terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Mozart do futebol


Ele é considerado o maior jogador austríaco de todos os tempos. E para alguns historiadores europeus um dos atacantes mais completos do mundo. Em dezembro de 1998, 60 anos depois de sua morte precoce, foi eleito o atleta austríaco do século 20. Mas Sindelar foi uma das grandes estrelas do futebol que a II Guerra Mundial roubou de todos nós, torcedores. Morreu precocemente e de forma trágica, aos 36 anos.

Mathias Sindelar é dono de uma das histórias mais densas do futebol. Único filho homem de uma proletária família judia, o pequeno Motzl, como era conhecido, nasceu em 10 de fevereiro de 1903, na Vila de Koslov, situada na atual República Tcheca. O pai era pedreiro, e a falta de trabalho no vilarejo forçou a família a trocar de endereço. Sindelar e suas três irmãs mudaram-se para Viena, capital do Império Austro-Húngaro, mas o único lugar possível para a família viver eram as ruas poluídas pelas centenas de fábricas de tijolos do pequeno distrito industrial de Favoriten.

E foi nesse cenário, onde também não faltavam os terrenos baldios de terra batida, que o garoto loiro e franzino deu os primeiros chutes em uma bola. Talvez tenha sido pela precariedade do local em que era obrigado a jogar futebol que Sindelar desenvolveu a habilidade do improviso, do drible, da precisão nas jogadas.

Sindelar perdeu o pai em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, e com apenas 14 anos virou chefe de família. Para não perder contato com a bola, trabalhava como mecânico enquanto defendia o time de base do Hertha de Viena. Seis anos depois transferiu-se para o Áustria Viena, poderoso time da classe média judia. Foi nesse período que Sindelar ganhou o curioso apelido Homem de Papel por causa do corpo frágil e da precisão nos passes e dribles.

A estréia pela seleção austríaca, em 1926, não poderia ter sido melhor. Dois gols na goleada por 7 a 1 contra a Suíça. Nos dez anos seguintes, a Áustria passou a ser considerada a melhor seleção de toda a Europa, o adversário mais temido por outras equipes. Ganhou o título de Wunderteam, sinônimo de “time maravilhoso”. Sindelar era o líder da seleção austríaca, estrategicamente montada pelo técnico Hugo Meisl, considerado o Pai do Futebol Austríaco. A tática, a mais simples possível, era trocar passes precisos até que surgisse uma falha na defesa adversária. O caminho para o gol era invariavelmente traçado pelos pés de Sindelar.

Entre 1931 e 1933 foram 16 jogos, 12 vitórias. Entre elas duas goleadas humilhantes: 6 a 0 sobre a Alemanha, em Berlim; e 8 a 2 sobre a Hungria, em Viena.

Ao derrotar a Áustria do craque Sindelar, na semifinal de 1934, a Itália de Meazza bateu uma seleção cujo país havia sofrido um golpe militar que instaurou uma ditadura fascista e católica que condenou a nação a um caos econômico. A Áustria vencida era um time esgotado física e emocionalmente. 

Crédito:
www: wieninternational.at
Em março de 1938, meses antes da Copa seguinte, com a anexação da Áustria pela Alemanha, a carreira de Mathias Sindelar aproximava-se do fim. No jogo comemorativo pela unificação, perdeu várias chances de gol e, no segundo tempo, marcou um dos gols da vitória do Ostmark da Áustria sobre o Altreich da Alemanha. Desafiou o Terceiro Reich. Negou-se a defender o time de Adolf Hitler.  

Em 23 de janeiro de 1939, antes de completar 36 anos, morreu. Uma morte repleta de versões e mistérios. Gustav Harmann, amigo de infância, aguardava-o para o café da manhã quando o viu entrar na casa de Camila, considerada sua namorada para alguns e amante para outros. Preocupados com a demora do amigo, Harmann decidiu bater à porta de Camila. Sem resposta, o jeito foi arrombá-la. A tragédia já havia se consumado. Sindelar e Camila foram encontrados mortos, junto a dois copos e uma garrafa de conhaque. A autópsia revelou morte por intoxicação por óxido de carbono, mas as especulações cresceram, e até a hipótese de fuga de gás nas chaminés e intoxicação por medicamentos foi levantada. No meio de tantas especulações, a Gestapo, polícia nazista, decidiu encerrar as investigações. Esse ato fez gerar a lenda de que Sindelar teria sido morto, assassinado pelos nazistas. A tese de suicídio não era descartada pelos amigos de infância porque Sindelar, quando se machucara gravemente no joelho, ficara desesperado e teria tentado se matar quando soube que nunca mais poderia jogar futebol.

Enterro de Sindelar.
Crédito: www.austriafans.at
Lenda ou fato, a verdade que entrou para a história é a morte de um mito do futebol e da resistência ao exército alemão. Sob a vigilância das tropas nazistas, mais de 40 mil pessoas foram dar adeus ao Homem de Papel que representou muito mais do que um jogador para o povo do seu país. Tornou-se um símbolo, tanto que passou a ser tratado pelos jornalistas como o Mozart do Futebol. Para compreender melhor o significado de Sindelar no universo do futebol, o escritor vienense Friedrich Torberg escreveu o poema “Balada de morte de um jogador de futebol”:

Ele jogou como ninguém havia feito antes
Cheio de inteligência e imaginação
Fazia-o com facilidade, um toque de luz e descontração
Ele sempre jogou, nunca lutou.

Fonte:
“A magia da camisa 10”
(André Ribeiro e Vladir Lemos, Verus Editora, 2006)

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