quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O futebol é mais importante que a literatura

Não estranhe a afirmação do título deste post caro leitor. Ela é de Flávio Carneiro, escritor, crítico literário, roteirista, professor de literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), autor de treze livros e mais dois roteiros para cinema. Além de tudo isso, é uma figura super simpática e um dos grandes nomes da literatura brasileira. Flávio Carneiro, talvez, tenha sido o autor que mais tenha se aproximado do sonho de muitos jornalistas e escritores de se tornarem jogador de futebol profissional. 

E ele não é daqueles que só fala que entende de futebol. Amassou muito barro e lama nas peladas, mas também tem orgulho de ter disputado vários campeonatos no estado de Goiás. Jogou contra as grandes equipes do estado como o Goiás, Vila Nova e Atlético, e ainda sonha com os dias em que pisou no gramado do moderno Serra Dourada.
Flávio Carneiro e os amigos do Caduca.
Ele é o primeiro da esquerda, agachado.
Flávio Carneiro é botafoguense e apaixonado por futebol. Mesmo depois de ter se tornado escritor, nunca abandonou as peladas. Todos os sábados, com sua turma de amigos do Caduca – Clube Atlético Duque de Caxias, em Teresópolis, cidade onde mora atualmente, disputa acirrados jogos, talvez, para esquecer do dia em que teve de decidir sobre qual caminho seguir na vida: ser jogador profissional ou escritor.


Até o ano de 2007, Flávio Carneiro não havia escrito regularmente sobre futebol. Tudo se restringia, até aquele momento, a um conto e a um roteiro de curta-metragem, até que o editor do jornal de literatura Rascunho, de Curitiba, Rogério Pereira, o convidou para escrever no respeitado periódico. Só que o convite inicial era para que Flávio escrevesse uma coluna sobre a ficção brasileira atual. Flavio conversou então com outro craque da literatura, José Castello, que já era colaborador do Rascunho e o rumo de seu projeto mudou. Durante os anos de 2007 e 2008, Flávio Carneiro escreveu para o Rascunho a coluna “Passe de Letra”, que juntava duas de suas paixões: futebol e literatura.
Em 2009, a editora Rocco juntou todas essas preciosidades em um livro com o mesmo nome da coluna: “Passe de Letra”. Flávio fala com o coração sobre seus primeiros passos no futebol em sua terra natal, Goiânia, com a camisa 7 do time Selefama Esporte Clube, uma equipe formada por garotos do bairro chamado Fama, na capital goiana: “Ninguém, claro, botava fé naquele time, ainda mais que o campeonato contava com as divisões de base dos quatro grandes da capital: Vila Nova, Goiás, Goiânia e Atlético”. 




Flávio Carneiro no Selefama.
Ele é o quarto, da esquerda para a direita.
Flávio também recorda do convite recebido em 1980, para jogar por um grande clube do futebol brasileiro, o Guarani de Campinas, na época, dois anos antes, campeão brasileiro, que o deixou completamente confuso sobre o que fazer da vida: “O Guarani estava em alta e resolveu investir em garotos de fora do eixo Rio-São Paulo. Era um convite para jogar no profissional! Poucos dias depois, recebi um telefonema dizendo que eu havia vencido um concurso importante, do governo do estado de Goiás. Um concurso de contos. Precisava decidir e precisava ser rápido. Venceu o sonho de ser escritor. Fiz vestibular para Letras na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Me mudei para lá no ano seguinte. Fui para a cidade grande sem conhecer ninguém, sem parentes nem amigos, apenas com a cara, a coragem e o sonho de ser escritor viajando contente na janela do ônibus. Mais de uma vez me arrependi. Poderia ter sido um jogador de futebol medíocre, poderia ter quebrado a perna e abandonado a carreira, poderia ter sido marginalizado por uma panelinha qualquer de time grande. Tudo isso poderia ter acontecido. Mas também poderia ter dado certo. A verdade é que, qualquer que tivesse sido a decisão, iria sempre ficar faltando um pedaço. Um dos sonhos viria sempre cobrar sua parte. Fazer o quê? Como diria João Saldanha, dando de ombros: vida que segue.”  

