domingo, 20 de novembro de 2011

Que jogo é esse?



Por André Ribeiro

Será que só eu vi aquele olhar quando a câmera de televisão o focalizou do lado de fora do campo, atrás das placas de publicidade?

Com certeza não. Os olhos arregalados acompanhavam alguma jogada do lado de dentro do campo. Seu time ainda não estava perdendo, mas, ali, do lado de fora, ele sabia que se algo de errado acontecesse do lado de dentro do campo ele poderia ser a única solução.

A câmera não mostrou e muito menos nenhum dos quase 40 mil torcedores, além do batalhão de repórteres que estavam ali, bem ao seu lado, percebeu qual fora a sua reação naquele instante que beirava a tragédia. O título tão sonhado estava indo pelo ralo. Rostos em pânico, torcedores das poltronas protestando, xingando o treinador, excomungando esse ou aquele jogador menos ligado na partida eletrizante.

Do lado de fora, esticando os músculos e olhando para as arquibancadas, ele viu um companheiro de equipe perder uma bola na intermediária adversária e sair na captura do jogador em desespero. Mais alguns metros e uma falta fora marcada. Em mais alguns segundos, ele estava fechando os olhos bem apertados, como se não acreditasse no que acabara de ver. Gol do adversário. Tudo que ele menos queria estava acontecendo. Ou será que ele queria exatamente o que estava prestes a acontecer?

Das arquibancadas chegou o coro do seu nome em uma só voz: Adriaaaaaano, Adriaaaaano...

Cederia o treinador filósofo ao apelo popular?

Começou a apertar ainda mais o aquecimento...Os músculos entravam em agitação...O coração pulsava cada vez mais rápido...
 A câmera não mostrou e nenhum torcedor viu, mas seus olhos estavam colados aos movimentos do treinador agitado à beira do gramado. Ninguém precisou chamá-lo, pois percebeu o exato momento em que o técnico falou:

- Chama o Adriano.

Naqueles passos em direção ao banco, pensou consigo mesmo: “Meu Deus, e agora...”

No clima em que o jogo transcorria, seria capaz de entrar e transformar aquele fim que se anunciava trágico para quase 40 mil pessoas e outros milhares de olhos grudados à frente do aparelho de televisão?

Observando seu olhar, parecia assustado. Acho que sequer imaginava ter de entrar para jogar. Muito menos numa situação como aquela de placar adverso e o sonho de título indo embora com a derrota. A torcida sabia que estava fora de forma. O equipamento de proteção às canelas sequer estava colocado. Perdeu alguns segundos ainda tendo de prendê-las com ataduras, mas nesse instante, seu olhar já era para o lado de dentro do campo. Cada volta que dava na atadura, imaginava o que poderia fazer quando estivesse em instantes ali, correndo em busca de um gol.

O faro do gol...

Alguns minutos se passaram e em um contra-ataque, antevendo aonde a bola deveria ser rolada, indicava freneticamente com um das mãos o lugar em que ela tinha de ser rolada dentro da área adversária. O pensamento sabia o que deveria fazer, mas o corpo pesado iria permitir que tudo que pensara naquela fração de segundos aconteceria na prática?

O faro do gol...

Ele sabia o que fazer, mas ainda restava uma única barreira...O goleiro com as duas mãos esticadas vibrando como se dissesse a ele: “chuta que eu vou pegar”.

O faro do gol...

Um ano e cinco meses depois, ele conseguiria superar essa abstinência? O chute colocado milimetricamente teve de esperar alguns segundos até ter seu desfecho final. Seu olhar foi captado pelas câmeras das tevês. O mesmo olhar captado alguns minutos antes quando estava do lado de fora. E aquecia... e sofria com a hipótese de ter de entrar naquele jogo. Em menos de 2 segundos, tudo que passara nos últimos meses estava prestes a ter fim. Poderia sair tranqüilo novamente nas noites do Rio ou de São Paulo para “comemorar” com quem quisesse sem ser questionado.
Onde ele estaria agora?

Não importa. Com o dever cumprido, ele pode ir onde bem entender e com quem quiser, com a certeza de ter feito sua obrigação.

Um único gol pago com milhões de reais de sua contratação. Valeu a pena esperar? Pergunte a qualquer torcedor e a resposta não será difícil de descobrir. 


(crônica sobre o jogo Corinthians 2, Atlético Mineiro 1, campeonato brasileiro 2011. Adriano marcou o gol da vitória aos 44 minutos do segundo tempo)

Nenhum comentário:

Postar um comentário