quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Yeso Amalfi: O último romântico


Yeso Amalfi nasceu no dia 6 de dezembro de 1923. Ganhou fama no futebol jogando pelo São Paulo Futebol Clube entre os anos de 1943 e 1948, mas foi na Europa que se tornou uma verdadeira lenda. Começou nos aspirantes do São Paulo, mas antes de chegar por lá, jogou na várzea paulistana em um clube tradicional chamado Éden, do bairro da Liberdade. Também foi interno no Colégio Mackenzie e lá seu futebol foi descoberto por um diretor do clube tricolor, ao vê-lo disputar a Olimpíada MackMed (Mackenzie X Medicina). Yeso foi para o São Paulo quando o clube ainda jogava onde é o atual estádio do Canindé, antes conhecido como Estádio da Floresta.

A equipe de estrelas do SPFC, em 1945.
Yeso é o que aparece sozinho na última fileira.

Yeso fez história no São Paulo. Em 1946, ainda bem jovem, chegou a jogar na equipe bicampeã paulista tricolor, um time inesquecível com Gijo, Piolim, Renganeschi; Bauer Ruy e Noronha; Luizinho, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha. Yeso ganhou chance neste timaço quando o argentino Sastre retornou para a Argentina. Dois anos depois, o craque argentino o levou para jogar no Boca Juniors. Por lá, jogou ao lado de outro craque brasileiro, Heleno de Freitas, considerado na época o melhor centroavante do Brasil e da América do Sul. Segundo Yeso, ele mesmo o teria buscado no Brasil a pedido do presidente do Boca.

Da esquerda para a direita:
Boye, Negri, Heleno de Freitas, Yeso e Pin.

Na Argentina, Yeso se envolveu em um dos episódios marcantes do futebol sul-americano: a greve dos jogadores no futebol argentino, que ficou conhecida como “paro simbólico”. Heleno e Yeso foram banidos do futebol argentino, bem como todos aqueles que aderiram à greve: “fomos banidos por não aceitar as imposições daqueles que comandavam politicamente o país, com relação ao Sindicato de Jogadores Profissionais que operavam na Argentina.”, recorda Yeso em seu livro autobiográfico. O movimento grevista estipulava que os jogadores entrassem em campo, em todos os jogos do campeonato argentino, e ficassem sentados durante um minuto, logo após o apito do árbitro para iniciar o jogo. Era como se fosse um minuto de silêncio, e logo a seguir jogavam os 89 restantes. Em todos os jogos o gesto se repetia, até que a Federação de Futebol Argentina, apoiada pelo general Perón, decidiu suspender o campeonato, expulsar todos os jogadores profissionais e terminar a competição com jogadores amadores. Foi por causa dessa debandada forçada que Heleno e Yeso acabaram indo parar na Colômbia, para jogar no que ficou conhecido no futebol como “Liga Pirata”. Heleno jogou pelo Atlético Junior. Yeso pelo Milionários, mas de lá saiu rapidamente para jogar pelo Peñarol do Uruguai, em 1949.

No Uruguai, Yeso ganhou fama espantosa. Foi campeão invicto pelo Peñarol, uma equipe que um ano depois iria fazer 200 mil brasileiros se calarem na decisão da Copa do Mundo de 1950, no Maracanã: “Tirando eu, o time do Peñarol era a Seleção Uruguaia, com Máspoli, Obdulio Varela, Andrade, Migues, Vidal, Ghigghia e Schiaffino. Na final, quando perdemos por 2 a 1, estava viajando de navio no litoral de Pernambuco pra jogar no Olympique de Nice. Fui com um cartaz violento pra França”, relembra Yeso.
Yeso como malabarista para os franceses.
Não foi a toa que rapidamente, Yeso ganhou dos franceses a fama de “Deus do Estádio”. Em campo, durante o dia, era considerado um craque, um malabarista da bola. À noite, se transformava em galã latino badalado pelo jet set europeu pelos lugares e cidades que passou, nas praias da Côte d’Azur, nos cafés de Paris ou no principado de Mônaco.

