terça-feira, 8 de novembro de 2011

Parabéns Marechal (2)


Nesta sexta-feira, dia 9 de novembro, Paulo Machado de Carvalho, um dos maiores dirigentes esportivos do país e dono de um império das comunicações no Brasil, completaria 110 anos. Ele morreu no dia 7 de março de 1992. Literatura na Arquibancada contará em alguns posts a trajetória do empresário de comunicação e dirigente esportivo.
Neste segundo post, recuperamos trecho da obra “Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva do Brasil”, de André Ribeiro, Editora Terceiro Nome, 2007.
Para conhecer toda a vida de Paulo Machado de Carvalho, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura da biografia “O Marechal da Vitória”, escrita pela dupla Tom Cardoso e Roberto Rockmann (A Girafa, 2005).
                                                  ******
Paulo Machado de Carvalho usou a criatividade para enfrentar a forte concorrência no rádio esportivo, no início da década de 1940. Até 1944, funcionavam em São Paulo dez emissoras de rádio: Bandeirantes, Cosmos, Cruzeiro do Sul, Cultura, Difusora, Excelsior, Gazeta, Record, São Paulo e Tupi. Com tantas rádios assim, a Rádio Panamericana, criada pelo dono da Record havia dois anos, em sociedade com Oduvaldo Viana e Júlio Cosi, deveria ter um diferencial. Os dois sócios discordavam da idéia de Paulo Machado que queria uma programação exclusiva para o esporte. Desmancharam a sociedade, e para comandar a nova programação da Panamericana o empresário escalou seu filho de apenas 21 anos, Paulo Machado de Carvalho Filho, que tratou de cara de firmar parceria com o jornal A Gazeta Esportiva para ancorar toda a base de informação da nova emissora.
A primeira transmissão de futebol da Rádio Panamericana, ainda com a programação mesclada com outros temas, aconteceu em 6 de maio de 1944. Os dois primeiros contratados para a equipe esportiva eram o narrador Paulo Campos e o cronista esportivo Aurélio Belloti. Coube a Paulo Campos narrar a partida entre Ipiranga e Atlético Mineiro e, oito dias depois, a primeira transmissão internacional, entre Brasil e Uruguai, ficou para Paulo Gomes, direto do estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.
Apesar do custo elevado das transmissões, principalmente das partidas internacionais, dois anos depois a Panamericana tinha jornalismo e eventos esportivos em sua grade de programação. O futebol, claro, era o carro chefe. Para trabalhar na emissora, os narradores e repórteres tinham de conhecer todos os esportes, além de suportar a precariedade dos equipamentos existentes.
Comandar uma equipe desse porte não era missão fácil, e para a função Paulo Machado Filho convidou o narrador Pedro Luiz, que já havia passado pelas rádios Tupi e Gazeta. Além da experiência, Pedro era perfeccionista e tinha fama de durão. Queria o que havia de melhor no mercado para trabalhar, entre narradores, repórteres, comentarista e até mesmo técnicos de som, pois achava que “somente homens que gostassem de futebol poderiam formar uma equipe forte”.
Raul Tabajara, repórter de campo,
no início dos anos 1950
Pela primeira vez na história do rádio esportivo brasileiro formava-se uma equipe, ou melhor, um time de craques responsáveis por segurar um dia inteiro, sete dias por semana, um ano de programação esportiva. Nos primeiros anos de trabalho, foram convocados para essa missão nomes como Mário Moraes, Hélio Ansaldo, Otávio Muniz, Aníbal Fonseca, Raul Tabajara, Blota Júnior, Salém Jr., Nelson Spinelli e muitos outros. Até mesmo um comentarista de arbitragem era escalado nas transmissões. O primeiro foi Flávio Iazetti. Lutas de boxe eram narradas pelo comentarista de futebol, Mário Moraes; Otávio Muniz narrava jogos de basquete. 
O próprio Pedro Luiz, número um da locução no futebol também narrava luta livre, golfe, basquete e vôlei, ou seja, por causa do volume de eventos e horas de programação a cumprir, todos deveriam narrar de tudo um pouco.
Pedro Luiz virou lenda no rádio esportivo brasileiro não só por ter participado de todas as Copas do Mundo até 1998, como por formar um número incalculável de profissionais do rádio e, mais tarde, da televisão brasileira. Era admirado e imitado pela excelente voz e dicção perfeita e, principalmente, pela fidelidade na descrição da jogada. Sem atropelos, dava ao ouvinte a noção exata do que estava acontecendo em campo.
Pedro Luiz
A programação da Rádio Panamericana serviu de modelo e inspiração para muitos programas esportivos que surgiriam anos mais tarde. Logo pela manhã, os ouvintes ficavam informados sobre tudo do esporte ao sintonizar o Alvorada esportiva; no almoço, o irreverente Picando o couro, baseado em crônicas e críticas esportivas; às segundas-feiras, um programa de enorme sucesso batizado de Ceia dos maiorais, precursor das famosas mesas-redondas, onde os principais cronistas esportivos da cidade e outros estados se reuniam na sede do São Paulo Futebol Clube para debater futebol. As convocações da seleção paulista eram analisadas pelos cronistas que participavam do Tribunal esportivo. Mas o mais divertido de todos os programas idealizados pela equipe de Pedro Luiz na Panamericana era o Guarda noturna esportiva, apresentado por Estevan Sangirardi e inspirado em um “inspetor esportivo”, batizado de H-7, que percorria quarteirões da “cidade dos esportes” atrás de informações.

Hélio Ansaldo

Tinha muito mais, e com todo esse cardápio a Panamericana ganhava fama de “emissora dos esportes”. Para atrair estrelas da concorrência, do rádio e jornais, criou o programa Voz do esporte, comandado por Hélio Ansaldo e que contou com participações especiais de Oduvaldo Cozzi, do historiador Leopoldo Santana, do jornalista Thomaz Mazzoni e do capitão Sílvio de Magalhães Padilha. Para atrair a audiência do povão, equipes da emissora se posicionavam nos cinemas, restaurantes e bares movimentados da cidade para ouvir o torcedor nas vésperas dos grandes clássicos.
Uma nova escola de jornalismo esportivo estava nascendo. As transmissões das partidas de futebol criaram novas funções para os profissionais que participavam da cobertura. Repórteres de campo passaram a ter o trabalho valorizado. Na verdade, nesse início quem ficava atrás dos gols eram também locutores, que tinham a função de irradiar o que acontecia quando a bola saía do campo de jogo. Após o encerramento da partida, tinham de informar e entrevistar os personagens principais do espetáculo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário