quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Os pássaros mais famosos do futebol brasileiro


Você pode achar estranho o título deste post, mas um pouco mais abaixo vai entender. Literatura na Arquibancada destaca agora o trabalho de um jovem talento da literatura esportiva. Jovem no sentido do tempo em que começou a escrever crônicas importantíssimas para a memória do futebol brasileiro. Lúcio Humberto Saretta tem 39 anos e nasceu e vive na cidade de Caxias do Sul. Formado em Publicidade e Propaganda pela PUC, do Rio Grande do Sul, revela em seus textos a veia de pesquisador e a maestria para viajar no tempo envolvendo o leitor com histórias e personagens marcantes do esporte brasileiro e mundial.

Mais do que preservar a memória com suas belas crônicas, Saretta propõe uma reflexão sobre os nobres valores que o esporte, especialmente o futebol, traz consigo, como companheirismo, amizade e superação.

No seu primeiro livro, “Alicate contra Diamante”, Saretta traça um paralelo notável entre o esporte e a vida, o passado e o presente, a paixão do torcedor e a razão do historiador. Saretta não parou nesta obra. 
Em 2010, lançou seu segundo livro, outra jóia rara da literatura esportiva: “Crônicas Douradas – Os dramas, conquistas e mitos do esporte” (Maquinária Editora, 2010). Portanto, não é a toa que Saretta ganhou neste ano de 2011 o 45º Concurso Literário de Caxias do Sul, na categoria autores estreantes, com as crônicas, O botequim, A gôndola fantasma e A formatura.

Ele ainda mantém dois blogs maravilhosos, http://blog.clickgratis.com.br/luciosaretta/ e também o Memória do Esporte, no jornal Olá Serra Gaúcha, do qual o Literatura na Arquibancada é seu seguidor: http://www.olaserragaucha.com.br/blogs/memorias-do-esporte/

No prefácio do livro “Alicate contra Diamante”, assinado pelo cineasta Fabiano de Souza, podemos conhecer tudo sobre Saretta, sua obra e o olhar diferenciado com o esporte:


“O futebol como espelho da vida. É essa ideia que pica nas páginas de Lúcio Saretta. Um jogo é muito mais do que os dribles ocorridos nas quatro linhas. Uma partida conta com bem mais do que vinte e dois atletas. Sempre que a bola balança durante noventa minutos, há um entrecruzamento de energia, a sociedade se movimenta. Craques e perebas, técnicos, dirigentes, árbitros, comentaristas, narradores, torcedores, secadores e, claro, o cara que vende churrasco de gato, todos formam esse espetáculo que constrói seu folclore e sua história até o último segundo dos descontos.

É claro que todo mundo sabe que o futebol não nasceu ontem. Mas as páginas suam e mostram que a origem das richas, dos times e dos jogadores influencia todos os lances. Eu nunca tinha me dado conta, mas na hora de bater um pênalti, o matador tem sobre si não só a cobrança da torcida, mas o peso da existência de tudo o que viveu até ali.

Dentro dessa filosofia da bola, Saretta conduz o texto com estilo. Toda a pesquisa histórica séria convive com insights certeiros e informações saborosas – ah, os apelidos do futebol.

Entre evocações de músicas e filmes, recordações de timaços e boleiros, Saretta lembra que o esporte tem grande importância no mundo. E entendê-lo melhor é entender melhor a nós mesmos. Gol!

                                                                               ****
Abaixo, Literatura na Arquibancada destaca uma das crônicas de Saretta, no livro “Alicate contra Diamante”, uma crônica saborosa com craques “voadores” da história do futebol brasileiro.

Cardeal

Baile dos passarinhos

O município de Chuí, sabemos bem, é o ponto mais ao sul do nosso país. Alguns quilômetros ao norte, quase às margens da Lagoa Mirim, fica a cidade da Santa Vitória do Palmar. Foi lá que em 1914 nasceu Sezefredo Ernesto da Costa. Esse jogador alto e magro costumava jogar com uma boina vermelha na cabeça, o que lhe rendeu o apelido de Cardeal.

O pássaro cardeal
Jogando pelo São Paulo de Rio Grande, foi campeão gaúcho de 33, formando o ataque com Archimino, Cardeal, Oscar Ballester e Scala. Na partida final contra o Grêmio realizada no Estádio dos Eucaliptos, Cardeal marcou o tento da vitória de dois a um. Dois anos mais tarde, transfere-se para o time do Regimento de Pelotas. Lá vira herói ao vencer o Campeonato Gaúcho do Centenário da Revolução Farroupilha. O técnico da esquadra era o militar de carreira Teté, que nos anos 50 treinaria o Internacional de Bodinho e Larry. Esse histórico torneio foi decidido em uma final de três, também contra o Grêmio da capital. Cardeal deixou sua marca na contenda decisiva, vencida pelo Regimento por dois a um. O ataque pelotense era o seguinte: Berila, Bichinho, Cerrito, Cardeal e Gasolina.
Cardeal, primeiro após o goleiro, nos tempos do futebol gaúcho.
Crédito: acervo Prof. Homero Vasques Rodrigues/
coluna Recado aos Mergulhões, site www.planetsul.com.br
Fato raro para a época, foi convocado para a Seleção Brasileira ainda como jogador do clube gaúcho. No sul-americano de 37, disputado em Buenos Aires, faz a sua estréia contra a seleção anfitriã, entrando no lugar de Niginho. Nesse mesmo ano, atua pelo Nacional do Uruguai, cativando a torcida de modo incontestável. O Fluminense vai buscá-lo, então, em uma negociação milionária. Porém, quis o destino que no seu jogo de estréia, um Fla-Flu, Cardeal sofresse uma séria lesão no joelho. Doença fatal naquela época, a tuberculose também começava a minar-lhe as forças. 

