terça-feira, 8 de novembro de 2011

Parabéns Marechal (3)


Nesta sexta-feira, dia 9 de novembro, Paulo Machado de Carvalho, um dos maiores dirigentes esportivos do país e dono de um império das comunicações no Brasil, completaria 110 anos. Ele morreu no dia 7 de março de 1992. Literatura na Arquibancada contará em alguns posts a trajetória do empresário de comunicação e dirigente esportivo.
Neste terceiro post, recuperamos trecho da obra “Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil”, de André Ribeiro, Editora Terceiro Nome, 2007.

Para conhecer toda a vida de Paulo Machado de Carvalho, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura da biografia “O Marechal da Vitória”, escrita pela dupla Tom Cardoso e Roberto Rockmann (A Girafa, 2005).
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Investir em televisão passou a ser quase uma obrigação para o empresário Paulo Machado de Carvalho, dono da TV Record e de várias estações de rádio em São Paulo. Oito anos após sua fundação, a Rádio Panamericana era considerada uma potência no cenário do futebol brasileiro. Só que a liderança não se traduzia em números, ou seja, em lucro. Em 1953, segundo levantamento feito pelo Anuário do Rádio, o faturamento da emissora era de quase 6 milhões, com lucro de 124 mil cruzeiros. Pode parecer muito, mas era o pior faturamento entre várias rádios da capital paulista. Os especialistas explicavam que os anunciantes não investiam tanto por tratar-se de uma emissora exclusiva do esporte.
Antonio Augusto Amaral de Carvalho,
o Tuta
Para cuidar melhor do negócio televisão, Paulo decidiu entregar o comando da rádio a outro filho, Antonio Augusto Amaral de Carvalho, conhecido pelo apelido de Tuta. Sangue novo era bom e necessário para aumentar o faturamento e, ao mesmo tempo, administrar a vaidade e as disputas entre as estrelas do rádio esportivo.
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A partir dos anos 1950 as maiores estrelas do rádio passaram a dividir suas atividades entre rádio e televisão, e nessa divisão o poder de sedução da telinha começava a incomodar principalmente aos patrões da área esportiva. Paulo Machado de Carvalho decretou para os seus comandados: “Ou é rádio ou é TV!”.
No Rio de Janeiro, por exemplo, Oduvaldo Cozzi, o número um da Continental, era convidado a dirigir o esporte da rádio e TV Tupi. Outro que trocava o rádio pela televisão era o gaúcho Luiz Mendes. A decisão de trocar oito anos de número um da rádio Globo pelo projeto da TV Rio exigia coragem, mas o dinheiro começava a falar mais alto: “Ganhava 12 mil e me ofereceram 35 mil cruzeiros. Não dava para recusar. Conveniência profissional”.
A TV Rio, canal 13, entrou no ar no dia 17 de julho de 1955, e seu proprietário era João Batista do Amaral, o popular Pipa Amaral, cunhado e sócio de Paulo Machado de Carvalho, dono das Emissoras Unidas, com várias rádios de São Paulo, além da TV Record.
As emissoras podiam ser unidas, mas as famílias não. Pipa e Paulo Machado fizeram um acordo: para ter 100% das ações da TV Rio, Pipa teria de abrir mão do direito de qualquer decisão nos negócios de São Paulo. Topou no ato. Pelo acordo, a TV Rio recebeu da Record de São Paulo um caminhão de externa com duas câmeras e um microondas para colocar a estação no ar.
Prédio da extinta TV Rio
Os equipamentos e as instalações precárias, em um antigo prédio da avenida Atlântica, em frente ao posto 6 de Copacabana, não impediram que a TV Rio se transformasse em sucesso absoluto no Rio de Janeiro. Ganhou até o apelido carinhoso de “carioquinha”, dado pelos telespectadores da cidade. No início de suas atividades, o elenco da emissora tinha como base os artistas da Rádio Mayrink Veiga, todos capitaneados por um jovem diretor: Walter Clark.
Como não poderia faltar na grade de sua programação, um dos primeiros programas de sucesso da nova emissora chamava-se Salve o Esporte, apresentado por Luiz Mendes. Mas o programa de maior sucesso da TV Rio chamava-se Noite de Gala, que também mantinha um quadro de entrevistas com personalidades do mundo esportivo.
Mesmo com um belo projeto, a nova emissora não tinha equipamentos suficientes para suportar as ousadias de seu patrão. A prova disso eram as transmissões de futebol realizadas nos finais de semana. Câmeras e microondas tinham de ser desmontados na emissora para serem levados e montados no estádio do Maracanã. Depois, no final do jogo, fazia-se o caminho inverso rapidamente, para que a programação dos estúdios pudesse voltar ao normal.
Enquanto a TV Rio sofria para conseguir levar ao ar sua programação, sua concorrente direta, a TV Tupi de São Paulo, tornava-se a primeira emissora do país a fazer uma transmissão intermunicipal. O evento inédito foi a partida de futebol entre Santos e Palmeiras, no dia 18 de dezembro de 1955, um domingo de sol na Vila Belmiro, em Santos, litoral paulista.
Record e Tupi disputavam diariamente a audiência do público paulistano. A transmissão pioneira feita a partir da cidade de Santos fez o empresário Chateaubriand, dono da Tupi, alfinetar a concorrência ao criar o slogan: “Tupi, setenta quilômetros à frente”.
Dentro de campo, a Record saía na frente ao deixar escapar, pela primeira vez na televisão brasileira, um palavrão ao vivo pelo seu microfone. Sílvio Luiz era o repórter na transmissão da partida entre Corinthians e Santos, válida pelo torneio Rio x SP de 1955, quando correu para cima do jogador Luizinho que acabara de ser expulso da partida. Sem titubear, o repórter da Record esticou o microfone e pegou a primeira reação do jogador: “Foi tudo culpa daquele gaveteiro filho da puta!”.
Por causa do palavrão de Luizinho, a Federação Paulista de Futebol chegou a proibir a entrada de repórteres em campo. Na Câmara Municipal da capital paulista alguns vereadores queriam proibir as entrevistas para evitar novas baixarias.
Em 1954, Mesa Redonda passava a ser o programa precursor das atuais mesas de debates esportivos exibidos pela TV Record, nos finais de semana.
(...)

