terça-feira, 1 de novembro de 2011

Para o meu pai



Por André Ribeiro

Dia dos mortos, uma data para muitos cercada de tristeza, recordação, saudades de quem já partiu e nos deixou por essas terras sem o prazer de suas companhias. Tem gente que não dá a mínima para a data, achando melhor apenas curtir mais um dia de feriado nacional. Como há datas para “comemorar” tudo no planeta, o dia dos mortos existe desde o século II, quando alguns cristãos passaram a rezar pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. Mas o que isso tem a ver com um blog sobre literatura esportiva? É porque para quem não sabe, o feriado de finados também é conhecido como o dia dos “fieis defuntos”. Continua sem entender? Então, explico.

Descobri isso por pura curiosidade, pra variar, com aquela pesquisada básica no google. Quando li, dia do “fiel defunto”, não tive dúvida de, no meu caso, associar a expressão ao time de coração do meu querido pai, que partiu desta para melhor há exatos 19 anos. E daí foi um pulo para que as recordações chegassem trazendo sentimentos antagônicos de alegria e tristeza. Quem, neste país do futebol, não foi e continua sendo influenciado por alguém de sua família, principalmente pelo seu pai, para escolher o time pelo qual torcer? 

Papai era o que poderia se classificar de “corintiano doente”. Em dia de jogo do Corinthians em que não pudesse ir ao estádio, trancava-se no quarto com o radinho de pilha ligado na cabeceira da cama e, deitado, sofria como um pobre coitado. Era fácil descobrir quando um gol fora marcado porque em segundos ele abria a porta do quarto e saía correndo e pulando pela casa gritando gol junto com o narrador do rádio. E não estou falando de dia de clássico, podia ser um jogo contra o Juventus que a cena seria a mesma.


Com ele, descobri também a paixão pelo futebol. Não do futebol jogado nas ruas e campos de terra da periferia onde nasci na capital paulistana, e que para isso não precisei de sua ajuda, mas o futebol espetáculo, aquele das arquibancadas dos estádios. Desde os meus 7 anos de idade, descobri essa sensação maravilhosa que todo ser humano deve experimentar um dia, apesar da violência que se instalou pelos estádios brasileiros. Ele devia saber disso, claro, pois nunca foi ao estádio sem deixar de me levar junto. Nessa época, deixamos a periferia para ir morar no bairro do Paraíso, na zona sul paulistana. Para mim paraíso era estar bem perto do estadio do Pacaembu, local onde o Corinthians sempre jogava. Domingo sim, domingo não, e as vezes, nas quartas-feiras a noite, lá estávamos nós, eu e ele, caminhando pela Avenida Paulista, recém modernizada, em direção ao jogo. Isso mesmo, eu disse caminhando, porque fazia parte do ritual dele, talvez por pura superstição, ir e voltar a pé.


Também fazia parte dos seus rituais a estranha mania de chegar ao estádio e se sentar nas arquibancadas de cimento gelado do Pacaembu, exatamente na linha do meio de campo. Chegávamos normalmente com duas horas de antecedência, porque naqueles tempos, final dos anos 1960 e início dos anos 1970, haviam preliminares sensacionais, e mesmo assim, estivesse alguém sentado onde ele queria, bastava para ir até o sujeito e pedir para “dar uma chegadinha pra lá” porque ele queria estar exatamente na linha divisória do campo. Faz tanto tempo, mas ainda agora consigo sentir o cheiro da grama, da pipoca que passava pra lá e para cá nas mãos dos vendedores, do gosto doce de uns “canudos” enrolados com creme que eram um horror, mas que naquele clima, tornavam-se “mágicos”.


Papai morreu jovem, com apenas 62 anos de idade. Não viu sequer o neto corintiano roxo que ele deixou no ano em que morreu, 1992. Mas pouco antes de sua morte, já com problemas no coração, e longe dos estádios havia anos, decidi retribuir esses momentos maravilhosos de minha infância. Ele nunca havia ido ao estádio do Morumbi, e eu já jornalista esportivo, consegui convencê-lo a ir a um jogo. Desta vez, era eu quem tinha que segurar suas mãos para que não se perdesse entre a massa de torcedores enlouquecidos para entrar rapidamente, pois o jogo já iria começar. Suas mãos tremiam feito às minhas muito tempo atrás. Jamais esquecerei daquela fração de segundos quando, finalmente, conseguimos ultrapassar a catraca que dava acesso às arquibancadas. Sem o empurra empurra tradicional, ele parou seu corpo frágil e magro, respirou fundo, caminhou alguns passos e parou quando viu a luz do sol refletir no gramado do estádio. Seus olhos estavam cheio de lágrimas. Não lembro se o Corinthians ganhou ou perdeu. Só agora me lembro que o mais fiel dos torcedores não partiu sem antes ir ao estádio com o seu filho. Obrigado meu pai, por tudo. 

7 comentários:

  1. Que lindo. Que saudade funda do meu também.

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  2. como dói teacher...Chorei feito um burro velho quando escrevia...Os cientistas deveriam esquecer os experimentos e os estudos para descobrir o tal do "buraco negro" e se concentrar nesse sentimento que qualquer ser humano tem após perder alguém tão querido, tão fundamental em nossas vidas...Esse sim é o buraco negro...bjs

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  3. Jéssica Ribeiro21:17

    Lindo e emocionante !!!!!
    Sentimos mta falta e orgulho dele ...

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  4. Muito, muito bonito, André.

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  5. José Ruy Gandra19:58

    Caro André. Muito bonito esse seu texto. Vê-se que a relação de vocês sobreviveu à partida dele. Parabéns!

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  6. Laís Duarte10:11

    André, querido. Não tive o prazer de conhecer seu pai, mas vi um pouco dele reistrado em cada palavra, em cada frase. Parabéns. Pelo pai que teve, pelos filhos que tem. Pelo texto impecável e pela coragem para escrevê-lo. Pela curiosidade. Pela delicadeza e complexidade do blog. Não preciso nem dizer que me levou às lágrimas...

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  7. Oi querida Lalá. Bom saber q. vc. está passeando pelo blog. Falta agora mandar algum texto maravilhoso que só vc. sabe escrever. Sobre meu pai, como diz Clarice Lispector, não é a vida, é a "Coisa" que nunca vamos compreender...

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