domingo, 20 de novembro de 2011

Um diamante com consciência negra


Hoje é ”dia da Consciência Negra” e sendo biógrafo de uma das maiores referências entre os jogadores negros brasileiros, Leônidas da Silva, o Diamante Negro, Literatura na Arquibancada não poderia deixar de registrar alguns momentos marcantes de sua história. Abaixo, trechos do livro Diamante Negro – Biografia de Leônidas da Silva (Cia dos Livros, 2010). Leia o prefácio espetacular assinado pelo cineasta e escritor, José Roberto Torero, além de um fragmento do capítulo referente ao início de carreira do Diamante Negro e ainda uma crônica assinada por um jornalista francês que viu pela primeira vez o craque brasileiro executar sua famosa bicicleta.

Picasso, Borges, Newton, Einstein e Leônidas 
Desde que Adão comeu aquela maldita maçã e fomos expulsos do paraíso, nos esforçamos para recuperar um pouco da nossa natureza divina. Não gostamos dessa ideia de sermos pertencentes ao reino animal. O que queremos mesmo é ser deuses. Uns dizem que quem mais chega perto disso são os artistas porque, com sua arte, eles conseguem criar algo novo do nada, tal e qual o Todo-Poderoso. Os que pensam dessa forma citam muitos exemplos, como Picasso, o criador do Cubismo, ou Borges, inventor de tantos labirintos literários.

Mas, há quem diga que quem mais se aproxima da essência de Deus são os cientistas, pois eles decifram a natureza e nos ensinam a dominá-la. Os defensores dessa teoria põem em seu altar homens como Newton, que descobriu a lei de gravidade, e Einstein, que formulou a teoria da relatividade.

Há os que acham, como o André Ribeiro, que quem chegou mesmo perto da essência divina foi Leônidas da Silva, porque ele era ao mesmo tempo artista e inventor. O Leônidas artista fez jogadas cubistas que despedaçaram as defesas adversárias, e com seus dribles desenhou labirintos onde alguns zagueiros devem estar perdidos até hoje. O Leônidas inventor criou a bicicleta, jogada que despreza a lei da gravidade e comprova a teoria da relatividade.

Portanto, seja o leitor a favor dos artistas ou dos cientistas, há de reconhecer que Leônidas foi divino. Mesmo que ele tenha cometido todos os sete pecados capitais. Não negava sua soberba, assumiu a cobiça quando defendeu a seleção por dinheiro, tinha uma justa fama de luxurioso, a ira era sua companheira desde os tempos de menino, confessou ter inveja, possuía uma insaciável “gula” de gols e, por fim, tinha tanta preguiça que em sua principal jogada ele deitava no ar.

Porém, mesmo pecador, ele, como Deus, criou algo novo, inventou o que não havia. Usou também o barro, só que o dos campos de futebol e, se não trouxe luz às trevas, não há como negar que tenha sido um jogador iluminado.

Leônidas foi um deus negro e pagão que andou por estas terras e fez seus milagres. Alguns deles estão contidos nesta bíblia que está agora em suas mãos. Vamos ler e orar, amém.

José Roberto Torero


O rei do subúrbio

Leônidas iniciou sua carreira como jogador profissional num momento em que o futebol brasileiro vivia uma grande crise política. Paulistas e cariocas lutavam pelo poder e não chegavam a um acordo entre o amadorismo e o profissionalismo.
A Confederação Brasileira de Desportos, CBD, queria que o futebol continuasse amador, e os paulistas da Associação Paulista de Esportes Atléticos, Apea, juntamente com os cariocas da Liga Carioca de Futebol, queria o profissionalismo.
Aos poucos, os defensores do profissionalismo iam ganhando terreno. Uma das razões era que os jogadores brasileiros começavam a ser valorizados também fora do país, como reflexo das excursões que vários clubes brasileiros faziam pela Europa. No começo dos anos 1930, o Lázio, clube italiano de Roma, chegou a importar dez craques brasileiros de uma vez só, e oito eram titulares absolutos.

 Outro fato que colaborava para o rápido desaparecimento do amadorismo eram as visitas de clubes do exterior. Nesse contato, os jogadores brasileiros descobriam que ganhavam muito mal em comparação ao que os clubes estrangeiros pagavam. Tanto era verdade que os clubes perdiam vários jogadores a cada excursão que faziam. O futebol começava a se tornar um grande negócio, e para os que faziam o espetáculo despontava o sonho de poder viver exclusivamente do esporte.

Leônidas estreou como profissional em 1930 no Sírio e Libanês, clube da pequena colônia síria, com sede no bairro da Tijuca. O amadorismo estava morre não morre, mas ele não queria saber de nada disso, tinha mais no que pensar e fazer dentro dos gramados, estava apenas começando e essa discussão de “cachorro grande” era coisa para os mais velhos. Léo ainda não tinha completado 17 anos quando jogou pela primeira vez no terceiro quadro do Sírio. Uma época em que os jogadores eram obrigados a passar pelo menos seis meses nos quadros inferiores para chegar ao time principal.