Conheceu e vivia junto de figuras ilustres, como Brigite Bardot, Sophia Loren, Gina Lolobrigida. Gostava de andar ao lado de mulheres bonitas. Ganhou fama de mulherengo, mas não tinha o vício que a maioria dos jogadores tem: não bebia. Na França, jogou pelas equipes do Mônaco, Racing Clube de Paris, Red Star, Olimpique de Nice e de Marselha, e no meio disso tudo, uma parada para jogar na Itália, pelo Torino. Chegou a dizer que “se Pelé foi considerado o melhor jogador de futebol de todos os tempos, eu fui o segundo brasileiro a conquistar a França depois de Santos Dumont”.


Yeso era figura freqüente nas capas dos principais jornais e revistas francesas. Seu nome era constantemente citado também por personalidades que o tinham como fã: o filósofo Jean-Paul Sartre, o pintor Pablo Picasso e o poeta Jean Cocteau são apenas alguns exemplos. Como afirmou recentemente o jornalista Alberto Helena Jr. em reportagem publicada pela revista Isto É: “Yeso foi o primeiro futebolista brasileiro a gozar da fama de popstar fora do País”. Neste mesmo artigo, outro grande amigo de Yeso, o cineasta Luiz Carlos Barreto afirma que um dos maiores companheiros de Yeso era o príncipe Rainier, de Mônaco: “Na noite, o Rainier era o príncipe e o Yeso, o rei”. Barreto foi um dos fotógrafos do casamento de Rainer com a atriz Grace Kelly, em Monte Carlo, graças à ajuda de Amalfi, porque teria sido ele quem apresentou Grace ao príncipe. (mais abaixo, veja trecho do livro de Yeso Amalfi contando essa história).

Foi em 1952, na passagem rápida que teve por Mônaco, que Yeso conheceu a atriz Grace Kelly. Mas foi no Racing, de Paris, que viveu os melhores momentos de sua carreira. Virou ídolo a ponto de os franceses pedirem sua naturalização para que pudesse jogar pela seleção do país. Dizia nunca ter aceito essa ideia por “amor ao Brasil”.
Yeso, agachado com a bola nas mãos.
Yeso encerrou a carreira, aos 37 anos. Ajudou políticos, agenciou jogadores e chegou a ser vendedor de terrenos. Morava na região central de São Paulo e não se arrependia de ter gasto tudo que ganhou no mundo da bola.

Em março de 2010, Yeso lançou um livro autobiográfico “Yeso Amalfi – O futebolista brasileiro que conquistou o mundo” (editora Cla, SP). E é nele que se encontram verdadeiras “pérolas” para a história do futebol brasileiro. Yeso mostra também o talento para a escrita, pois não precisou de nenhum gostwriter para a empreitada. A riqueza de detalhes em sua narrativa além de prender o leitor do começo ao fim das histórias demonstra a capacidade de memorização que Yeso sempre teve, até os 90 anos vividos intensamente.


Logo na chegada à França:

A Promenade des Anglais é a avenida mais importante de Nice, com alguns hotéis tradicionais como Beach Regency, Negresco, Mediterranée, Bristol, Ruhl etc. E eu me perguntava em qual deles iria me hospedar. Mas meus sonhos se foram por terra quando o carro estacionou no Hotel Durante, numa praça sem saída, nas proximidades da estação ferroviária. Na porta do pequeno hotel havia uma fotografia de Balzac bem em frente a uma palmeira solitária. Tive vontade de reclamar, mas as duas moças que me recepcionaram eram tão lindas e delicadas que de imediato aprovei o hotel. Por incrível que pareça, elas eram filhas do dono do hotel. Deram-me o quarto número 14, no primeiro andar. Meus aposentos eram então apenas um quarto. Naquele momento o hotel estava em reforma. O toilette e a sala de banho ficavam provisoriamente no corredor do andar térreo. As moças pediam paciência, porque em breve eu estaria bem acomodado. (...) As minhas refeições eram feitas na famosa Brasserie Niçoise, de propriedade do Sr. Lalu (o qual também fazia parte da diretoria do clube). Não haveria mais necessidade de intérprete, porque eu já estava bem acomodado e, apesar de o Sr. Nuti ser muito atencioso, tirava-me um pouco da liberdade. Eu flertava com uma garota que era um monumento de beleza e morava ao lado do hotel. O nome da garota era Luly: cabelos longos da cor de uma libra esterlina, olhos verdes, elegante, esbelta, positivamente sensual e muito amorosa. Minha vida não poderia ser melhor. Naqueles poucos dias,estava sempre nas praias e à noite visitava cassinos e boates da Costa Azul. 

