terça-feira, 29 de novembro de 2011

Um jeito inteligente de educar e formar leitores


Literatura na Arquibancada fala agora sobre um tema importantíssimo na literatura brasileira. A formação e a educação dos jovens por intermédio de livros que tenham o esporte como "gancho". E não há no país alguém mais capacitado para isso do que o jornalista e escritor Raul Drewnick, uma figura humana incrível que merece todos os elogios possíveis.

Raul Drewnick nasceu em São Paulo, em 1938. Jornalista e escritor, trabalhou durante muitos anos no jornal O Estado de S. Paulo onde teve uma coluna que o consagrou como um dos maiores cronistas brasileiros. Também trabalhou para a revista Veja.

Há vários anos, começou a escrever livros voltados para o segmento infanto-juvenil. Já são vários os títulos e, claro, o futebol não poderia ficar de fora de sua prosa. Entre os vários títulos publicados estão: “A hora da decisão” (Editora Ática,2003), “A grande virada” (Editora Ática, 2010) e o mais recente deles, “O goleiro fantasma” (Editora Lazuli e Companhia Editora Nacional, 2011).
Corintiano dos pés a cabeça, Raul Drewnick é apaixonado por futebol, daqueles que ficam passando de um canal para outro no domingo, em busca dos programas esportivos. A paixão é tão forte que ele brinca: “Se eu for a um psicanalista, ele vai dizer que o meu problema é que sou um futemaníaco, um futemaluco, um futefanático”.

Na apresentação de sua trajetória, em “O goleiro fantasma”, a explicação de onde e como surgiu esse fascínio pelo futebol:
  
“Os livros e o futebol encantaram a infância de Raul Drewnick. Tão forte foi esse fascínio que, se lhe perguntavam o que gostaria de ser quando adulto, ele respondia: escritor ou jogador. Para ser escritor, preparava-se lendo livros de aventuras. Para ser jogador, corria atrás da bola nos campinhos do bairro. Por duas vezes, sem dizer nada em casa, foi treinar entre os infantis do Corinthians. Quando chegou em casa levando uma ficha para jogar no time do seu coração, a mãe ficou furiosa, rasgou a ficha e o proibiu de voltar aos treinos. Dali em diante ele seria torcedor, apenas. E, como torcedor, acompanhou pelo rádio a maior tragédia do futebol brasileiro: a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã. Nesse dia, escolheu-se covardemente um culpado: o goleiro Moacir Barbosa. Perseguido, apontado nas ruas, ele carregou essa cruz até o fim da vida. O episódio, pela sua dimensão humana, marcou profundamente Raul, que, não podendo ser jogador, se encaminhou para o jornalismo e a literatura. Raul publicou mais de vinte livros, para adultos e jovens. Este, inspirado na história do goleiro Barbosa, pode ser lido com prazer tanto pelos jovens quanto pelos adultos”.

“O goleiro fantasma” conta a história de um fantasma que aparece num início de noite e aterroriza dois garotos que estão jogando futebol num campinho. Depois do susto, eles começam a investigar e descobrem que o aparecimento do horripilante espectro pode estar ligado à história de um goleiro amaldiçoado e expulso do bairro depois de uma derrota. A magia do futebol, suas glórias e seus dramas estão neste livro que o Literatura na Arquibancada recomenda.

                                                                                  
Capítulo 1 (Um fantasma no meio do campo)

O jogo tinha acabado. Mas, num canto do campinho de terra, Alexandre e Miguel continuaram batendo bola. Os outros meninos começavam a ir embora, discutindo o placar: 12 a 7, na opinião de um dos times, que comemorava com estardalhaço, e 12 a 12, na opinião do outro, que não parava de reclamar:
– Pô, os caras bateram na gente sem dó, o tempo inteiro, e aquele bananão do seu Avelino não apitava nada – lastimou-se um garoto pálido, com jeito de riquinho.
Um gorducho que tentava fazer cara de mau apoiou:
– A gente devia ter tirado o apito dele. Cinco pênaltis pra nós, e ele não deu. Cinco!
Sorrindo, Alexandre e Miguel, os melhores jogadores do time vencedor, ouviam as queixas.
– Cinco! – repetiu o gordinho. – Um pior do que o outro. Esse último, agora no fim, foi demais. Olha aqui o que o cara fez na minha canela, dentro da área. Vê só a marca da pancada. Ai, tá doendo até agora. Já inchou. Olha, aperta aqui, pra ver. Aaaiii! Não precisava apertar tanto.

Vendo a cena, Alexandre e Miguel pararam de bater bola e passaram do sorriso ao riso escancarado. Era uma delícia jogar contra aquele timeco da rua de cima. Melhor freguês eles não iam achar nunca. Ô gente ruim de bola!
Depois de engasgar de tanto rir, Alexandre recuperou o fôlego e brincou com Miguel:
– Guegué, essa turma aí não ganha nem de defunto. É o pior time do bairro.
Miguel não concordou:
– Do bairro? Esse é o pior time do mundo!
Os dois começaram a gargalhar de novo. Aquele pessoalzinho da rua de cima era engraçado mesmo. Quanto mais apanhavam, mais eles queriam jogar. Viviam jurando vingança, prometendo que na próxima vez iam ganhar de goleada da rua de baixo, mas na hora do jogo era o vexame de sempre: derrota e choradeira.
– Você já viu que eles sempre dão um jeito de pôr a culpa em alguma coisa? – perguntou Miguel.
– É. Se a chuva não molhasse, se o sol não ardesse, se a bola não atrapalhasse...Hoje parece que o culpado foi seu Avelino.
– Mas foram eles que escolheram seu Avelino pra juiz, não foram, Alê?
– Foram, Guegué. E seu Avelino mora na rua deles. A gente podia até criar caso.
– Criar caso pra quê? Aqueles fresquinhos não ganham de nós nem se jogarem com vinte e dois em vez de onze e nem se o juiz marcar pênalti toda vez que o nosso goleiro botar a mão na bola.

Recomeçaram a fazer embaixadinhas, mas continuaram falando dos fresquinhos – os garotos da rua de cima eram chamados assim porque moravam em casas grandes, bonitas, na parte nova do bairro, e eram filhos de gente importante: advogados, engenheiros, médicos, professores universitários.

Na rua de baixo, onde Alexandre e Miguel moravam, só havia casas antigas, sobradinhos de pintura descascada, e quem morava neles eram operários, camelôs, homens que viviam de trabalhos eventuais, pequenos comerciantes. Os meninos da rua de cima cursavam o colégio pago, os da rua de baixo estavam na escola pública.

Era por isso que Alexandre – filho de um eletricista nem sempre empregado – e Miguel – filho de um pedreiro quase sempre desempregado – gostavam tanto de ganhar daqueles empertigadinhos. E era por isso, também, que eles continuavam treinando passes  e controle de bola, embora todos os outros garotos e até o sol das seis horas já estivessem abandonando o campinho.

A mãe de Alexandre e a mãe de Miguel começaram a chamar os filhos. Eles eram vizinhos. Moravam em duas casas moribundas e geminadas que ficavam a poucos metros dali. Os dois respondiam que já estavam indo, mas não iam nunca. Continuaram batendo bola, ensaiando passes, fazendo embaixadas.

Eram apaixonados por futebol e sentiam que nele talvez estivesse sua grande oportunidade na vida. Não iam muito bem na escola, porque já trabalhavam para ajudar nas despesas familiares. Sempre ouviram dizer que não havia futuro para quem não estudava, mas achavam que, se quisessem continuar derrotando os almofadinhas da rua de cima, a bola, para eles, talvez fosse um caminho mais fácil do que os livros.

Só que depois que as mães, cansadas de gritar seus nomes, ameaçaram ir buscar os dois e enchê-los de tapas, eles finalmente resolveram atender os chamados. Haviam passado embaixo de uma das traves de madeira tosca e sem rede e estavam a poucos passos dos carcomidos portões das casas quando de repente, como se tivesse nascido da treva que já começava a cobrir o campinho, apareceu no caminho deles um vulto fantasmagórico.

Era uma figura impressionantemente feia. Alexandre e Miguel nunca tinham visto nada igual, a não ser em filmes de terror. Os cabelos pareciam feitos de palha suja , apesar da escuridão nascente, exibiam um sinistro brilho ruivo. Os olhos eram de um azul glacial, e os lábios tão grossos e vermelhos que davam a impressão de terem sido esmurrados um minuto antes. Em contraste, o nariz era tão pequeno que quase só se viam os dois furos, como as narinas de uma caveira.

Os meninos puderam vê-lo bem nos quinze ou vinte segundos em que ele ficou na frente deles, pavoroso como um espantalho, cambaleante como um bêbado, misterioso como uma assombração.

Não era muito alto, mas a mão que estendeu para eles, para fazê-los parar, era enorme, como se pertencesse a alguém duas vezes maior. Os lábios carnudos abriram-se um pouco, lentamente, como se a palavra que ia sair deles os estivesse machucando, mas Alexandre e Miguel não esperaram para ouvir nada.

Aterrorizados, saíram em disparada. Alexandre passou pelo lado direito do espectro, Miguel pelo esquerdo, e quando a horrenda figura abriu os braços para segurá-los, cada um deles estava escancarando o portão de sua casa com a barriga, no embalo, como se os dois tivessem acabado de arrebentar a fita de chegada numa vertiginosa prova de cem metros rasos.

Mais sobre Raul Drewnick

É autor também, entre outros, dos livros abaixo:


Um comentário:

  1. Raul Drewnick é um mestre. Sabe muito de literatura e tem opiniões pessoais formadas por leituras incansáveis. Não há assunto nesse campo imenso sobre o qual ele não saiba, até para não gostar. Outro dia lhe perguntei sobre Victor Hugo e ele respondeu logo para dizer que nunca leu inteiro Notre-Dame de Paris, mas citou Esmeralda e a cabra, além, claro, de Quasímodo. E não se trata de acionar o Google, Raul sabe e é um artista com forte opinião crítica e orientação poética. Sua dedicação à literatura é total e de vida inteira. Leiam Raul Drewnick domingo sim, domingo não no Jornal da Tarde, e leiam suas dezenas de livros, entre os quais o mais recente O Goleiro Fantasma, da Lazuli Editora. Grande Raul, o Corinthians tem nele um torcedor brilhante!
    Luiz Carlos Cardoso

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