sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Um louco por futebol


Se dentro dos gramados Nilton Santos foi chamado de A Enciclopédia, Celso Unzelte é sem dúvida a Enciclopédia do futebol fora das quatro linhas. Corintiano assumido, é um dos maiores pesquisadores do esporte no país, prova disso são os diversos livros publicados desde que iniciou a carreira de repórter há 20 anos. O programa em que trabalha atualmente, no canal ESPN Brasil, define bem o que Celso representa para o mundo da bola: um louco por futebol.

Nessa entrevista ao Literatura na Arquibancada, Celso revela os bastidores de sua vida profissional e como consegue administrar o tempo para as diversas produções em que se envolve.

Literatura na Arquibancada:
Qual foi a sua trajetória no jornalismo? Sempre trabalhou com esporte? Em caso afirmativo, porque escolheu o segmento esportivo?

Celso Unzelte:
Minha trajetória é muito ligada ao jornalismo impresso, principalmente às revistas, que são minha outra paixão, além do esporte. E foi justamente por isso que escolhi o segmento esportivo, assim como a maioria das pessoas dessa área: é algo que acompanho desde criança, os melhores momentos da minha vida (e alguns dos piores também) estão ligados aos times, aos craques, aos jogos. Pura memória afetiva. Já trabalhei em outras áreas, como a revista Quatro Rodas, inclusive por um bom tempo (quatro anos), e com assuntos tão diversos quanto a Revista Brasileira de Leucemia ou a confecção de catálogos de Tupperware (risos). Nada disso, porém, me realiza tanto quanto falar e escrever sobre esportes.

L.A:
Quais foram as reportagens mais marcantes que você já fez em sua carreira?

Celso:
Costumo dizer que gostaria de ter sido mais repórter do que fui, de ter ido para a rua mais vezes do que acabei indo. Infelizmente, já faço parte de uma geração de jornalistas que começava a trabalhar mais internamente, não tanto quanto se trabalha hoje, mas já começava, sim. Para um jornalista esportivo, principalmente ligado ao futebol, como eu, nada pode ser mais importante do que entrevistar Pelé, e felizmente já tive a oportunidade de fazê-lo diversas vezes. Costumo brincar dizendo que só tremi em duas oportunidades na carreira, diante de Pelé e de Ayrton Senna, com quem cheguei a conversar quando estava na Quatro Rodas. E é verdade. Como meu trabalho é muito voltado para a pesquisa histórica do futebol, as mais marcantes foram com ex-jogadores. Todas as entrevistas para o documentário dos 100anos do clube e uma série com o Zico, que rendeu a publicação de um livro no Japão, estão entre as minhas preferidas.

L.A:
Quando e porque se tornou corintiano?

Celso:
Eu não tive escolha, nasci em um lar em que o Corinthians era o bem e o resto era o mal. Meu pai, Dario, que aparece no filme do Centenário, é corintiano desde 1935, acompanhou tudo: a conquista do IV Centenário, o tabu contra o Santos de Pelé, os 22 anos sem sem títulos. Costumava chorar e até hoje fica chateado quando o Corinthians perde. Eu já me autodenominava corintiano antes de 77, mas foi mesmo a partir da noite do gol de Basílio, quando eu tinha 9 anos, que me tornei um corintiano praticante. Hoje, e depois de ter tido duas filhas são-paulinas (Carolina e Beatriz), vejo com alegria o meu filho mais novo, Daniel, de 7 anos, seguindo meus passos quanto ao corintianismo. Ele até já me ajuda na hora de organizar os dados estatísticos depois de cada jogo do time.

L.A:
Como passou a organizar dados estatísticos sobre o Corinthians e outras equipes? Aproveite e fale do banco de dados que possui. Como foi formado?

Celso:
A organização formal começou com o Corinthians. Pensei nisso logo depois de adquiri um computador, entre 1994 e 1995. Comecei então a cadastrar os jogos a partir da primeira partida de 95 (uma derrota paraoXV, em Piracicaba) e a buscar retroativamente todos os jogos que faltavam, até chegarem 1910.Comecei transcrevendo dados da coleção de Placar, que eu já tinha, depois fui para a pesquisa em jornais. Levei 5 anos para fazer tudo, até 2000, ano da publicação da primeira edição do Almanaque do Timão. Em 2004 repeti a dose com o Almanaque do Palmeiras, em co-autoria com meu amigo e jornalista Mário Sérgio Venditti. O meu banco de dados continua sendo formado até hoje. Para isso, tenho coleções de jornais, revistas (desde 1938), livros e recortes organizada por ordem alfabética por temas (clubes, biografias, campeonatos, futebol nos países, estados e cidades). Não tem o que errar na hora da consulta: se não encontrar é porque não tenho nada, mesmo, a respeito daquele assunto ou dado que estiver procurando.

L.A:
Quais os livros que já escreveu? Cite passagens emocionantes na produção deles.

Celso:
São 12, apenas um fora da área de esportes, que se chama “A Família Bresser na História de São Paulo”, encomendado por uma senhora, dona Diva Bresser, que faleceu recentemente, aos 94 anos. Ela passou a vida colecionando informações sobre a família e queria transformar tudo em livro. Meu trabalho foi apenas de organizador, mas gostei muito de realizá-lo. Os outros todos têm histórias específicas. Para fazer os Almanaques do Corinthians e do Palmeiras, por exemplo, localizei e ainda localizo muitos filhos e netos de ex-jogadores atrás de histórias e dados biográficos específicos (datas de nascimento e morte). A data de nascimento de Amílcar Barbuy, por exemplo, o primeiro jogador do Corinthians convocado para a Seleção Brasileira, em 1914, nunca havia sido publicada antes do Almanaque do Timão.

Amílcar Barbuy
Quando ele morreu, em 1965, a imprensa divulgou com destaque, por isso a data da morte eu tinha. Mas quanto ao nascimento, nada. Por meio de uma sobrinha-neta dele, Heloísa Barbuy, que é historiadora, consegui chegar por contato telefônico a uma irmã de Amílcar, que à época, aos 90 anos, não só ainda estava viva como morava sozinha. Ela me pediu alguns minutos até procurar a data que eu queria escrita na contracapa de uma Bíblia que seus pais haviam trazido da Itália, na qual registraram dia, mês e ano do nascimento de todos os 10 filhos. Pode haver fonte mais confiável que essa? Entre as mais de 500 páginas e centenas de milhares de informação, esses simples nove toques são aqueles dos quais mais me orgulho: 29/4/1893.

Amílcar Barbuy Filho
Anos depois, apurando a pesquisa, tornei-me amigo de um dos filhos do próprio Amílcar, que também se chama Amílcar e faz aniversário no mesmo dia do meu filho Daniel, 2 de junho. Aliás, os dois costumam se comunicar por computador, o Daniel com 7 anos e o seu Amílcar com 86. Não é maravilhoso que as minhas pesquisas tenham proporcionado algo assim?

Celso Unzelte em mais uma performance no
Loucos por Futebol, da Espn Brasil.





L.A:
Qual o método de produção que você utiliza na elaboração de seus livros? Qual a rotina de trabalho? Enfim, como consegue conciliar várias atividades, entre elas a de professor?

Celso:
Tenho a vantagem de trabalhar com muitos dados que já estão à mão, com base no meu arquivo. Isso ajuda mas não é tudo, preciso, sim, me organizar. Tenho hoje apenas duas atividades que me obrigam a sair de casa: os programas na ESPN Brasil (É Rapidinho, gravado todas as segundas pela manhã, e Loucos por Futebol, nas quintas, em geral pela manhã, semana sim, semana não); e as aulas do curso de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero (manhãs de quarta, manhãs e noites de sextas-feiras).

Nos últimos dois semestres, também ministrei um curso específico de Jornalismo Esportivo na pós-graduação da própria Cásper, em uma das noites da semana (terça ou quarta). Aos domingos, desde 2003, também ajudo a editar o caderno Esporte do jornal Diário do Comércio: entro na hora dos jogos, ou um pouco antes, saio entre 22h30 e 23 horas. O resto do tempo eu uso para fazer a coluna semanal sobre causos do futebol no site Yahoo!, gravar os boletins históricos antes dos principais jogos para a rádio Estadão ESPN e colaborar em publicações esporádicas para revistas e livros. Pode acreditar que dá tempo, sim. Pelo menos vem dando tempo desde 2002.

L.A:
Você é autor de um livro sobre Jornalismo Esportivo e dá aula em uma faculdade. O que se ensina neste tipo de curso? E mais. Cite casos de trabalhos de alunos que se transformaram em livros.

Celso:
Antes de tudo, procuro ensinar que jornalismo esportivo é jornalismo, como se fosse qualquer outra área. Tem que levarem consideração o mesmo fazer, que envolve pauta, apuração, redação e edição. Minha grande preocupação é contribuir para a formação de jornalistas, não de gente que só quer fazer jornalismo porque gosta de esporte. Além disso, até por conta da minha formação, costumo dar um panorama sobre a história da imprensa esportiva em cada veículo (jornal, rádio, TV, internet). O meu livro Jornalismo Esportivo – relatos de uma paixão é o que mais traz casos de alunos que se transformam em livros. O mais significativo talvez seja o meu caso, já que o livro é meio autobiográfico, começa contando a experiência de “um garoto que como muitos amava seu time e seus ídolos” e acabou virando jornalista.

L.A:
Você só escreve sob encomenda ou já conseguiu publicar algum livro sem recursos?

Celso:
Tive a sorte de encontrar quem comprasse a minha ideia, no caso das duas primeiras edições do Almanaque do Timão, que saíram pela Abril, ou de encontrar quem me fizesse uma encomenda, como em todos os outros casos. A próxima edição do Almanaque do Timão, no entanto, eu pretendo fazer do meu próprio bolso, como um piloto para testar todas as possibilidades desse mercado.