 O jogo de estreia foi contra o Esporte Clube Carioca, tarde em que Leônidas marcou 1 dos 3 gols assinalados contra o adversário. A partida acabou 3 a 1 e os torcedores presentes no antigo campo do Jardim Botânico ficaram impressionados com o futebol apresentado por aquele garoto desconhecido. Todos queriam saber quem era, de onde vinha, e quem tinha descoberto aquela verdadeira joia.

Os dirigentes do Sírio ficaram tão admirados quanto à torcida e, assim que o jogo acabou, Leônidas foi convidado a jogar no domingo seguinte pelo segundo quadro do Sírio. Isso mesmo, Leônidas precisou de apenas um jogo para mostrar que seu futebol era grande demais para continuar no terceiro quadro de uma equipe.

A responsabilidade de Léo seria ainda maior, pois o Sírio iria enfrentar a forte equipe do Botafogo. Em casa, após o jogo de estreia, Leônidas conversava com o pai adotivo, Mário Pinto de Sá, sobre sua apresentação. Dona Maria observava de longe o papo. Estava feliz, mas no fundo desejava que nada daquilo estivesse acontecendo, pois assim teria chance de convencer o filho a mudar de profissão. Mário estava orgulhoso e sabia que Léo ia dar certo. Não negou seu incentivo, mesmo que isso significasse nunca mais vê-lo formado médico.

Mário tinha uma razão especial para estar feliz. Na roda de amigos do bar que mantinha no campo do São Cristóvão não se falava de outra coisa, a não ser da estreia de Leônidas como profissional. Para Mário, aquelas conversas tinham um sabor todo especial, pois lembrava que Leônidas, pouco tempo antes, havia jogado no São Cristóvão, mesmo que tivesse sido apenas nas famosas “peladas”. Era um período em que os dirigentes do clube não tinham dinheiro para apostar no futuro de Léo, e o deixaram partir.

Mário tanto insistia que, em pouco tempo, Leônidas seria o maior jogador do Brasil, que os amigos, rindo das suas previsões, lançaram o desafio ao velho despachante: “Se ele é tão bom assim, vamos ver o que ele vai fazer domingo aqui em Figueira de Melo”.

Mário não sabia que o jogo seguinte de Léo seria exatamente ali, no campo do São Cristóvão, e ficou preocupado: Como o rapaz iria reagir ao pisar no gramado, onde, um dia, sonhou jogar?

No dia do jogo, lá estava Mário nas arquibancadas lotadas, rezando para que tudo desse certo. Estava quase chorando de tanta emoção em ver o “filho” entrar em campo com a camisa do Sírio.
Leônidas deixou os torcedores do São Cristóvão com a boca aberta. Marcou um, depois outro, e até o final da partida ainda marcaria mais um. O Sírio venceu o Botafogo por 5 a 2, Leônidas marcou 3. Os associados do São Cristóvão queriam descobrir quem eram os espertos que haviam deixado aquele menino escapar de seu quadro.
         No dia seguinte, logo após a vitória sobre o Botafogo, Leônidas foi até a sede do clube buscar seu bicho pela vitória. A torcida ainda enlouquecida com sua apresentação não hesitou em batizá-lo de: “O novo Petronilho” ou ainda, o “Petronilho carioca”. O batismo era uma homenagem ao grande centroavante, Petronilho de Brito, que jogava no Esporte Clube Sírio de São Paulo e lançou definitivamente a figura do negro no futebol paulista e brasileiro. Para se ter ideia da comparação que os torcedores do Sírio faziam, em 1930 Petronilho foi vendido para o futebol argentino a peso de ouro e em pouco tempo era chamado pelos torcedores do San Lorenzo de Almagro de “El Maestro”.
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No dia 6 de junho de 1938, o jornalista francês Raymond Thourmagen, escrevia no Paris Match sobre sua atuação:

Acabo de assistir ao jogo dos brasileiros. Serão eles animais de cinco pernas? Não! Há entre eles um que tem seis. Refiro-me a Leônidas. Cabelos esticados, pele escura como um grão de café torrado, pequeno de corpo. Mas sua vivacidade é verdadeiramente desconcertante, sua velocidade, insuperável. O comandante brasileiro avança como um raio, infiltra-se como uma flecha e lança bólidos contra o arco contrário. Leônidas não pesa 60 quilos e pouco importa que seja atirado ao solo pelo inimigo. 

Esse homem de borracha, na terra ou no ar, possui o dom diabólico de controlar a bola em qualquer posição, desferindo chutes violentos – não importa de que forma – quando menos se espera. Numa partida, Leônidas deve beijar a grama uma vez por minuto. Mas não tem importância, pois quando se levanta, de um salto, está de novo pronto para a luta. E quando seus adversários pensam tê-lo dominado, ele toma posição horizontal, os pés estendidos, qual uma flecha no ar. Nessa posição de fera atingida, vi Leônidas executar uma série de tesouras com as pernas, aproveitando um centro e golpeando a bola de costas para o gol. Certamente, seus companheiros são grandes jogadores. Mas se tivessem esquecido Leônidas no Rio, nosso assombro hoje seria menor. Quando Leônidas faz um gol, pensa-se estar sonhando, esfregam-se os olhos. Leônidas é a magia negra!

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