segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Sua excelência, a torcida.


Literatura na Arquibancada destaca mais um artigo escrito pela psicóloga do esporte, Dra. Katia Rubio, em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/2011/sua-excelencia-a-torcida/. Uma bela reflexão sobre o comportamento das torcidas, logo depois de ela ver as reações dos torcedores após o jogo entre Corinthians e Figueirense, pelo campeonato brasileiro. Imaginem o que poderá acontecer, no próximo domingo, rodada final do Brasileirão!

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Faço parte de uma família que carrega uma forte tradição no futebol. Pai, mãe, irmã, tios e tias, primos e primas e agora, até sobrinhas, comungam a mesma opção clubística. E toda tradição, como nos afirma Eric Hobsbawn, foi um dia inventada por alguém, atendendo a alguma intenção. Antes mesmo de conhecer os autores da área sociocultural do esporte que vão apontar as influências sociais e culturais na construção do fenômeno esportivo vi na minha própria família a influência que o esporte, e mais especificamente o futebol, é capaz de exercer em sua dinâmica. Tenho um primo chamado Rivelino, isso mesmo, não é Roberto, é Rivelino; o gato de uma prima, após um jogo histórico, passou a se chamar Tobias, e por aí vai.

Não imaginava durante a infância que minha profissão quando adulta estaria relacionada ao esporte. Praticante assídua de diferentes modalidades cheguei a fazer jornalismo pensando em me tornar uma jornalista esportiva, mas a vida me levou para outras paragens embora a paixão pelo esporte e todo esse universo nunca tenham me abandonado.

Muitas das minhas lembranças de jogos estão relacionadas com a família e amigos reunidos para assistir jogo, torcer pelo time e sair às ruas para festejar. Sou de um tempo que a rivalidade entre torcidas e torcedores não passava de discurso acalorado ou infinitas piadas que tanto podiam se relacionar com a vitória como com a derrota, do próprio time ou do adversário. Lembro também de meu pai contar de suas idas ao Pacaembu e das tantas vezes em que sentou ao lado de torcedores do time adversário e de compartilharem o amendoim e as impressões sobre o jogo de forma gentil, cordial. Como não sou desse tempo, creiam, eu ouvia tudo isso e ficava pensando em preto e branco, como se as imagens descritas por ele estivessem em um filme mudo, com homens trajando terno e chapéu e as mulheres vestidos acinturados e sapatos combinando com a bolsa. Quando vou ao Museu do Futebol de São Paulo (um dos museus de esporte mais incríveis que já visitei no mundo) e observo o acervo relacionado com os anos 1930 e 1940 vejo materializada a imagem que fazia do futebol e da sociedade da época. O estádio do começo do século XX, lugar da aristocracia urbana, foi sendo invadido pela classe trabalhadora que honrou esse espaço sagrado prestigiando as pelejas com o devido respeito ao público que lá se dirigia para assistir e honrar a tradição de uma competição.

E a informalidade que assolou os muitos espaços sociais também chegou ao futebol. O respeito antes dispensado ao adversário foi aos poucos se transformando em rivalidade incontida, e em curto tempo inimizade contenciosa. E os estádios, campo com instalações destinadas a competições esportivas; para os romanos, arena, carreira; para os gregos, medida itinerária correspondente a 185 m.; todos, passou a ser um campo definido por regras sociais e delimitações físicas. E as novas gerações, criadas dentro de um clima belicoso, já não mais assistem a um espetáculo, mas vão ao campo para matar ou morrer, materializando a disputa simbólica que uma competição esportiva poderia representar.

Das muitas situações que a sociedade contemporânea me proporciona capazes de me surpreender, e também me indignar, a atitude dos torcedores do futebol é sem dúvida aquela que mais me faz lembrar do texto de Freud “Mal-estar na civilização”. Não farei aqui digressões e elucubrações a respeito da psicanálise, mas, por esse texto se referir à distinção entre civilização e cultura, não posso deixar de pensar no que o velho Sig escreveu nos anos 1930 observando a tudo o que ocorria com as “massas” na Alemanha pré-nazismo, muito embora ele já observasse a passagem da natureza à cultura em seu artigo “Totem e tabu” de 1921. Observou Freud que todo indivíduo, em sua essência, é inimigo da civilização, uma vez que neles estão presentes tendências anti-sociais, anti-culturais e destrutivas. Isso se justificaria porque como ser social, o ser humano precisa da comunidade, mas a civilização trava uma luta incessante contra esse ser que procura ser único e livre, buscando substituí-lo pelo poder do coletivo. Ou seja, o indivíduo deve ser sacrificado para o bem da sociedade.
Tudo isso para falar sobre o que vejo hoje do torcedor.

