segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Castilho: um goleiro fora série


O aniversário do goleiro Castilho passou praticamente despercebidos pela grande mídia. Um goleiro que fez história no futebol brasileiro, especialmente no Fluminense e Seleção Brasileira. No tricolor carioca têm o recorde de participações pelo clube com 696 jogos, e pela seleção participou de quatro Copas do Mundo. Não é pouco. Conquistou pelo Fluminense e pela seleção muitos títulos importantes. Durante toda essa trajetória sua qualidade técnica misturou-se com a fama de goleiro que tinha muita sorte. Não era só isso.


Dentro e fora dos gramados um de seus maiores amigos foi Telê Santana. Particularmente, tenho uma história que ficou marcada em minha memória. Telê era um homem “calejado” pela vida e durante o processo de produção de sua biografia (Fio de Esperança, Cia dos Livros), não o vi se emocionar por quase nada durante sua longa carreira como jogador e técnico profissional, contudo, o único personagem que o fez chorar durante as gravações foi relembrar o final trágico do amigo que se suicidara no dia 2 de fevereiro de 1987. Telê sofria com o afastamento forçado do futebol e entrou em depressão profunda, logo no início de seu tratamento e quando ainda estava sob o efeito de antidepressivos, lembrava-se constantemente de Castilho. 

Telê chora, no velório do amigo Castilho.
Crédito: arquivo tese "O último vôo do heroi", de Paulo Kastrup.

Apesar da distância do acontecimento, Telê chorava quando se lembrava do amigo, que se jogara do sétimo andar de um edifício. Afirmava que Castilho chegara ao gesto extremo porque também estava deprimido e ninguém havia percebido.

Como uma homenagem aos 90 anos de Castilho, Literatura na Arquibancada reproduz abaixo, trecho de uma obra espetacular, talvez a melhor e mais completa que já se produziu no Brasil, sobre esta posição inglória do futebol: “Goleiros – Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1”. O autor é o jornalista Paulo Guilherme, um craque com as palavras que deixou a vida de Castilho eternizada com um texto de primeira.

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A vida de Castilho foi marcada por encontros e desencontros com a sorte. A força invencível à qual se atribuem os diversos acontecimentos da vida proporcionou a ele eventos de extrema felicidade e outros de profunda angústia. Dias de dor, sofrimento, sacrifício, conquistas, reconhecimento, alegria e solidão. Castilho experimentou na vida pessoal o que vivia diariamente como goleiro. Andou sempre na corda bamba, alternando alegrias e tristezas, como se freqüentemente defendesse um pênalti e logo em seguida tomasse um frango.

Castilho ganhou fama no Fluminense como um goleiro de muita sorte. Quando não fechava o gol com suas defesas extraordinárias, o imponderável acabava por lhe ajudar. Castilho fazia defesas sobrenaturais, era capaz de evitar o gol apenas com o olhar, mantendo-se estático no meio da meta e observando a bola chocar-se contra a trave. Em um jogo contra o América, em 1951, foram quatro bolas batidas em seguida na trave. As traves naquela época eram de madeira e tinham o formato quadrado. Muitas bolas, que poderiam tocar na trave e entrar se ela fosse como hoje, arredondada, acabam batendo e partindo para longe do gol.


Por causa da boa sorte, Castilho ganhou o apelido de “Leiteria”. O codinome aludia não só à infância do goleiro, que chegou a trabalhar no ramo dos laticínios, mas também à notoriedade alcançada na época por um entregador de leite do bairro das Laranjeiras, sede do Fluminense, que por duas vezes teve seu bilhete premiado na Loteria Federal. “Leiteiro” e “sujeito de sorte” viraram sinônimos no Rio por algum tempo.

A torcida do Fluminense passou a acreditar na força sobre-humana do goleiro. Castilho virou “São Castilho”, o primeiro goleiro do Brasil a ser “santificado” pelos torcedores por causa dos “milagres” que fazia debaixo das traves. O título carioca de 1951 foi uma prova de que o Fluminense contava com um goleiro que valia por dois. O time não era lá grande coisa. A diretoria não tinha dinheiro para fazer grandes contratações e decidiu apostar nos garotos vindos dos juvenis. A meta de Castilho era testada inúmeras vezes em cada partida. Mas o goleiro não se abalava com o assédio dos adversários. Sempre bem colocado e transmitindo segurança e confiança para seus zagueiros, Castilho livrava o Fluminense do massacre. E a sorte também fazia a sua parte.