 E seguiu. Flávio tornou-se um dos maiores nomes da literatura brasileira. Tem livros publicados no Brasil e traduzidos para vários outros países do mundo. 
Mas o futebol...bem, o futebol nunca ficará em segundo plano, mesmo com as centenas de compromissos literários que ele tem de cumprir durante um ano de trabalho. Em 2010, por exemplo, durante a realização de mais uma edição da famosa Flip – Feira Literária de Parati, Flávio participou da gravação de um programa especial para o Itaú Cultural, Jogo de Ideias, comandado por outro aficcionado por futebol, o jornalista Claudiney Ferreira. Durante a gravação de seu depoimento, Claudiney revelou a plateia presente ao evento a que ponto chegava a obsessão de Flávio Carneiro pelo futebol: “Vocês não sabem, mas a primeira coisa que ele (Flavio) fez foi reclamar comigo por não ter marcado um jogo aqui em Parati”. Flávio tinha suas razões. Sábado é dia sagrado para o futebol com os amigos do Caduca – Clube Atlético Duque de Caxias, em Teresópolis: “essa hora (o programa estava sendo gravado no sábado) era para eu estar lá”, ele disse sorrindo.

Claudiney deixou para o final da longa entrevista sobre a brilhante trajetória literária de Flávio Carneiro a pergunta sobre o tema futebol. A resposta diz tudo sobre essa verdadeira paixão que virou quase um drama:

Claudiney Ferreira:
Por que não seguiu carreira? Foi a literatura que tirou você de campo?

Flávio Carneiro:
Cresci alimentando dois sonhos: ser escritor e ser jogador profissional. Levava muito a sério (Claudiney interrompe e exclama: “Levava?”). Dos 11 aos 18 anos joguei nos times em Goiânia. Disputei campeonatos, no estádio Serra Dourada, que na época estava inaugurando. E aí, com 18 anos, ou você vira profissional ou você abandona. Era o limite, na época, do juvenil. Eu recebi um convite para ir para o Guarani, mas eu tinha o sonho de ir morar no Rio de Janeiro. Conheci o Rio de Janeiro com 15 anos, foi a primeira vez que eu vi o mar e falei: “Quero morar aqui”. E Campinas...nada contra Campinas, mas interior de São Paulo com Rio de Janeiro era um pouco diferente. Vou ter que optar. Nessa época também, 1980, não tinha o apelo de grana que tem hoje. Aí tive que escolher. Escolhi e me arrependi muitas vezes. Dizia para mim mesmo: “podia ter deixado para escrever depois dos 40 anos...Qual o problema?” Foi uma opção, mas continua me acompanhando.

Eu fiz uma pesquisa, conheço muitos escritores, e quando estava escrevendo as crônicas de futebol para o jornal Rascunho fiquei sabendo que 99,9% desses escritores adoram futebol. Futebol tem muito a ver com literatura. A ideia da imprevisibilidade, tudo pode acontecer, inclusive o jogo não terminar naquele dia.

Flávio Carneiro.
Crédito: Adriana Lisboa
A diferença entre livro ruim e um jogo ruim é essa: a vantagem do jogo ruim é que você não sabe como ele vai acabar e o livro ruim você já sabe. Você abre o livro e já sabe como vai terminar essa porcaria. O jogo, mesmo horrível, aos 46 do segundo tempo pode acontecer uma coisa genial. Por isso o futebol é melhor.

Foi engraçado porque dei uma entrevista para o jornal Rascunho, do Rogério Pereira, e ele colocou na capa do jornal uma frase do Milton Hatoum, que tinha participado do “Paiol Literário”, e também uma frase minha. A do Milton Hatoum tirada de uma frase do que ele falou no evento, sobre a importância da literatura, que eu, inclusive, concordava com o que ele estava falando. Aí, na minha frase, ele colocou assim: “O futebol é mais importante que a literatura”. Foi muito engraçado. Ele quis criar uma polêmica que eu não inventei, mas é porque eu falava disso. Em certos casos, o futebol é mais surpreendente do que a literatura.