Há uns anos recepcionei um grupo de professores estrangeiros que vieram para um congresso no Brasil e me pediram para assistir a um jogo de futebol. Olhamos a tabela e vimos um jogo que aconteceria no domingo, mas para nosso azar um dos times estava com sua torcida insatisfeita. E para nossa surpresa essa torcida, desrespeitando as mais nobres tradições do esporte bretão, foi de amarelo ao estádio e assistiu ao jogo de costas para o gramado, desrespeitando as cores de seu uniforme e bandeira. Tanto o Prof. Richard Cashman, da Austrália, conhecedor dos Estudos Olímpicos e um dos grandes intelectuais dos Jogos Olímpicos de Sydney, quanto o Prof. Eckhart Meinberg, da Universidade de Colônia e um dos papas da ética no esporte, custaram a entender o que ocorria ali no estádio. Tentei de todas as formas lhes explicar que aquilo era um ato de desagravo da torcida em relação à conduta do time, considerado pouco empenhado nos jogos, mas minhas explicações foram inúteis. E o jogo morno terminou com protestos de torcedores e espectadores de forma geral. Embora torcedores isolados considerassem absurdo tudo aquilo, o que prevalecia era a força do grupo, da massa.

E as coisas inusitadas não param por aí. Mais do que representar alguém que defende o time escolhido por si, ou pela família, para gostar e defender o torcedor vive hoje uma espécie de insanidade em dia de competição. Não falo apenas daqueles que vão ao campo para cantar o hino do time, gritar pelos jogadores em campo, comemorar os gols feitos ou lamentar pelos sofridos. Falo também daqueles que do conforto de suas poltronas, alocadas diante de aparelhos de TV 40 polegadas que recebem imagens pelo pay per view, gritam como se parte do corpo fosse extirpado a golpe de machado ou pelo golpe de um dragão acuado. Acompanho em diferentes bairros, em diversas cidades brasileiras, jogos de distintos campeonatos e, surpreendentemente observo um comportamento inusitado se repetir: a firme disposição em torcer, não para o próprio time, mas por aquele que pode de alguma forma prejudicar o meu adversário.

Precisei de algum tempo para entender que torcida é como maré, ela pode variar conforme o dia, a lua e as condições climáticas… tudo depende de quem joga, e não precisa ser necessariamente o seu time, mas o time do qual se é adversário. Isso significa que os sinais antes emitidos pelos espectadores a partir de seus lares podem representar muito mais que a vitória do próprio time. Ouvir um “CHUPA PORCO” ou “CHUPA CORINTHIANS” de um desavisado do condomínio ao lado, que assistiu pela TV aberta a cena avassaladora e foi favorecido pelos dramáticos alguns segundos que separam a mesma cena da TV a cabo, precisa ser confirmado antes da comemoração ou do lamento pelo ocorrido. Feito isso serão necessários alguns momentos para que a equação se processe:


E assim, mais um espetáculo foi criado a partir do futebol brasileiro – manifestações pulmonares e vocais capazes de desafiar os mais possantes amplificadores elétricos. Visto em primeira instância isso poderia ser tomado como um ato de desagravo e desrespeito aos vizinhos que professam crenças diversas, porém, rapidamente essas manifestações da livre expressão passaram a ser esperadas pela massa torcedora que forma a maior torcida do país a partir do momento que o time corre o risco de ser campeão.

E assim, a depender da tabela e da rodada do campeonato, torcidas se formam e transformam pelo país afora como o rodar de um caleidoscópio, alterando seus gritos pró ou contra alguém. Afinal, diante da impossibilidade do próprio time ser campeão, o melhor programa é torcer contra o arqui-rival. E aquele termo, que décadas atrás seria considerado uma ofensa sem precedentes entre os senhores e senhoras bem vestidos que ocupavam as arquibancadas dos estádios, CHUPA, hoje é motivo de riso para os que não entendem ao certo o que é sentir o disparar do coração quando o próprio time faz um gol. E então as atenções se deslocam do gramado para qualquer outro espaço onde sua excelência, o torcedor, faz seu próprio espetáculo.

Sobre Katia Rubio:
É professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995). Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.

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