Equipe do Fluminense, na final do campeonato carioca de 1951.

Desde menino, Castilho nunca foi muito ligado aos estudos. Gostava mesmo era de jogar bola como ponta-esquerda dos times de várzea nos bairros onde passou a infância, primeiro em São Cristóvão, depois em Olaria. A vida no subúrbio era difícil para sua família. O pai, Ezequiel, tinha um pequeno comércio no bairro e a mãe, Mariana, precisava cuidar dos filhos. Castilho começou a trabalhar aos doze anos em uma carvoaria para ajudar na renda doméstica, e aos treze teve de largar os estudos para trabalhar em uma leiteria. Acordava cedo e subia no lombo de um burrico para distribuir leite aos fregueses. Sua mãe morreu quando ele tinha quinze anos, e Castilho teve de seguir trabalhando muito. Mas sempre que podia, passava o tempo livre jogando bola. Dois anos depois, foi levado pelo pai de Ademir de Menezes ao Olaria e, logo em seguida, para o Fluminense.

Castilho na equipe do Fluminense,
campeã estadual de 1957.

Se lhe faltou oportunidade nas escolas, Castilho fez do campo de futebol a sua sala de aula. Logo percebeu que para se destacar n o seu trabalho precisaria treinar muito e estudar os mínimos detalhes do jogo. Castilho era muito observador. Da sua posição enxergava bem o jogo, as características de cada adversário, os macetes dos atacantes na hora de chutar, as deficiências dos seus zagueiros, as possibilidades táticas de sua equipe. Essa capacidade de observação acabaria por transformá-lo em um treinador respeitável no futuro.

Castilho, pela seleção brasileira, na Copa de 1954.

Sua visão de jogo era marcada por uma anomalia de visão. Castilho era daltônico, não enxergava as cores como as outras pessoas. O que para muitos poderia ser um problema, para ele se tornou uma ajuda extra no seu trabalho. As bolas de couro alaranjadas que se usavam no início dos anos 50 eram mais fáceis de ser percebidas por sua visão dicromática. Nos jogos noturnos, Castilho também enxergava melhor a bola. Aprendeu que o goleiro tem que ser como um bom tenista e estar sempre com o olho grudado na bola, nunca desviar seu olhar dela para nada: “Não se deve parar de olhar a bola nem quando ela está nas mãos do gandula. Ela é nossa maior inimiga, e só vigiando-a o tempo todo que nós deixaremos de tomar o ‘frango do fotógrafo’, aquele que levamos por uma distração, por estarmos conversando”.


O goleiro logo percebeu a importância das cores no futebol e pediu para a diretoria do Fluminense que alterasse o seu uniforme. Até então, os goleiros jogavam com camisas escuras, pretas ou azul-marinho. Castilho percebeu que dessa forma o goleiro se tornava ponto de referência para o atacante. Os jogadores podiam entrar na área com a bola dominada e com o canto do olho já sabiam onde o goleiro estava. Assim, ficava mais fácil mandar a bola para o outro lado. Para Castilho, o goleiro devia estar muito bem camuflado. Por isso, passou a usar um uniforme cinza-claro, que se confundia com o cimento das gerais do Maracanã que, sob a ótica do atacante, fazia pano de fundo para o gol.


(...)
As mãos de Castilho.
Crédito: arquivo tese "O último vôo do heroi", de Paulo Kastrup. 

Em 1957, Castilho precisava fazer uma cirurgia para corrigir o dedo mínimo da mão esquerda, que tinha sido fraturado quatro vezes e calcificado de maneira errada – era ligeiramente virado para fora. Uma junta composta de cinco médicos levantou duas possibilidades de tratamento: colocar um enxerto ou fazer uma cirurgia para correção do eixo. Castilho teria de ficar pelo menos três meses sem jogar. O goleiro não gostou de nenhuma das duas propostas. Não queria sair do time em um momento tão importante do Campeonato Carioca, no qual o Fluminense lutava por mais um título. Foi então que ele apresentou uma solução rápida e inusitada: cortar o mal pela raiz, ou seja, amputar o dedo da mão:

“O fato concreto é que, no meu entendimento, meu dedo continuaria imóvel, e isso me roubava a autoconfiança. Foi quando pensei na amputação parcial. Só com ela eu me sentiria novamente confiante. Dr. Paes Barreto foi contrário à operação. Ficou então determinado que, para que houvesse a operação eu teria de assinar um termo de responsabilidade. Vivi um drama durante 48 horas. De um lado a minha convicção de que só a amputação resolveria o meu problema. No outro lado minha senhora e os médicos não concordavam. Telefonei para o Dr. Paes Barreto e fui franco. Se não houver operação não poderei mais continuar jogando, assim não confio mais em mim. No dia seguinte dei entrada na Casa de Saúde. Eram oito horas. Paes Barreto já me esperava. Antes da anestesia, ainda ouvi sua última frase: “Castilho, você é louco!”.