Flávio Carneiro.
Crédito: Adriana Lisboa
Para “comprovar”, se é que isso é necessário após tudo que você leu até aqui, a paixão de Flavio Carneiro pelo futebol, Literatura na Arquibancada destaca abaixo um dos textos publicados no livro “Passe de Letra” (Editora Rocco, 2009, RJ)

Pelada em Berlim

Peladeiro é igual em qualquer lugar. Sempre achei isso. Minha teoria, no entanto, carecia de alguma comprovação científica, de algo que lhe conferisse status de verdade incontestável, e a tese pudesse então, quem sabe, ser publicada em livro e servir de tema para seminários internacionais com a presença de doutores em pelada chegados dos cinco continentes.
Pois tal comprovação veio em Berlim, durante a Copa do Mundo de 2006. Eu estava lá como curador (na área de literatura) do projeto Copa da Cultura, do MinC, e fui chamado para integrar um time de escritores e músicos brasileiros, capitaneado pelo Chico Buarque, que jogaria contra um combinado de jornalistas alemães. O jogo estava marcado para a Arena Adidas, uma réplica de estádio de futebol, com arquibancada e tudo. Na parte de baixo, um campo de futebol society, de grama sintética.
Cheguei ao local da peleja levando a tiracolo uma bolsa com meu material: chuteiras, caneleiras, calção, meiões. Estava tudo certo. Um belíssimo dia de sol, o calor ameno, as arquibancadas cheias. Ao tentar entrar para os vestiários, no entanto, fui barrado por um segurança alemão, me dizendo que com aquela credencial eu teria acesso apenas às arquibancadas. Abri a bolsa, mostrei a ele o material e respondi que tinha vindo para jogar no time do Brasil. Ele arregalou os olhos: você, no time do Brasil?
Não no Brasil, Brasil, tive que explicar, no time do Chico Buarque. Mesmo assim não pode entrar, ele retrucou, é preciso outra credencial, com essa só na arquibancada. Pensei em retrucar que não dava para jogar futebol na arquibancada, mas receei que seu senso de humor não fosse lá essas coisas. E de nada adiantaram meus apelos, nem os da produtora que havia me convidado e até um funcionário da embaixada brasileira ali presente foi acionado. Nada demovia o alemão, absoluto, irredutível, imutável como um cartão vermelho.
Quando dei por mim, os dois times já estavam em campo e o juiz apitava, dando início à partida. Resignado, fui me sentar ao lado da minha turma. Na arquibancada.
E eis que um amigo berlinense, Dawid Bartelt, da anistia internacional, que havia acompanhado tudo a distância (talvez prevendo que minha batalha seria em vão), se aproximou, colocou a mão no meu ombro e disse: liga não, sábado te levo pra bater uma bola com uns amigos meus.