Quando Assis Chateaubriand criou o slogan “setenta quilômetros à frente”, em 1955, por conta do pioneirismo de uma transmissão intermunicipal, não imaginava que a concorrência pudesse contra-atacar tão rapidamente. No ano seguinte, exatamente no dia 26 de maio de 1956, a TV Record de São Paulo e a TV Rio promoviam a primeira transmissão interestadual, ao vivo, direto do calçadão de uma praia carioca.
O fato virou notícia em todas as mídias, e o cidadão comum custou a acreditar que aquelas imagens de turistas e de pessoas que tomavam banho de sol nas praias pudessem estar sendo vistas simultaneamente nas duas cidades. Para não deixar barato, Paulo Machado de Carvalho, dono da Record, alfinetou Chatô, seu maior concorrente, criando um novo slogan: “Emissoras Unidas – quinhentos quilômetros à frente”.
A primazia de realizar a transmissão inédita coube à dupla Hélio Ansaldo e Sílvio Luiz. Pouco mais de um mês depois, no dia 1° de julho, o futebol brasileiro seria responsável direto pelo aumento na procura por aparelhos de televisão, ainda bem pequena no país. Tudo por causa da vitória da seleção sobre a Itália por 2 a 0. O jogo foi transmitido direto do estádio do Maracanã, para São Paulo e Rio de Janeiro.
Santos, a cidade do litoral paulista escolhida pela TV Tupi para a primeira transmissão intermunicipal, não ficou triste por muito tempo, ao ser destronada. Logo apareceria na cidade um jogador que faria com que televisões, jornais, revistas e rádios de todo o planeta fossem atraídos espontaneamente para transmitir os jogos do Santos Futebol Clube. Gasolina, Dico e Bilé foram alguns dos apelidos que o garoto nascido na cidade de Três Corações, Minas Gerais, ganhou antes de se tornar jogador de futebol profissional. 

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