terça-feira, 8 de novembro de 2011

Parabéns Marechal (Final)


Nesta sexta-feira, dia 9 de novembro, Paulo Machado de Carvalho, um dos maiores dirigentes esportivos do país e dono de um império das comunicações no Brasil, completaria 110 anos. Ele morreu no dia 7 de março de 1992. Literatura na Arquibancada contará em alguns posts a trajetória do empresário de comunicação e dirigente esportivo.
Neste quarto e último post, recuperamos trecho da obra “Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil”, de André Ribeiro, Editora Terceiro Nome, 2007.
Para conhecer toda a vida de Paulo Machado de Carvalho, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura da biografia “O Marechal da Vitória”, escrita pela dupla Tom Cardoso e Roberto Rockmann (A Girafa, 2005).
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Não importava qual o veículo, se rádio, televisão, revista ou jornal: ter prestígio na imprensa esportiva representava poder, especialmente nos bastidores políticos do futebol.
Faltando menos de um ano para a Copa do Mundo da Suécia, Mário Filho, dono do Jornal dos Sports, era um desses jornalistas com poder fora do comum. Quem sentiu na pele essa influência foi o ex-técnico da Seleção Brasileira, Flávio Costa, que retornava de um período de trabalho em Portugal e teve seu nome cogitado para assumir o comando técnico do time brasileiro. Mário Filho não admitia essa alternativa e, nas páginas de seu jornal, fez campanha contra o retorno do técnico derrotado da Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil.
O medo de Mário Filho parecia ser o mesmo do presidente da CBD, João Havelange, que não queria de forma alguma reviver o pesadelo das derrotas sofridas nos dois últimos mundiais. A terceira derrota seguida em mundiais poderia custar caro para as suas pretensões políticas. Havelange, a contragosto, teve de entregar o comando político da Seleção Brasileira para o paulista Paulo Machado de Carvalho.
O dono das Emissoras Unidas teria carta branca para organizar a seleção da maneira que achasse melhor. Para surpresa de todos, o empresário chamou três jornalistas esportivos consagrados para ajudar a formatar um projeto que ficou conhecido como Plano da Vitória. Se em outros tempos homens influentes da imprensa esportiva apenas palpitavam nos rumos da seleção, dessa vez a influência seria decisiva.
  
                          
                      Ari Silva
Paulo Planet Buarque e Pelé

Todas as segundas-feiras, Paulo Planet Buarque, Ari Silva, Flávio Iazetti, Paulo Machado de Carvalho e o novo técnico da seleção, Vicente Feola, reuniam-se no restaurante Zillertal, no andar térreo do prédio da Federação Paulista de Futebol, na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, centro de São Paulo.
A primeira decisão do grupo foi que a seleção deveria ter uma comissão técnica diferenciada, e para isso foram convocados o supervisor Carlos Nascimento, o preparador físico Paulo Amaral, e o psicólogo, professor João Carvalhaes. Durante seis meses discutiram, nesses encontros, dezenas de assuntos, defenderam suas opiniões e pontos de vista, redigiram 96 artigos do tal plano e chegaram a um consenso sobre quatro itens que consideravam essenciais na escolha dos futuros convocados: “Primeiro, disciplina; segundo, entre um supercraque pouco afeito à necessidade de compenetrar-se em uma Copa do Mundo e outro pouco dotado, mas dedicado, leva-se este; terceiro, uma preparação física fantástica, porque brasileiro não gostava de treinar, gostava de João-bobo e sempre inventava uma dorzinha aqui e ali para o médico dispensá-lo; quarto, nós não podíamos nos apresentar sempre jogando da mesma maneira, para isso fizemos a comparação com os americanos no basquete que tinham um time para show e outro para ganhar Olimpíada – nós tínhamos de ter time para show e time para ganhar Copa do Mundo”, recorda Paulo Planet.