Castilho com o dedo amputado.
Crédito: arquivo tese "O último vôo do heroi", de Paulo Kastrup.

E foi assim, sem metade do dedo mínimo da mão esquerda, que Castilho ergueu por duas vezes a taça de campeão do mundo, na Suécia e no Chile.

Castilho deixou o Fluminense em 1965 e até hoje foi o jogador que mais vezes vestiu a camisa do tricolor carioca, com 696 jogos. Ele passou um ano no Paysandu, onde encerrou a carreira em 1966 para se tornar técnico de futebol. Foi um ótimo treinador, tendo como maiores méritos o feito de levar o Operário de Campo Grande (MS) ao terceiro lugar do Campeonato Brasileiro de 1977 e ser campeão paulista com o Santos, em 1984. 

Dirigiu várias equipes do Brasil e o futebol árabe. E foi justamente na véspera de embarcar para os Emirados Árabes Unidos, onde tinha assinado contrato para dirigir uma equipe local, que Castilho voltou a ocupar as páginas dos jornais. O Brasil ficou chocado ao saber que o grande goleiro do Fluminense havia se suicidado.

Busto de Castilho, na sede do Fluminense.

Chocado com a perda do amigo, Telê Santana, ex-companheiro de clube, resumiu quem foi o goleiro que defendeu com toda a dignidade a posição: “Se o Fluminense tivesse de homenagear um profissional, teria que levantar o busto de Castilho na frente da sua sede. Ele carregou o time nas costas. Foi o melhor goleiro que já vi.”

Fonte:
“Goleiros – Heróis e anti-heróis da camisa 1”, de Paulo Guilherme 
(Alameda Casa Editorial, SP, 2006)

Para quem ainda quiser conhecer a vida de Castilho mais detalhadamente, Literatura na Arquibancada também recomenda a leitura de sua biografia, uma tese de mestrado de 2003, da Universidade Gama Filho, escrita por Paulo Fernando Kastrup, “O último vôo do herói: Castilho, o herói Anti-Macunaíma”. Infelizmente, o material não foi publicado, mas está lá, nos arquivos da Universidade Gama Filho para quem quiser conferir.

5 comentários:

  1. André:
    Você sabe, mas os seus leitores podem não saber. No começo da LivrosdeFutebol.Com, fui procurado pelo Paulo Kastrup, autor da tese "O último voo do herói". Na ocasião, consegui falar com os filhos do craque, que se dividiram entre autorizar (a filha) e não autorizar (o filho) a edição. Agora, por conta dos 90 anos de nascimento do goleiro, estou tentando novamente a autorização, com o auxílio luxuoso de um tricolor acima de qualquer suspeita, o Dr. Francisco Horta, o comandante da Máquina Tricolor. Vamos torcer para dar certo, porque a) o trabalho do Paulo Kastrup é muito bom b) Castilho merece todas as honras, pelo exemplo de atleta e pelo caráter, confirmado por todos os amigos.
    Abraços,
    Cesar Oliveira

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  2. Anônimo20:51

    Sem duvida alguma foi um dos maiores goleiros do Brasil,Carlos Jose Castilho.

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  3. Sem dúvida a memória do torcedor tricolor das laranjeiras é frágil e pequena. Ma sendo Rubro negro, recordo deste "rei da meta". Que no campo da eternidade, você-Castilho- perdoe aqueles que não se lembraram da data de ontem.

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  4. Anônimo12:10

    Castilho, o maior goleiro que eu vi atuar na meta tricolor.
    Suas defesas empolgantes, seus "milagres", impedindo da bola entrar, sua sorte, quando era batido..
    Seu amor, ao clube, ficou marcado, pela sua operação em seu dedo.
    Um exemplo de dedicação, deve ser sempre lembrado, aos novos jogadores, que mais visam o dinheiro, do que mesmo, o amor ao clube.
    Que Deus ilumine sempre a sua alma.

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  5. Muito bom o artigo. Mas...uma correção. Catilho era de 1927. Portanto ele só completaria 90 anos no fim do ano de 2017!

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