Cardeal, no hospital cercado por dirigentes
do Nacional e da Federação Gaúcha.
Crédito: acervo Prof. Homero Vasques Rodrigues/
coluna Recado aos Mergulhões, site www.planetsul.com.br
Volta a Pelotas para jogar novamente pelo seu antigo clube. Ídolo de infância do jornalista Luiz Mendes, Cardeal, no crepúsculo dos seus dias, é amparado pelo Nacional. O clube paga o tratamento ao jogador, que vem a falecer com apenas 35 anos em Montevidéu, cidade onde descansa até hoje. Resta-nos exaltar a lembrança desse corajoso footballer de outrora, resgatando os versos de Ataulpho Alves, “morre o homem fica a fama”.

América, os "diabos" da década de 1950


Cardeal não pôde presenciar o surgimento de uma equipe de respeito, o América dos anos 50. Colecionador de títulos na fase amadora do campeonato carioca, os “diabos” contavam novamente com um elenco diferenciado. 
Na ponta direita do ataque, destacava-se Darcy Silveira dos Santos, o popular Canário. A final do campeonato de 55 é considerada até hoje uma verdadeira epopéia, em que o América, inexplicavelmente, deixou o título escapar. Foi uma melhor de três contra o Flamengo, tendo o ataque americano, com Canário, Romeiro, Leônidas (não confundir o “diamante negro”), Alarcon e Ferreira, marcado época.

Canário, o pássaro
Canário era um jogador habilidoso, mas também importante no sentido coletivo. No ano de 56, integra a Seleção Brasileira na disputa da Taça Osvaldo Cruz contra o Paraguai. Essa equipe foi classificada por Zizinho como a “seleção suicida” e era formada por um combinado América-Bangu.


Canário, o primeiro agachado do lado esquerdo,
no time histórico do Real Madrid,
campeão da Liga dos Campeões da Europa em 1960:
Real Madrid 7 x 3 Eintracht Frankfurt
Nesse mesmo ano, faz gols importantes contra Itália e Uruguai, contabilizando sete aparições com a camisa verde e amarela. Em 59 vai para o Real Madrid. Alternando com o francês Kopa, formou o ataque com Canário, Didi, Di Stéfano, Puskas e Gento, sagrando-se campeão em várias oportunidades.




Pardal, ex-jogador do SPFC






Finalmente, destaco a figura do ponteiro esquerdo gaúcho Pardal. Revelado pelo Pelotas, Pardal é comprado pelo São Paulo, conquistando o primeiro título paulista do tricolor na era profissional. O ano? 1943. Esse time era um verdadeiro esquadrão e o seu ataque, um ninho de cobras. Ei-lo: Luisinho, Sastre, Leônidas, Remo e Pardal. Após pendurar as chuteiras, Pardal passa a trabalhar em uma loja de materiais de construção.


Pardal, o último agachado do lado direito.
Certa feita, também aposentado dos gramados, o grande Leônidas da Silva, rico e famoso, por uma coincidência qualquer, entra na loja onde trabalhava Pardal. O dono do estabelecimento, para bajular Leônidas, chama Pardal, querendo reaproximar os dois ex-companheiros. Todo sujo de cal, o ponteiro estende a mão ao grande Leônidas que, sem reconhecer o amigo num primeiro instante, exulta ao encontrar Pardal depois de tantos anos. 

Cardeal, Canário e Pardal. Uma revoada de saudade na história do nosso esporte. Três atletas que, com a sua destreza nos gramados, fizeram a alegria do povo em um tempo distante.

Fonte:
“Alicate contra Diamante – E outras histórias do Esporte”
Lúcio Humberto Saretta (Editora Maneco, 2007)

2 comentários:

  1. Meu avô..Pardal..saudade..saudade..saudade

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  2. Olá Rit@. Bom conhecer um parente do saudoso Pardal. Você não gostaria de escrever algo sobre ele aqui no blog? Como era seu relacionamento com ele? Ele costumava lhe contar histórias do tempo em que jogava e foi ídolo do futebol? Fique a vontade, o espaço é comunitário. abs André Ribeiro

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