Mário Filho

Para esfriar o clima de rivalidade entre a imprensa do Rio de Janeiro e a de São Paulo, Paulo Machado de Carvalho − que tinha bom trânsito com os principais jornalistas cariocas, como Ricardo Serran e Mário Filho −, aproximou-se ainda mais dos formadores de opinião para evitar o ciúme natural que apareceria com a influência dos cronistas paulistas escolhidos para formatar o tal plano da vitória. O clima de cordialidade chegou a ponto de alguns jornalistas cariocas, como Arnaldo Niskier e Jader Neves, da Revista Manchete, serem liberados para participar de um treino coletivo com a seleção que se preparava na cidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais.
Paulo Machado de Carvalho só não contava com atritos entre os próprios integrantes da imprensa paulista, embora as discussões não tivessem nada a ver com a Seleção Brasileira.
Estrelas da crônica esportiva invariavelmente trabalhavam em rádio, jornal e televisão, a vitrine para os que queriam ficar ainda mais famosos. Walter Lacerda, de O Esporte, por exemplo, trabalhava na Rádio Panamericana e participava de mesas de discussão na TV Record. A rivalidade entre Tupi e Record era diária, ainda mais em um clima de pré-Copa. Certo dia, depois de discutirem as convocações da Seleção Brasileira, o papo passou para um debate acirrado sobre as paixões clubísticas dos participantes do programa: “Em um desses debates da Record, na véspera da Copa do Mundo, Álvaro Paes Leme brigou com o Geraldo Bretas. Depois, queria brigar com Paulo Planet Buarque, até chegar a mim. A discussão era sobre o time para os quais os jornalistas torciam. Disse para ele que todo mundo sabia para quem eu torcia, e perguntei por que ele escondia que torcia para o Santos. Braga Júnior, narrador, estava ao meu lado e provocou: ‘Levanta Valter, vai lá e dá com o microfone na cabeça dele’. Paes Leme, aos berros, levantou, abotoou o paletó e disparou: ‘Agora você vai apanhar’. Quando ele chegou bem próximo, ameacei: ‘Se você encostar em mim, eu dou com este microfone na sua cabeça’. A hora em que levantei o microfone, a emissora saiu do ar”.

Álvaro Paes Leme

No dia seguinte, a grande pergunta era: Lacerda deu com o microfone na cabeça de Paes Leme ou não? A resposta é: não deu, mas a Air France, patrocinadora do programa, retirou o patrocínio da produção às vésperas da disputa da Copa do Mundo.
Um programa ficar sem o patrocínio não era nada quando comparado com a perda de exclusividade dos direitos de exibição dos filmes da Copa para sua maior concorrente. A TV Tupi, de Chateaubriand, saiu na frente da Record e comprou da empresa alemã Sveriges os direitos exclusivos para exibir no Brasil os jogos do Mundial de 1958.
O jornalista e escritor José de Almeida Castro foi o responsável pela negociação que custou 5 mil dólares. Na Europa, pela primeira vez os jogos seriam transmitidos ao vivo, enquanto no Brasil os filmes ainda seriam exibidos com dias de atraso, além de editados com meia hora de duração.
Inconformada com a exclusividade, a TV Rio decidiu jogar sujo. Pipa Amaral, dono da televisão, pediu ao locutor Luiz Mendes que gravasse os jogos da seleção na Copa, mesmo sem ter os direitos. O cinegrafista era Augusto Rodrigues, que recebeu para o trabalho uma das câmeras mais modernas da época, uma Auricon, que gravava áudio e vídeo simultaneamente, uma raridade para a época. Os dois entravam nos estádios como torcedores e teriam apenas de tomar o enorme cuidado de não serem flagrados por Paulo Machado de Carvalho. O empresário paulista e chefe da delegação brasileira na Suécia já estava conformado e triste pela perda dos direitos para o maior rival, mas descobrir que seu sócio e cunhado também estava lhe passando para trás seria o fim.
Paulo Machado estava eufórico com sua função de chefão na Suécia, mas no Brasil suas empresas de comunicação perdiam uma batalha atrás da outra com a concorrência. Além dos direitos dos filmes, no rádio, a Panamericana, uma de suas emissoras em São Paulo, não teve a menor chance na briga pela audiência com a Rádio Bandeirantes.
A disputa entre ambas começou antes mesmo do início da Copa. Depois da definição dos adversários brasileiros na primeira fase, Bandeirantes e Panamericana decidiram transmitir o amistoso entre União Soviética e Inglaterra, ambas adversárias do Brasil. A Bandeirantes saiu na frente e reservou a única linha de transmissão disponível. Novamente, como no caso da TV Rio com os filmes, a Panamericana não desistiu e enviou para Moscou o comentarista Paulo Planet Buarque.
Na hora do jogo, Pedro Luiz, narrador da Bandeirantes, atrasou-se e Planet, rapidamente, tomou seu assento preferencial. Quando Pedro chegou, começou a discussão. Depois de muito bate-boca, Planet saiu da cadeira e, resignado, apenas assistiu à partida. O problema é que por conta de toda essa agitação, Pedro entrou descontrolado para narrar o jogo. Acostumado às cores tradicionais das duas seleções, vermelho, para os soviéticos, e branco, para os ingleses, Pedro acabou narrando o tempo inteiro os times invertidos, pois as duas seleções jogaram com uniformes trocados. Sorte de Pedro que o jogo terminou empatado por 0 a 0.

O que se tornou sucesso nas transmissões da Bandeirantes, porém, foi a idéia inovadora do narrador e diretor artístico da emissora, Édson Leite. Pela primeira vez formava-se no Brasil uma rede de emissoras que receberiam a transmissão da Suécia. A operação acabou batizada de CVA, Cadeia Verde-Amarela, e terminou a Copa com índices de audiência espetaculares.
Waldir Amaral narrando a Copa de 1958
pela rádio Continental
Sem poder concorrer diretamente com a Bandeirantes, em São Paulo, a Panamericana juntou-se à Rádio Continental do Rio de Janeiro para transmitir a Copa do Mundo da Suécia. Waldir Amaral era o líder de audiência dos cariocas, e pela Panamericana narrava Geraldo José de Almeida. Além de Waldir Amaral, a audiência do rádio no Rio de Janeiro era dividida entre Oduvaldo Cozzi, da cadeia de rádios dos Diários Associados, e Jorge Curi, da Nacional.
Nem mesmo na Copa de 1950, disputada no Brasil, a imprensa esportiva teve tanto espaço, em todos os tipos de mídia. A euforia com a seleção que disputava o Mundial da Suécia agitou os 64 milhões de habitantes do país. Veículos para divulgar o que acontecia nas distantes cidades de Gotemburgo e Estocolmo era o que não faltava. Em 1958 existiam 708 estações de rádio, oito de televisão e mais 252 jornais diários.
O plano da vitória, traçado por Paulo Machado de Carvalho e jornalistas paulistas, deu certo. Tropeço, somente na segunda partida, contra a Inglaterra, e mesmo assim o Brasil empatou o jogo por 0 a 0. O sinal de alerta entrou em ação. A imprensa forçou a barra para que um novato e um artista da bola entrassem na equipe na terceira partida, contra os soviéticos. O mundo conheceria então o talento de Pelé e de Garrincha. A Seleção Brasileira voltaria a vencer com facilidade, 2 a 0, caminhando tranqüila até a decisão contra os suecos, donos da casa.
O que para torcedores comuns e grande parte da imprensa esportiva parecia impossível, aconteceu: o Brasil, campeão mundial de futebol. Nunca, jornais, revistas e rádios ganharam tanto – afinal, foi uma conquista inédita. Só o jornal Gazeta Esportiva, de São Paulo, vendeu quase 400 mil exemplares no dia seguinte ao título mundial. Depois disso, então, aí sim que a imprensa esportiva faturou alto, nos cofres e nos bastidores políticos.
A expectativa de familiares e torcedores com o retorno dos campeões era enorme. Acima de tudo, ser o anfitrião dessa recepção representava poder. Por isso, Assis Chateaubriand não titubeou, e para não perder a ocasião levou quase todos os familiares dos jogadores para a sede de sua revista O Cruzeiro, onde recepcionaria os heróis.
Mesmo depois de uma cansativa viagem de volta, os jogadores desembarcaram no Rio de Janeiro com o roteiro programado de visita ao Palácio do Catete, onde seriam recebidos pelo presidente da República, Juscelino Kubitscheck. Contudo, Chatô literalmente seqüestrou a comitiva brasileira, que desfilava em carro aberto pela avenida Rio Branco. No meio do caminho, batedores da polícia militar devidamente subornados por Adolfo Marques Ribeiro, funcionário da revista e secretário da delegação brasileira, desviaram a rota e partiram para a rua do Livramento, sede da revista O Cruzeiro. No primeiro momento, os jogadores protestaram, mas quando souberam que seus familiares estavam na revista, relaxaram. Juscelino, o presidente, ficou furioso com a quebra de roteiro, a ponto de esbravejar com o empresário ao telefone. Recebeu como resposta um placar nada agradável: “Presidente, não adianta reclamar. Meu amigo Dr. Paulo garantiu a vitória por 1 a 0 do Cruzeiro sobre o Catete”.
A decisão de Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, de liberar a parada da seleção na sede da revista O Cruzeiro era na verdade uma vingança contra seu cunhado, Pipa Amaral, da TV Rio, que não havia cedido os filmes com os gols brasileiros para a Record. O cunhado de Paulo Machado ficou ainda mais furioso, porque também havia programado uma grande festa, organizada por um dos maiores patrocinadores da emissora.
Paulo Machado de Carvalho podia fazer o que quisesse sem ser questionado. Virou unanimidade após a conquista inédita do Brasil, fato quase impossível, especialmente quando um ano antes do mundial a imprensa carioca chegara a afirmar que enquanto no futebol existissem Paulos de Carvalho, o Brasil não seria campeão nem de cuspe à distância.
O empresário estava nas nuvens. Além do título mundial, Paulo Machado recebeu do jornal Última Hora o título de “homem do ano”, em grandiosa festa que lotou o estádio do Pacaembu. Logo a seguir, aproveitou também para faturar um razoável extra para suas empresas, com o lançamento de um disco com os gols e os momentos mais emocionantes do Brasil na Copa. As narrações de Waldir Amaral e Geraldo José de Almeida venderam como água e entraram para a história.

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