Flávio Carneiro, nas peladas de sábado,
no Caduca, em Teresópolis.
Pelada de verdade tem que ser aos sábados. Em dia de semana é meio sem graça e no domingo não tem nada a ver. Poderia, claro, elencar aqui todos os motivos que me levaram a essa conclusão. Se os tivesse. Não tenho motivos mas sei que é assim: pelada tem que ser no sábado. Por isso gostei quando o Dawid me fez o convite.
Combinamos de nos encontrar numa estação de trem, num subúrbio de Berlim, onde ele me pegaria de carro. Às 15h35, ele me disse, e fingi não estranhar tamanha exatidão.
Desci do trem exatamente às 15h32, me sentei num banco de madeira e fiquei esperando. Minutos depois chega ele, caminhando calmamente pela estação, de camisa branca arrumada dentro do enorme calção preto, na altura do umbigo, meiões branco e chuteiras. Diante do meu olhar de espanto, tentou se explicar: é meu uniforme de vôlei. E completou: quer dizer, sem as chuteiras. Ah, bom, respondi.
Chegamos ao local do evento. Ele estacionou o carro num pátio. Ao descer do carro, travei a porta do carona. Foi a vez de ele se vingar, abrindo um largo sorriso: ei, não estamos no Rio não. Um a um, concluí.
Caminhamos até o portão, e lá estava o gramado, um imenso campo aberto, cercado de árvores. Olhei em volta e não demorei a entender que estávamos num campo de rugby!
Isso não vai dar certo, pensei comigo. Perguntei ao meu amigo onde estavam as traves de futebol, quer dizer, se é que havia traves. Claro que tem, ele respondeu, ligeiramente ofendido, já estão chegando. Não me atrevi a perguntar exatamente o que ele queria dizer com aquilo: as traves chegando?
Logo depois entraram pelo portão alguns dos outros peladeiros, um dos quais trazendo uma bolsa, e dentro dela quatro pedaços de madeira, longos e finos, pintados de azul com listras verdes. Eram elas que chegavam, as traves.
Um deles fincou as traves no lugar, e começaram a dividir os times. Como em toda pelada que se preze, havia um número ímpar de jogadores: nove. Decidiram, sem discussão, como se fosse uma decisão óbvia, que o time em que eu jogasse teria um jogador a menos.
Ninguém sabia se eu era craque ou perna de pau, contava apenas um fato: ser brasileiro. Confesso que me senti a própria pátria de chuteiras e roguei aos céus que não fizesse nenhuma grande besteira, tentando manter a boa imagem do país no exterior.
Começou o jogo, e só então me dei conta de que o alemão fincara as traves na transversal do gramado, quer dizer, o campo ficara curto no comprimento e imenso na largura. A lateral direita era marcada por uma estradinha de terra, toda torta, e a esquerda se estendia ao infinito e além.
Aquilo me comoveu, confesso. Era um convite ao improviso e gostei mais ainda dos alemães (talvez porque naquele momento, sem que ninguém me dissesse nada, tenha aprendido um pouco mais sobre eles).
Depois de uma hora de correria alucinante a partida estava empatada, acho que em 4 a 4, quando o goleiro deles rebateu a bola, que veio parar justo à minha frente. Matei no peito e quis fazer bonito: tentei encobrir o goleiro, com estilo. Bola fora. Virei o corpo e dei de cara com meu time me olhando com cara de quem comeu chucrute estragado. Por que não chutou com força?, perguntou Dawid, desolado. E não disse, mas deve ter pensado: brasileiros, bah!
A certa altura do jogo minhas pernas simplesmente se recusavam a me obedecer, enquanto os caras, quarentões que nem eu, corriam sem parar, parece que disputando a final da Copa. Para minha sorte, a pelada foi interrompida por uma senhora, que entrou no gramado querendo saber quem trancara a bicicleta junto com a dela.
Resolvido o problema, recomeça a partida, justo na hora em que soam as seis badaladas do sino da igreja ao lado do campo. Viajei. Voltei à minha infância e me vi não entre aqueles simpáticos grandalhões de rosto afogueado mas entre moleques brasileiros, pés descalços, jogando bola no campinho em frente à igreja, até a hora da ave-maria.
Quando a pelada já estava acabando, ainda chegou um retardatário, de óculos e todo vestido de preto. E entrou no time deles, que já tinha um a mais!
No final, a glória: ganhamos o jogo. Recolhi o que sobrara de mim depois de quase duas horas de futebol e fui saindo de campo. Alguns caras do outro time se aproximaram e me cumprimentaram (eu acho), dizendo palavras das quais só distinguia uma: Ronaldo. Ainda não sei se era elogio ou ironia, mas o certo é que tudo terminou com abraços calorosos, piadas que não entendi e uma foto para registrar o momento histórico.
No caminho de volta para casa, já dentro do trem, me lembrei do que me dissera um outro amigo: há duas palavras para “peladeiro” em alemão. Uma delas é Amateurkicker. Literalmente: chutador (de bola) amador. Aqueles alemães sabiam o que era isso, e me presentearam com uma bela tarde, de amadores.

 Para saber mais sobre Flávio Carneiro, acessar: http://www.flaviocarneiro.com.br/

Vale a pena também assistir ao programa especial Jogo de Ideias, gravado com Flavio Carneiro durante a Flip 2010. O programa está dividido em seis partes. Basta clicar na ordem dos links abaixo:


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