Yeso e Garrincha.

Jeitinho brasileiro
(...)
Na costa Azul (com exceção de Cannes, com praias artificiais de areia) as praias eram constituídas de pedregulhos. A primeira praia que conheci em companhia das garotas foi a Fórum Plage, em frente ao Hotel Negresco, um dos hotéis mais badalados da Costa Azul, onde inúmeras celebridades possuíam aposentos permanentes, entre os quais o ator americano Errol Flynn, o rei Farouk do Egito, Churchill, Aga Khan, Xá do Irã, princesa Margaret. Na época o Hotel Negresco só aceitava hóspedes de sangue azul ou celebridades internacionais. Uma certa noite, passando em frente ao hotel, fui dar uma olhada no local onde iria ser realizada a eleição da Miss Costa Azul e logo em seguida o grande baile de gala, com traje a rigor obrigatório. Na entrada do hotel havia um cartaz avisando que a entrada só seria permitida aos convidados especiais. Notei, de relance, que os músicos estavam vestidos discretamente, com ternos escuros, camisa branca e gravatas borboleta, e por estar vestido praticamente como um músico, acreditei que poderia passar por um deles e fui entrando de “bicão”, sem mais nem menos, até o fim do corredor, não sendo interpelado por ninguém, dando a impressão que eu fazia mesmo parte da orquestra.  Mas essa alegria durou pouco, quando um dos guardas muito educadamente me impediu de prosseguir. Acatei a decisão, mas pedi ao guarda que pelo menos me deixasse visitar o hotel, para um dia, quem sabe, transmitir aos meus compatriotas do Brasil essa festa digna de um conto de fadas. O guarda, muito gentil, acatou o meu pedido e após a visita eu tive uma certeza: que voltaria um dia, como rei do futebol, a fim de lá permanecer pelo menos 15 dias, e que meus aposentos seriam no primeiro andar; de frente para o mar, onde o rei Farouk estava alojado. E assim fiquei intimamente comprometido, para “dar o troco” num futuro bem próximo.

Campeão pelo Red Star, 1955/1956

Um homem excêntrico
(...)
Meu prestígio crescia na França de maneira assustadora e com mais intensidade na Costa Azul, com superlotação nos jogos. Batíamos todos os recordes de arrecadação, mas sentia que esse sucesso não duraria muito tempo, porque dentro do clube havia muita inveja, política e interesses financeiros. Sempre após uma vitória nós festejávamos na Brasserie Madrid, ponto preferido dos Amalfistas. A cada jogo aumentava o número de adeptos. Um dos mais ardentes membros do nosso clube era o prefeito de Nice, Mr. George Hutin, mais tarde nomeado governador do Marrocos.

Acompanhava algumas vezes o prefeito, geralmente em obras assistenciais, em benefício da população mais carente. Uma certa ocasião fui convidado pelo prefeito para acompanhá-lo numa recepção oficial em Marselha, no quartel da Legião Estrangeira. Justamente nosso jogo seria em Marselha contra o Olimpique, clube da cidade. O tempo apresentava-se instável. Deveria partir imediatamente após o jogo. Não havendo tempo suficientemente para trocar de roupa, fui prático e objetivo, chegando ao estádio vestido com smoking e assistindo a preliminar ao lado do prefeito. No dia seguinte, os jornais noticiaram que somente um fantasista como o brasileiro Yeso Amalfi assistiria um jogo em traje a rigor, com um tempo chuvoso e uma temperatura instável. Eles não sabiam as razões, mas o público vibrava com essas excentricidades. Fiz aquilo apenas para ganhar tempo, quando eles interpretaram como mais uma de minhas fantasias.

