vida?
Fisicamente, só uma coisa me incomoda: a falta de ar, que é o único mal capaz de matar uma bola.
E moralmente?
Moralmente o que mais me desagrada é ouvir o locutor de rádio gritar aos quatro ventos que eu me perdi pela linha de fundo. Ora bolas, eu nunca me perdi. Não tenho como me perder. Eu sou uma predestinada. Deus me deu a graça de vir ao mundo para ajudar o homem a sonhar, a ser feliz. Quem se perde pela linha de fundo não sou eu, é a esperança momentânea de um torcedor.
O futebol é, sem dúvida, o esporte mais popular do mundo. Qual seria a tua contribuição para esse fenômeno?
Eu acho que a minha contribuição é mínima. O mérito maior deve ser de quem inventou um esporte que obriga o homem a usar os pés com a mesma inteligência e habilidade que ele tem nas mãos. O segredo está nesse desafio. Quanto a mim, acho que entro nesse jogo com qualidades de forma, tamanho e peso, que dão mais charme ao futebol.
E as outras bolas, como tu vês as outras bolas? A de tênis, de sinuca, de vôlei, de basquete, a bola de rúgbi?
Por favor exclusa dessa lista a bola de rúgbi. Ela não pertence à minha família. Eu sou uma esfera, ela é uma elipse. E não pergunte por que ela é chamada de bola. Prefiro não falar desse assunto. Já me basta o desgosto de saber que o mundo abusou de meu nome e da minha figura para criar duas maldições: a bola de ferro que acorrenta a liberdade do homem e a bola de carne que envenena os cães. No mais, as outras bolas cumprem na terra um destino igual ao meu. Todas elas estão aí para exaltar o lado lúdico da vida. Seja a bola de gude da infância, seja a bolinha sapeca que escraviza o olhar do tenista; seja a bola de sinuca, dama inconsútil que despenca, sorrindo, no abismo da caçapa; seja, enfim, a bola de basquete e a bola de vôlei, irmãs gêmeas que revivem nos ginásios modernos o ritual de doação e entrega dos povos antigos que costumavam oferecer a alma a Deus, brincando de lançar bolas para o céu.
E para concluir, bola amiga, a pergunta-chave desta nossa conversa: afinal, onde tu nasceste?
Como todas as coisas bonitas que Deus pôs neste mundo, eu nasci no céu. De meus pais, herdei mistério e poesia. Eu sou filha do sol com a lua cheia.

fonte: 
"O homem e a bola"
Armando Nogueira
Editora Globo, 1986

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