terça-feira, 15 de novembro de 2011

Porque hoje é dia de futebol...


Literatura na Arquibancada destaca abaixo um texto assinado pela psicóloga do esporte, Dra. Katia Rubio, em seu blog http://blog.cev.org.br/katiarubio/2011/o-dia-em-que-a-fiel-ganhou-mais-5-loucos-em-sua-torcida. Um texto revelador sobre as verdadeiras reações que o espetáculo chamado futebol pode causar em qualquer pessoa. As fotos abaixo pertencem ao site www.timaodecoracao.com.br (postadas por THAISRREIS).
O dia em que a fiel ganhou mais 5 loucos em sua torcida.
Adoro minha profissão. Sim. Sou professora e pesquisadora de uma universidade pública. Não recebo o maior salário do mundo, mas tenho o privilégio de investigar os temas que provocam minha curiosidade, de conhecer pessoas diferentes ao redor do mundo e fazer coisas completamente fora do padrão das profissões ditas normais. Meu fazer está associado a produzir idéias, instigar pessoas à reflexão e provocar a angústia produtiva que advém do deslocamento das zonas de conforto.
Essa semana, por conta do Congresso da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte, tive o privilégio de reencontrar pessoas muito queridas, conhecidas de outros congressos. Além dos colegas brasileiros vieram ao Brasil Joaquin Dosíl, da Espanha, Humberto Serrato e Sandra Yubelly García Marchena, da Colômbia, e Marcelo Roffé, da Argentina, que além de psicólogos do esporte são amantes dessa especialidade que se multiplica por esse país que será sede da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos em breve. Apesar das teorias pregarem um distanciamento de nossos objetos de pesquisa não é difícil provar o quanto somos apaixonados pelo que fazemos. E onde há uma disputa ou um espetáculo esportivo nosso coração pulsa mais forte, nossa atenção se desvia e de imediato se inicia uma discussão onde podemos desfiar nosso rosário de teorias acerca dos diferentes temas de nossa especialidade. É isso. Queiramos ou não somos capazes de ter argumentos para explicar o inexplicável no que se refere ao mundo do esporte, universo de contornos flexíveis e ilimitados.
Entre conferências, simpósios, mini-cursos e temas livres esse grupo de amigos psicólogos (ou seriam psicólogos amigos?) trabalhou na preparação do próximo congresso da Sociedade Iberoamericana de Psicologia do Esporte, que será realizado em São Paulo, em outubro de 2012, e falou muito sobre o que passa em cada um de seus países e de seu trabalho. E, quando encerramos a jornada de sábado surgiu um pedido difícil de não se negar a um visitante estrangeiro: assistir a um jogo de futebol! Consultada a tabela do domingo lá estava uma peleja digna de recomendação: Corinthians e Atlético Paranaense, no Pacaembu. Não vou escrever esse texto sob a ótica de torcedora, mas daquela que olha para o esporte como um fenômeno social complexo, capaz de inúmeras interpretações, utilizando para isso apenas uma única partida. A excitação de meus colegas era tamanha, que pareciam crianças em véspera de Natal esperando pelo velhinho Noel e seu saco cheio de presentes.
Por mais que eu dissesse que o Pacaembu ficava perto do hotel onde estavam na Avenida Paulista ficaram surpresos com a rapidez com que chegamos ao estádio, já cercado por uma multidão vestida de preto e branco, em diferentes estilos e modelos. Embora a turba se movimentasse freneticamente nada fazia sugerir o temor de um arrastão ou o receio de uma emboscada. Pelo contrário, como bem observou Sandra, aquilo era uma grande festa com muitos pais carregando seus filhos pelas mãos ou os menores pendurados nos ombros, muitas mulheres de diferentes idades e homens de todas as feições. Chegamos à bilheteria e confirmamos o óbvio: não havia mais ingressos “normais”. Só restavam os tais ingressos VIP. Interessante ter que resignificar esse tal de Very Important Person para Venda de Ingressos p/ Poucos, uma vez que adentrar ao Pacaembu com aquele bilhete era preciso desembolsar R$ 180,00, módica quantia se pensarmos no quanto custarão os ingressos mais baratos para a Copa do Mundo.  
O fato é que a ausência de ingressos na bilheteria nos levou a ser coniventes com o crime, quase organizado: os vendedores do câmbio paralelo. Faço questão de enfatizar que somente participei desse tipo de patifaria por causa de meus convidados. Imaginem o que é prometer o Hopi Hari a uma criança em pleno mês de janeiro e, depois de preparar a sacola com maiô, protetor solar, óculos, sandálias e salgadinhos, descobrir que tudo não passou de um mal entendido… Com desejos infantis não se pode brincar. Acionei meu detector de faces suspeitas e comecei a perguntar a alguns senhores que se esforçavam para parecer mais um na multidão se sabiam se ainda havia ingressos. É de se supor que muitos ingressos apareceram a preços que variavam de 70 aos mesmos 180 reais da bilheteria, com a diferença que eram para o tobogã. Sem contar com a ética particular dos vendedores das cercanias do estádio. Tomando-me também como estrangeira, talvez porque me comunicasse com meus convidados em espanhol, tentaram me vender de tudo, inclusive ingresso do setor verde como se fosse meio do campo. Como é divertido parecer ignorante aos olhos de espertos!