Príncipe Rainier e Gracy Kelly

O casamento do príncipe
(...) 
Em fevereiro de 1956, pedi licença ao clube para ir a Monte Carlo assistir ao casamento do príncipe de Mônaco com a rainha do cinema Grace Patrícia Kelly. Esse pedido foi aprovado pelo presidente do Red Star e assim fui para Nice, com uma semana de antecedência, hospedando-me como sempre no Hotel Durante. Nesse mesmo dia, ao anoitecer, dirigi-me a Monte Carlo a fim de encontrar-me com os repórteres e meus grandes amigos brasileiros, David Nasser e Luiz Carlos Barreto. Por ter livre acesso no Principado de Mônaco eu poderia ajudá-los durante as festividades do casamento. Esse casamento significava a consagração da aristocracia, despertando mais interesses no mundo exterior que na própria França. O Principado se transformou num verdadeiro país das maravilhas. Naquele momento a população do Principado de Mônaco se tornava heterogênea, com a presença de turistas e jornalistas de todas as partes do mundo. Esse casamento foi muito bem preparado como um filme romântico, com o príncipe Rainier e Grace Kelly como estrelas principais.

Três dias antes da festa do casamento, houve uma noite de Gala no Teatro da Ópera de Mônaco. Fui até o teatro e fiquei ao lado do comandante da guarda de honra do príncipe, e assim tive a oportunidade de ver os noivos Rainier e Grace chegarem ao Teatro. Houve um tumulto muito grande e quando o príncipe entrou com Grace, os ânimos ainda não haviam sidos serenados.

Quando o casal deixou o teatro, já passava das 2 da madrugada. Antes de sair do teatro, o príncipe, por intermédio de seu ajudante de ordens, deixou um comunicado para a imprensa, avisando que no dia seguinte receberia dois jornalistas de cada país. Por princípio não seriam permitidas entrevistas. Acompanhei David Nasser e Luiz Carlos Barreto, correspondentes da revista O Cruzeiro na Europa, na hora marcada, porque sabia de antemão que o príncipe iria fazer uma surpresa agradável aos jornalistas numa entrevista coletiva. O príncipe abriu as portas aos jornalistas e fotógrafos e os atendeu democraticamente. Os homens da crônica escrita e falada saíram encantados com o príncipe. A cerimônia do casamento civil foi acompanhada por poucas pessoas, entre as quais diversos membros da nobreza européia. David Nasser, Luiz Carlos Barreto e eu estivemos lá.


Encantando a todos
(...)
Depois da vitória contra a seleção suíça a minha situação como futebolista em Paris chegou ao ápice. O jornalista Victor Denis, em artigo publicado após a goleada de 5 a 2 (quebrando o encanto do “ferrolho suíço”, idealizado pelo técnico Karl Rappan), assim escreveu: “Nós vamos falar de Amalfi, se vocês me permitirem, caros compatriotas. Amalfi, nos diz Larousse, é um pequeno porto da Itália, pertencente ao Principado de Citariore. Tem 8 mil habitantes que se chamam Amalfitanos; sede principal de um Bispado. Amalfi é também uma égua de raça, que faz maravilhas nos campos da Inglaterra, e que é irresistível em corrida de curta distância. Isso é tudo que posso publicar de Amalfi...Perdão, ia me esquecendo que Amalfi é nome de um futebolista brasileiro. Yeso. Ele começou no São Paulo F.C., passou pela Boca Juniors de Buenos Aires, para depois ingressar no Peñarol de Montevidéu. Depois de passar ainda por Nice, Torino e Mônaco, veio conquistar Paris. Ele tem um charme suficiente para tal. Posso dizer que Amalfi é algumas vezes o Deus, o profeta, o comediante trágico do seu time, a alma. Em Buenos Aires recebeu flores de Perón, no dia de sua estreia. Jean Cocteau não se contenta em lhe dirigir cumprimentos; chama-o de gênio”.

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