quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O futebol ao sol e à sombra

Eduardo Galeano

Uma resenha especial no Literatura na Arquibancada feita por Domingos D’Angelo, estudioso e colecionador da livros da literatura esportiva. D’Angelo resgata uma obra prima de um dos maiores escritores latino-americanos, o uruguaio Eduardo Galeano, que sempre declarou seu amor pelo esporte. Galeano é autor de mais de 40 livros, traduzidos em vários idiomas. Sua ligação com o futebol é antiga. Desde a infância sonhava em ser jogador. Como não conseguiu realizar esse desejo, fez o que a vida lhe deu de melhor: escrever também sobre esse tema. 


No livro publicado em 1995, pela editora LPM, O futebol ao sol e à sombra, as histórias que ele colecionou ao longo da vida estão lá, magistralmente registradas, com o mesmo talento com que se consagrou em obras de referência como As veias abertas da América Latina e a trilogia Memória do Fogo.
Em O futebol ao sol e à sombra, Galeano faz uma revisão histórica do jogo, além de compará-lo com uma perfomance teatral e com a guerra. Na resenha abaixo, Domingos D’Angelo nos traz outras pérolas deste clássico da literatura esportiva.
Para saber mais sobre Eduardo Galeano, acessar: 

Eduardo Galeano
GANAMOS, PERDIMOS. IGUAL NOS DIVERTIMOS
  
Não Passo De Um Mendigo Do Bom Futebol. Ando Pelo Mundo De Chapéu Na Mão, E Nos Estádios Suplico:
-Uma Linda Jogada, Pelo Amor De Deus!

Dessa forma o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de FUTEBOL Ao Sol e à Sombra, edição da L&PM Editores, 1995, confessa inicialmente a sua identidade no futebol.
E quando acontece o bom futebol, agradece o milagre sem se importar com o clube ou o país que o oferece.
Eduardo Galeano, é mais conhecido por seus livros de linha esquerdista, sendo autor de As Veias Abertas da América Latina, que vendeu 200 mil exemplares. Decidiu abordar o futebol, tentando fazer com as mãos, escrevendo, o que não conseguiu com os pés, pois se declara um perna de pau.

O livro se compõe de 154 textos curtos, ora românticos, ora históricos, ora com denúncias contundentes, mas com um estilo que atrai o leitor, pela emoção que transmite e pela demonstração de carinho ao futebol.

Senão vejamos rápidos destaques de suas crônicas:

O Torcedor
“É raro o torcedor que diz: ‘Meu time joga hoje’. Sempre diz: ‘Nós jogamos hoje’”.

O árbitro
“Durante mais de um século, o árbitro vestiu-se de luto. Por quem? Por ele. Agora disfarça, com cores”.




O Técnico
“O treinador dizia: Vamos jogar. O técnico diz: Vamos trabalhar”.

As Origens
“Em 1592, Shakespeare, em sua Comédia dos Erros, recorreu ao futebol para formular a queixa de um dos personagens:
- Rodo para vós de tal maneira...Tomai-me por uma bola de futebol? Vós me chutais para lá e para cá. Se devo durar neste serviço, deveis forrar-me de couro”.




Maradona
Dedica ao craque quatro paginas, reconhecendo sua notável importância, mas inicia a crônica com:
- “Jogou, venceu, mijou, perdeu”.

A Telecracia
“Hoje em dia, o estádio é um gigantesco estúdio de televisão. Joga-se para a televisão, que oferece a partida em casa. E a televisão manda.”

O autor faz ainda denúncias sobre o esporte/futebol como um negócio sujo da indústria do espetáculo, citando as megas empresas envolvidas e a famosa ISL Marketing, que maneja os campeonatos mundiais e as olimpíadas.

As crônicas sobre todas as Copas do Mundo, são iniciadas de uma forma muita interessante, pelos principais acontecimentos mundiais do respectivo ano.

Através de seu texto, Galeano nos apresenta inúmeros craques da atualidade e do passado e seus mais lindos gols.




Obdúlio Varela


Obdulio

Ao final do jogo da Copa de 1950, ao ser abordado por jornalistas, respondeu: “Foi casualidade”, a noite foi beber cerveja, com brasileiros, abraçados aos vencidos, sem se identificar.





 






Didi
Didi

“Didi jogava quieto. Mostrando a bola dizia:  - Quem corre é ela”.























Pedro Rocha
Gol de Rocha

“Pedro Rocha deslizava com cobra no pasto. Jogava com prazer, dava prazer: o prazer do jogo, o prazer do gol”.








  O Fim da Partida

“Uma jornalista perguntou à teóloga alemã Dorothee Solle:
- Como a senhora explicaria a um menino o que é a felicidade?
- Não explicaria - respondeu. - Daria uma bola para que jogasse”.

“Por mais que os tecnocratas o programem até o mínimo detalhe, por muito que os poderosos o manipulem, o futebol continua querendo ser a arte do imprevisto. Onde menos se espera salta o impossível, o anão dá uma lição ao gigante, e o negro mirrado e cambaio faz de bobo o atleta esculpido na Grécia”.

Vale a pena conferir! Apesar do título, o livro nos mostra, em suas 264 páginas, que o futebol tem muito mais Sol do que Sombras!


Domingos D'Angelo pode ser considerado o "José Mindlin do futebol". É dono de uma biblioteca com mais de 2 mil livros sobre futebol. É criador do Memofut (Literatura e Memória do Futebol), grupo que se reúne mensalmente no Museu do Futebol.

Para conhecer Domingos D'Angelo, vale a pena ler a entrevista feita pelo excelente site Ludopédio.

http://www.ludopedio.com.br/rc/index.php/entrevistas/artigo/482

Um comentário:

  1. Uma majestosa perda para o mundo e a humanidade, em especial para a América Latina.
    Enfim, as Veias que se abriram para o Mundo, se fecharam...
    ¿E aí? Pregunto: como pode um minúsculo país do continente americano do sul, produzir alguém tão notável?
    As Veias Abertas da América Latina, um clássico no estilo, que foi folheado por mim, lá pelos idos dos anos 80, quando comecei a descobrir a minha identidade continental. Nunca mais deixei de folhear este livro tão importante para a minha formação ideológica.
    Valeu Dudu, pelo legado que deixas.
    André, um abraço.
    Autor do texto, obrigada.

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