L.A:
Você é dono de um dos maiores acervos de livros sobre futebol do país. Quais as raridades que você guarda em casa?

Celso:
Costumo dizer para as pessoas que maior acervo não existe. Você pode ter meia-dúzia de itens e, entre esses, algum que eu não tenha, por exemplo. Acho que o diferencial do meu arquivo está mais na facilidade e rapidez da consulta, fundamentais para quem como eu trabalha com isso. Mas me orgulho muito de ter a coleção quase completa da revista semanal Esporte Ilustrado, de 1938 a 1954; ter conseguido digitalizar os jornais A Gazeta Esportiva (fase do tablóide semanal, de 1928 a 1947) e O Esporte (1938 a 1962). E de possuir alguns livros que ajudam a entender melhor as origens do futebol, como o Guia para o Campeonato Paulista de 1905 ou o livro História do Foot-Ball em São Paulo, de 1918.

L.A:
Cite os 5 livros brasileiros sobre futebol de sua preferência. E também 5 de autores estrangeiros, já publicados no país.

Celso:
O que eu mais gosto não é de um escritor brasileiro, mas uruguaio: Futebol ao Sol e à Sombra, de Eduardo Galeano. Então esse já entra como um dos cinco estrangeiros, ao lado de: Fever Pitch (Febre de Bola), que conta a história da relação do autor, Nick Hornby, com o Arsenal; Eu Sou Maradona, a autobiografia do Diego, fundamental para quem tentar entender a cabeça dele; The Treasures of the World Cup, que é mais que um livro, é uma caixa com memorabília de cada Copa do Mundo; e O Reserva, um romance sobre futebol do português Rui Zink que eu até ajudei a verter para o português do Brasil (para se ter uma ideia, o próprio título original do livro era O Suplente).

Entre os brasileiros, ninguém, hoje, conseguiria continuar contando a história do futebol no país se em 1950 Thomaz Mazzoni não tivesse publicado História do Futebol no Brasil. O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho, é outro clássico nessa linha, seja você contra ou a favor da abordagem que ele faz da figura do negro no futebol do país. Em Anatomia de uma Derrota, Paulo Perdigão traçou o melhor e mais detalhado perfil do Brasil x Uruguai da Copa de 50. Recentemente, o meio acadêmico e filosófico também contribuiu com algumas obras essenciais para se entender o futebol, como Veneno Remédio, de José Miguel Wisnik, e A Dança dos Deuses, do medievalista Hilário Franco Júnior.

L.A:
Sendo um apaixonado ou “louco” por futebol, o que  ele representa para você?

Celso:
Sempre lembro da minha falecida avó me aconselhando a não levar futebol a sério, porque, dizia ela, “isso não dá camisa pra ninguém”. Mas para mim deu e continua dando. O futebol para mim representa não só camisa, mas condições para ajudar minha mulher a sustentar nossos três filhos. Quer coisa melhor do que isso, conseguir sobreviver trabalhando com aquilo com que todo mundo, inclusive você, também se diverte?

Mais sobre Celso Unzelte

Nasceu em São Paulo (SP), no dia 27 de fevereiro de 1968 e iniciou a carreira como repórter da revista PLACAR, em 1990. Especializou-se na área de esportes, com ênfase na pesquisa histórica. Foi repórter da revista esportiva AÇÃO (que substituiu PLACAR) entre 1990 e 1991; editor da revista VEJA PARANÁ (1991); de PLACAR (1991 a 1993 e 1997 a 2000); da editoria de Esportes do jornal NOTÍCIAS POPULARES (1993); da revista QUATRO RODAS (1993 a 1997); do site NETGOL.COM (2000/2001); diretor da Revista VARIG e da Revista da ABRALE (Associação Brasileira de Leucemia), em 2008. Atualmente, é comentarista das televisões por assinatura ESPN/ESPN Brasil, professor de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, e editor do caderno semanal Esporte, do Diário do Comércio.  Tem sete livros publicados na área esportiva: Almanaque do Timão (Editora Abril, 2000, reeditado em 2005), Almanaque do Palmeiras (Editora Abril, 2004, em parceria com Mário Sérgio Venditti), O Livro de Ouro do Futebol (Ediouro, 2002), Grandes Clubes Brasileiros (produção independente, em parceria com Marcelo Migueres, 2002; reeditado em 2004), Os Dez Mais do Corinthians (2008), O Grande Jogo (2009), Jornalismo Esportivo: Relatos de uma Paixão (2009), Timão: 100 Anos, 100 Jogos, 100 Ídolos (2009) e a Bíblia do Corintiano (2010). Foi consultor do Memorial do Corinthians, do Museu do Futebol do Pacaembu e co-roteirista do documentário Todo Poderoso – 100 Anos de Timão (2010).

Um comentário:

  1. Esse é O Cara. Entende tudo sobre a história do futebol, apesar de não cantar muito bem.. rs
    Sou fã dele e o melhor programa da TV brasileira é o Loucos Por Futebol. Não perco um programa

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