Depois de quase uma hora de negociações com diferentes representantes dos amigos do alheio, que facilmente nos colocariam nas primeiras fileiras do G20 ou da OMC, conseguimos 4 ingressos com inscrições que anunciavam ser aqueles pedaços de papel um salvo conduto para o território livre da Gaviões da Fiel e 2 para a Camisa 12. Fiquei surpresa com aquilo: embora digam que é preciso acabar com as torcidas organizadas há espaços, e ingressos, reservados para essas organizações, que depois são vendidos por 3 ou 4 vezes mais do que seu valor na bilheteria!!!! Inacreditável! Fiquei me perguntando para que então serviria o tal do cadastro nacional de torcedores e outras iniciativas natimortas para o controle da violência nos estádios. Todo aquele comércio, sob as barbas dos senhores da lei paramentados até os dentes, me pareceu mais do que oficial e reconhecido pelos guardiões do templo sagrado da gorduchinha.
Joaquín, Isabel sua namorada, Sandra e Marcelo ficaram com os ingressos da Gaviões e entraram pelo portão da frente da Praça Charles Muller. Mal passaram pelas catracas e saíram abraçados pulando como loucos, como se fora a primeira vez que assistissem a uma partida de futebol, esquecendo-se dos demais que ficaram para trás. Quando eu e Humberto fomos passar pelo controle, nossos tíquetes apresentaram problemas e tivemos que ir para outro portão, trocar nossos ingressos, passar por uma nova revista policial, subir escadas, entrar no estádio pelo meio da multidão fiel até nos encontrar com eles novamente.
Que espetáculo! Como descrever a sensação de ver um estádio lotado e em festa? 
Independente da cor da camisa, do hino que se cante ou do nome que o grupo carrega pouca coisa me parece mais emocionante do que um estádio lotado com uma torcida feliz com o desempenho de seu time. Ontem o Pacaembu era assim: 37 mil loucos que faziam uma festa para si próprios e para qualquer espectador que desejasse assistir. Ah, como lembrei de meu pai, Seo Hilário aquele corintiano louco, fanático, que até no hospital tinha a companhia de seu coringão em uma toalha que ficava pendurada na parede em frente a sua cama. Difícil não rimar coringão com coração ou com Larião. Ah Seo Larião que saudade de você e do rádio ligado nos dias de jogo do seu time querido. Como lembrei das tardes quando a casa em silêncio ouvia as transmissões de rádio que vinham de seu quarto, espaço reservado àqueles momentos privados e mágicos em que a voz do locutor se materializava em alegria ou lamento após 90 minutos de reclusão.
Mas, ontem o que assisti no Pacaembu foi a incrível conversão de 5 estrangeiros em loucos. Loucos pela festa que se fazia dentro do estádio, pela batucada incessante, pelas bandeiras que se desfraldavam a cada gol, pelo pai fiel que passou quase 90 minutos com o filho nos ombros pulando, dançando, vibrando. Como negar a existência de uma República Democrática constituída por uma torcida que se diz o povo e se prova como tal? Como lembrei das histórias dos tempos em que o Pacaembu era um espaço democrático que abrigava diferentes tribos independente de suas origens e sem demarcação territorial. Meus colegas iberoamericanos experimentaram de imediato uma sensação confortável de pertencimento.
Sei que a escolha do time, no Brasil, é algo como uma herança que se recebe quando ainda estamos sendo gestados. Daí a camisa na porta do quarto na maternidade e presentes que se sucedem com o passar dos anos. Situação diferente de quando somos adultos e fazemos escolhas motivados pelas mais distintas situações que vão desde “gosto porque gosto e não devo satisfação nenhuma a ninguém” até “fui convencido pelas razões que a própria razão desconhece”.
Ontem foi o dia em que a fiel ganhou mais 5 loucos em sua torcida. Não porque é o time do povo, ou porque tem a maior torcida do país ou ainda por estar na primeira colocação do campeonato. Somente porque, preto no branco, não há nada que se compare a um jogo jogado por onze jogadores em campo e 37 mil na arquibancada.

Sobre Katia Rubio: 
É professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP. Escreveu e organizou 15 livros acadêmicos nos últimos 10 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos abordando os temas psicologia do esporte, estudos olímpicos, psicologia social do esporte, psicologia do esporte aplicada e esporte e cultura. É também bacharel em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995).
Coordena atualmente o Centro de Estudos Socioculturais do Movimento Humano da EEFE-USP e foi presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte entre os anos de 2005 a 2009.


Um comentário:

  1. Anônimo11:40

    Belo texto e duas observações, professora: comprar de cambista não se justifica. Para usar seu próprio exemplo, temos de ensinar o certo pros nossos filhos "até no caminho pro Hopi Hari". A segunda observação é pela redundância: chamar um corintiano de fanático é pleonasmo.
    Kico Gemael, um cidadão corintiano

    ResponderExcluir